Resumo
História da África

Lutz van Dijk:
Die Geschichte Afrikas
Frankfurt am Main: Campus Verlag, 2004
231 S.
ISBN 3-593-37101-4
Tradução para o inglês:
A History of Africa (Tafelberg Publ., 2004)
Conteúdo Lutz van Dijk não vê África como um continente pontual, com um estatuto especial de livre interpretação, mas sim como parte integrante do Universo e de uma contextura cultural global. É neste sentido que van Dijk também estrutura a sua História da África, dividindo-a em quatro partes. A primeira, que ele designa por "Eras africanas: onde tudo começou", com um hiato gigantesco que se expande de 550 milhões de anos a.C. até 5000 anos a.C., é consagrada à África que tem que ser vista como berço da Humanidade e, por consequência, da Civilização. Aqui se narra sobre o homem primitivo, as primeiras línguas, o desenvolvimento da humanidade e os movimentos migratórios, primordiais de África, para as outras partes do mundo.
A estruturação da convivência humana nas civilizações africanas é analisada por van Dijk na segunda parte da sua obra, que nos leva do ano 5000 a.C. até ao ano 1500 d.C. Aqui se narra sobre o Egipto, a Núbia, os povos pigmeus e bantús, as suas crenças, os espíritos dos ancestrais, a Era Apostólica até ao Islão.
Na terceira parte, van Dijk debruça-se sobre o período compreendido entre 1500 e 1945, por ele intitulado como "A opressão de África" durante o qual "os europeus partilharam entre si um continente". Pontualmente são aqui focadas, entre outras, as questões da escravatura, dos genocídios e das actividades missionárias.
Finalmente, na última parte é abordado o período que vai de 1946 até ao presente, a era das "libertações africanas", que porém se revelam como um muito longo caminho para a liberdade: da situação da mulher até ao termo do apartheid, das crianças-soldados até às questões que envolvem a SIDA e o renascimento africano. O livro torna-se mais animado e movimentado devido às numerosas ilustrações assinadas por Dennis Doe Tamakloe.
Comentário
Lutz van Dijk: Die Geschichte Afrikas
(História da África)
Van Dijk não escreve uma história estrutural que se vai limitar apenas a enfoques económicos e políticos. Baseado em exemplos de estudos de caso, o autor aposta na mensagem de que a história é feita por acções humanas. Assim sendo, os africanos e as suas formas de vida, não são para o autor objectos de análise mas sim actores da história. Paradigmaticamente, ele coloca logo no início da sua história da África uma afirmação de Léopold Sedar Senghors, escritor senegalês e primeiro presidente do seu país: "Deixem que eles possam falar e, sobretudo, agir. Como levedura, deixem que possam transmitir a sua mensagem para assim contribuírem para a criação da civilização do universo." Lutz van Dijk consagra o seu empenho para que "os africanos se possam finalmente pronunciar directamente em vez de nós nos pronunciarmos sobre eles; símbolos e características não sejam transpostos de imediato mas sim mantidos na sua harmonia". Simultaneamente o autor reflecte sobre a sua própria responsabilidade perante a matéria que descreve bem como sobre o facto de nas suas narrações se encontrar perenemente limitado por não possuir o ângulo de visão africano, o que conduz van Dijk à afirmação de que "a verdadeira história da África [...] só poderá ser escrita, por forma paulatinada" pelo punho de jovens africanos "numa nova linguagem e caracterizada pelo seu próprio entendimento da história". Por este motivo o autor retém que a sua obra é "incompleta e se mantém cunhada por muitas limitações".
Pela forma desvendada, frequentemente de advertência e, por vezes, isenta de criticismo – que, ocasionalmente, pode ser irritante – o seu apologismo por uma visão africana da África associa-se ao conceito do livro que engloba numerosas fontes históricas e literárias africanas com observações e afirmações de testemunhas epocais, cuja autenticidade é atestada pelo contexto e não pela indicação de fontes comprováveis. É assim que, por exemplo, a relevância que as duas Guerras Mundiais tiveram para a África e os seus habitantes, fica delineada num capítulo próprio. Incluídas neste esquiço deparamos com longas citações de Du Bois, cientista afro-americano e fundador do panafricanismo W.E.B. sobre as "atrocidades da Primeira Guerra Mundial", de Ahmed Sékou Touré, primeiro presidente da Guiné, sobre a versão colonial da história, bem como da resolução assinada por muitos posteriores presidentes de estados africanos independentes durante o quinto congresso panafricano, realizado em Manchester em 1945, que é um testemunho de uma nova auto-consciencialização africana: "Estamos decididos a sermos livres". É certo que se pode colocar a questão porque é que para esta e outras fontes de abrangente relevância para o leitor interessado, não são reveladas as respectivas fontes comprovatórias. Esta carência é porém corrigida na tradução inglesa da edição sul africana do livro.
A "História da África" é de fácil compreensão, escrita por forma cativante e correspondentemente ilustrada, estimulando também a curiosidade pela leitura de textos literários africanos. No final do livro, um quadro cronológico detalhado e com comentários, facilita ao leitor um rápido acesso bem como uma visão complementar sobre a estrutura da obra. A editora aconselha mesmo a leitura do livro para jovens com idade superior a 12 anos. É de partilhar plenamente a posição defendida por Andreas Eckert, critico do semanário "Die Zeit", que gostaria que o livro de Lutz van Dijk fosse também lido por "numerosos leitores" para alem desta faixa etária.










