Resumo
Sombo, a menina do rio

Sombo, das Mädchen vom Fluss
Weinheim: Beltz & Gelberg, 1990
108 S.
ISBN 3-407-80064-9
Edição de bolso: Beltz & Gelberg, 1994
Sombo, uma menina de doze anos, narra o seu dia-a-dia numa aldeia tradicional. O pai de Sombo parte para a caça, a mãe planta milho e legumes. As meninas apanham peixe no rio e receiam os crocodilos. Tomam conta dos irmãos mais pequenos, mas também vão à escola e têm uma paixoneta pelo professor, como sucede com as meninas em todo o mundo. Porém, acontecem, igualmente coisas perturbadoras. A avó de Sombo é acusada de bruxaria e expulsa de casa. A idosa mulher não consegue superar esta provação e mata-se. Depois, os elefantes invadem a aldeia. Conseguem afugentá-los com os tambores e o fogo, mas as colheitas estão irremediavelmente perdidas. Os habitantes da aldeia teriam morrido à fome, se não tivessem abatido um dos elefantes – clandestinamente, pois há anos que a caça é proibida e eles são vistos como caçadores furtivos, sendo forçados a esconder dos guardas florestais as suas presas. Depois é a mãe que tem de ir para o hospital. Sombo tem de faltar à escola semanas a fio para tratar da mãe e cuidar dos irmãos mais pequenos. O seu maior anseio é estudar muito e ser um dia professora ou enfermeira!
Uma manhã, Sombo descobre que teve a primeira menstruação. As coisas não voltam mais a ser como dantes. É levada para o campo de "mukanda".
Durante dois meses tem de se submeter a rituais de iniciação que não compreende e que lhe provocam medo. Mas quando, no fim, dança perante os habitantes da aldeia, Sombo também sente orgulho, pois agora é considerada uma mulher adulta. Daqui para a frente, já não lhe é permitido viver com os pais, mas o professor consegue que ela possa ir para a cidade frequentar o ensino secundário.
Conto para crianças com mais de 10 anos.
Comentário
Nasrin Siege: Sombo, das Mädchen vom Fluss
(Sombo, a menina do rio)
Sente-se com Sombo, logo de início, o frio cortante da manhã, na forma como resiste a separar-se do corpo do irmãozinho, que toda a noite aconchegara contra o seu. É com alívio que nos acocoramos com ela em frente do fogo para receber o seu calor e sentimos na pele os primeiros raios de sol ou a água fresca do rio em que Sombo se lava.
Apesar de as experiências de Sombo poderem parecer estranhas aos alunos alemães, como se ela habitasse um outro planeta, a sua vida no mato não deixa de ser compreensível, pois há momentos em que Sombo se nos mostra muito próxima.
No posfácio, Nasrin Siege assegura-nos da existência real de aldeias tradicionais como aquelas em que Sombo vive no Rio Cabompo do noroeste da Zâmbia. As pessoas sofrem aí de uma pobreza extrema e, apesar de haver escolas e hospitais, muitas das leis do estado moderno só contribuem para tornar a vida ainda mais difícil. Desde que os animais selvagens estão sob protecção, os orgulhosos caçadores de outrora reduzem-se agora à condição de caçadores furtivos. "Quando partimos para a caça", diz o pai, "é com medo e a consciência de estarmos a fazer uma coisa proibida". Se a prometida indemnização relativa aos campos espezinhados pelos elefantes algum dia virá, é uma incerteza. Muita matéria de reflexão para nós, que muitas vezes pomos a protecção dos animais selvagens em África à frente da protecção das pessoas.
A própria Sombo, que admira o seu professor, terá um dia de abandonar a aldeia, para poder viver como ele. Mas na cidade a situação não é necessariamente melhor, como o demonstra o destino da sua tia mais nova, que um dia ousou partir, mas regressou desiludida. A mãe avisa-a todos os dias contra perigo da cidade. "É de lá que vem o mal", diz ela então com voz troante. "O mal está é no rio", respondi-lhe eu uma vez. Então, ela riu-se e disse: "O mal que vem do rio é-nos familiar. Mas o mal que vem da cidade a gente não o conhece e por isso ele tem poder sobre nós". Nunca se denuncia o medo dos pais perante o desconhecido, mas, como todos os jovens do mundo, também Sombo tem de aprender a depender de si própria e a confiar nas suas aspirações. Tem de aprender que o mundo é susceptível de transformação e que é ela que o pode transformar.
Não existe na vida dos jovens europeus uma experiência que se possa comparar à da escola de iniciação no mato. Siege não esclarece o contexto em que os ritos se inserem e o sentido de cada um deles também para Sombo permanece obscuro. Os sentimentos que nela predominam são o medo e o desamparo. A professora de iniciação é insensível e está muitas vezes embriagada. Não tenta confortar as jovens assustadas, quando lhes inflige cortes rituais nas costas e no ventre. É irreprimível durante a leitura o impulso de intervirmos, mantendo-se sempre viva em pano de fundo a questão: que sentido pode ainda hoje fazer tal cerimónia? Contudo, Siege narra ainda o regresso triunfal das meninas iniciadas à sua aldeia, onde as mulheres dançam e cantam. Também isto constitui matéria de reflexão, pois não existe na cultura ocidental uma iniciação que facilite a difícil passagem da infância para a idade adulta.
A iniciação agudizou o conflito interior de Sambo. Queria tornar-se igual às outras mulheres e ser amada e aceite pela família, mas também está decidida a abandonar o tipo de vida tradicional. Os pais e os avós não estão muito contentes com a sua decisão, mas de certa forma sentem orgulho da filha inteligente e decidida e deixam-se convencer pelo professor. Nasrin Siege torna assim claro que se pode mudar a vida. Com um objectivo firme diante dos olhos, é possível deixar para trás tradições aparentemente inelutáveis. O segundo volume da história de Sombo, "Como o rio da minha aldeia" (1994) irá retratar as experiências de Sombo na escola secundária.
É raro encontrar um livro juvenil em que a história de uma menina da África rural se torne, de forma tão empática e manifesta, compreensível para um jovem alemão. Não é, por isso, de estranhar que a história de Sombo tenha sido distinguida em 1994, juntamente com o volume de continuação, com o Prémio do Livro Juvenil da Delegada para Assuntos de Estrangeiros do Senado de Berlim. É um prémio bem merecido.
Apesar de as experiências de Sombo poderem parecer estranhas aos alunos alemães, como se ela habitasse um outro planeta, a sua vida no mato não deixa de ser compreensível, pois há momentos em que Sombo se nos mostra muito próxima.
No posfácio, Nasrin Siege assegura-nos da existência real de aldeias tradicionais como aquelas em que Sombo vive no Rio Cabompo do noroeste da Zâmbia. As pessoas sofrem aí de uma pobreza extrema e, apesar de haver escolas e hospitais, muitas das leis do estado moderno só contribuem para tornar a vida ainda mais difícil. Desde que os animais selvagens estão sob protecção, os orgulhosos caçadores de outrora reduzem-se agora à condição de caçadores furtivos. "Quando partimos para a caça", diz o pai, "é com medo e a consciência de estarmos a fazer uma coisa proibida". Se a prometida indemnização relativa aos campos espezinhados pelos elefantes algum dia virá, é uma incerteza. Muita matéria de reflexão para nós, que muitas vezes pomos a protecção dos animais selvagens em África à frente da protecção das pessoas.
A própria Sombo, que admira o seu professor, terá um dia de abandonar a aldeia, para poder viver como ele. Mas na cidade a situação não é necessariamente melhor, como o demonstra o destino da sua tia mais nova, que um dia ousou partir, mas regressou desiludida. A mãe avisa-a todos os dias contra perigo da cidade. "É de lá que vem o mal", diz ela então com voz troante. "O mal está é no rio", respondi-lhe eu uma vez. Então, ela riu-se e disse: "O mal que vem do rio é-nos familiar. Mas o mal que vem da cidade a gente não o conhece e por isso ele tem poder sobre nós". Nunca se denuncia o medo dos pais perante o desconhecido, mas, como todos os jovens do mundo, também Sombo tem de aprender a depender de si própria e a confiar nas suas aspirações. Tem de aprender que o mundo é susceptível de transformação e que é ela que o pode transformar.
Não existe na vida dos jovens europeus uma experiência que se possa comparar à da escola de iniciação no mato. Siege não esclarece o contexto em que os ritos se inserem e o sentido de cada um deles também para Sombo permanece obscuro. Os sentimentos que nela predominam são o medo e o desamparo. A professora de iniciação é insensível e está muitas vezes embriagada. Não tenta confortar as jovens assustadas, quando lhes inflige cortes rituais nas costas e no ventre. É irreprimível durante a leitura o impulso de intervirmos, mantendo-se sempre viva em pano de fundo a questão: que sentido pode ainda hoje fazer tal cerimónia? Contudo, Siege narra ainda o regresso triunfal das meninas iniciadas à sua aldeia, onde as mulheres dançam e cantam. Também isto constitui matéria de reflexão, pois não existe na cultura ocidental uma iniciação que facilite a difícil passagem da infância para a idade adulta.
A iniciação agudizou o conflito interior de Sambo. Queria tornar-se igual às outras mulheres e ser amada e aceite pela família, mas também está decidida a abandonar o tipo de vida tradicional. Os pais e os avós não estão muito contentes com a sua decisão, mas de certa forma sentem orgulho da filha inteligente e decidida e deixam-se convencer pelo professor. Nasrin Siege torna assim claro que se pode mudar a vida. Com um objectivo firme diante dos olhos, é possível deixar para trás tradições aparentemente inelutáveis. O segundo volume da história de Sombo, "Como o rio da minha aldeia" (1994) irá retratar as experiências de Sombo na escola secundária.
É raro encontrar um livro juvenil em que a história de uma menina da África rural se torne, de forma tão empática e manifesta, compreensível para um jovem alemão. Não é, por isso, de estranhar que a história de Sombo tenha sido distinguida em 1994, juntamente com o volume de continuação, com o Prémio do Livro Juvenil da Delegada para Assuntos de Estrangeiros do Senado de Berlim. É um prémio bem merecido.
Ingrid Laurien, 2010
Links
Tor-nach-Afrika.de
Documentação sobre uma sessão de leitura de Nasrin Siege com alunos
Ajum.de
Recensões acerca de „Sombo“ e outros livros de Nasrin Siege
Hanisauland.de
Recomendação no site infantil da Agência Federal para a Educação Política
Leseforum Bayern
Recomendação do Leseforums Bayern/Fórum de Leitura da Baviera
Lesezeichenladen.de
Recensão de uma jovem de 12 anos










