Die Stunde des Schakals

Resumo

A hora do chacal

Bernhard Jaumann
Die Stunde des Schakals
Reinbek bei Hamburg: Kindler, 2010
318 S.
ISBN 978-3-463-40569-8
Tradução para o inglês:
The Hour of the Jackal (John Beaufoy Publishing, 2011)

Windhoek inteira padece debaixo do imenso calor de janeiro e espera ansiosamente que as primeiras camadas de nuvens cinzentas provenientes do Nordeste comecem a descer pelo país. À noitinha de um domingo, no Bairro das Embaixadas Ludwigsdorf, um homem é morto com uma arma AK 47 quando se encontrava a regar os seus limoeiros. As investigações ficaram a cargo da jovem inspetora judiciária Clemencia Garises, conhecida pelo seu alto nível profissional. Já no dia seguinte os indícios conduzem a que o cadáver poderia ser de um tal Abraham “Slang” van Zyl (a serpente), que, como antigo membro da Civil Corporation Bureau (CCB) do serviço secreto sul-africano, estaria envolvido no assassinato do advogado da SWAPO Anton Lubowski. O assassino volta a atacar: em pouco espaço de tempo, são mortos mais três antigos agentes da CCB, acusados de estarem igualmente envolvidos no atentado contra Lubowski: Leon André “Chappies” Maree, morto com uma AK 47 à beira da estrada de Windboek para o aeroporto de Hosea-Kutako, Daniel du Toit “Staal” Burger, na sua casa em Hluhluwe, KwaZulu Natal, igualmente abatido com uma AK 47 e Ferdi Barnard, na prisão de alta segurança de Pretória, onde foi encontrado morto na cela. Dois dos presumíveis responsáveis pelo atentado contra Lubowski ainda se encontram vivos: um apenas conhecido pela alcunha “Donkerkop” e o atirador Donald “The Cleaner” Acheson.

Dezanove anos mais tarde, Clemencia Garises não tem apenas que se debater intensivamente com os acontecimentos ocorridos pouco antes de acabar o apartheid, como também, simultaneamente, proteger os antigos membros de um comando de morte do regime de apartheid contra o assassino que, com extrema brutalidade e precisão executa as suas operações de vingança. Ela pouco tempo tem à sua disposição pois soube que o assassino está prestes a morrer, vitimado por doença, e só lhe restam alguns poucos dias de vida. Quem é este assassino, cuja fúria de vingança faz correr o sangue de várias pessoas? E porque é que esta velha vingança tem apenas lugar dezanove anos após a morte de Lubowski?

Hans-Volker Gretschel, 2011
tradução de Fernando-Cesário de Almeida

    Comentário

    Bernhard Jaumann: Die Stunde des Schakals
    (A hora do chacal)

    No romance “A hora do chacal” laureado com o Deutsche Krimipreis de 2011 – categoria nacional (Prémio alemão do livro policial), Bernhard Jaumann remete o leitor para os desditosos e contraditórios factos e motivos ligados ao assassinato, em setembro de 1989 e até à data por esclarecer, de Anton Lubowski, advogado do movimento de libertação da Namíbia (SWAPO). O romance policial e thriller político é empolgante e de acelerado movimento, oscilando, por forma subtil, entre a realidade dos factos e um entretimento policial de elevado nível. As inconsistências do atentado que vitimou Lubowski oferecem ao autor uma oportunidade de cogitar sobre o que poderia resultar de um facto real inexplicável. No caso em apreço, trata-se de um romance mesmo quando várias personagens possam estar ligadas a ações cometidas na realidade. Jaumann coloca-as num espaço exclusivamente fictício. Mantém-se a opção para o autor de abordar no seu romance um capítulo ainda por esclarecer da jovem história namibiana e do movimento de libertação SWAPO e ousar um ato de equilíbrio entre uma reabertura de velhas cicatrizes e a interpretação unilateral dos factos reais. Bernhard Jaumann está consciente que se encontra perante uma situação bicuda o que o leva a sublinhar no seu “epílogo necessário”: “No caso de alguém considerar insuportável a visualização da minha narração sobre o que poderia ter acontecido, poderá optar pela via do recurso à justiça. Talvez se chegue assim a um processo que ilumine finalmente os acontecimentos ou que - como afirma um dos meus personagens – se possa tornar para alguns ainda mais desagradável do que para o próprio acusado”.

    Bernhard Jaumann encontra uma solução genial ao permitir que os três protagonistas que possuem informações internas sobre o assassinato de Lubowski, possam refletir, por via de monólogos, sobre as ocorrências de então. Desta forma surge uma perspectiva diversificada, interessante e instrutiva, que parte de três visões completamente dispares: “Donkerkop” narra a partir do anonimato, como coautor do atentado contra Lubowski, Ndangi Oshivelo, vice comissário da polícia da Namíbia, na qualidade de alto funcionário da SWAPO e antigo amigo de Lubowski e Hendrik Fourie, como ex-juiz que, em 1990, libertou, sob fiança, o suspeito atirador Donald Acheson, pelo facto do Ministério Político da Namíbia ter retirado a acusação do arguido, argumentando a ausência de suficientes provas.

    Como um outro trunfo de Bernhard Jaumann revela-se a inspetora judiciária Clemence Garises, descendente de uma grande família do township de Katutura, que, após o atentado que vitimou Abraham “Slang” van Zyl, ficou encarregada do processo de investigação criminal do assassinato. Clemencia Garises, que é a única da sua entidade policial a possuir um grau académico de “master” em criminologia, tem de lutar, em Windhoek, contra a falta de profissionalismo dos seus colegas, a desconfiança e o racismo pouco camuflado dos brancos e as exigências da grande família. Através da sua linguagem despretensiosa e de observação perspicaz, o autor transmite uma imagem precisa da sociedade namibiana. Com compreensão e conhecimentos de causa descreve o papel da mulher, o quotidiano em Katutura e o significado e relevância da grande família. Clemencia Garises tem de se ocupar constantemente, para além das suas tarefas de investigação, das pequenas e grandes catástrofes que ocorrem no quotidiano da sua família. Esta dupla carga é apresentada por Bernhard Jaumann com muita delicadeza e sentido de humor, transmitindo ao leitor, por forma impressionante, a visão de uma sociedade que, por um lado, ainda se encontra enraizada nos preceitos tradicionais, mas que, por outro, é obrigada a se confrontar com os desafios de um grande e moderno centro urbano. Finalmente Clemence Garises inicia ainda um prudente namoro com Claus Tiedtke, jornalista de língua alemã do Allgemeine Zeitung, o que conduz a uma das cenas mais cómicas do romance. Devido à sua personalidade simpática e plurifacetada, Clemenca Garises reúne todas as condições para se tornar uma figura de culto da sociedade namibiana.

    Bernhard Jaumann, revela-se indubitavelmente como narrador empenhado e de profundos conhecimentos de histórias policiais, que sabe perfeitamente como criar e manter o suspense à sua volta e ainda como colocar pistas falsas a serem desvendadas e assim induzir o leitor em erro.

    Segundo o próprio autor, a personalidade de Anton Lubowski e as circunstâncias da sua morte sempre o cativaram. Por esse motivo empreendeu detalhadas investigações para o seu romance que, frequentemente, revelaram as muitas incongruências, graves erros de técnica criminológica e ausências de perseguição de indícios importantes no processo de inquisição do assassinato de Lubowski. O seu romance não tem a intenção de ser um reprocessamento jurídico dos acontecimentos ocorridos a 12 de setembro de 1989, mas o autor não deixaria de se congratular se conseguisse, com a sua obra, contribuir para a descoberta da verdade no enigmático processo. Por isso escreve no epílogo: “seria seguramente do meu agrado se este romance pudesse contribuir para que o assassinato a Lubowski fosse reativado na ordem do dia e fosse, eventualmente, aplicada a merecida justiça”. Este empenho do autor qualifica a sua obra.

    No final do livro encontra-se um glossário com explicações sobre importantes conceitos usados na Namíbia e na África do Sul que contribuem para uma melhor compreensão do texto. Estes “namibismos” não são apenas acessórios folclóricos destinados a emprestar ao texto um colorido local mas são, sobretudo, elementos essenciais para uma apresentação coerente da forma de vida e da autoimagem do povo namibiano.

    A absurdidade do assassinato de Anton Lobowski é comprovada pelo facto de não ter podido impedir, em 1989, as primeiras eleições gerais, livres e secretas jamais realizadas na Namíbia, as quais conduziram, a 21 de março de 1990, não só à independência da Namíbia como também à aproximação de extremistas de esquerda e de direita e, finalmente, à paz no país. Como se todos os partidos se mostrassem agora cansados de matar. “A hora do chacal” presta homenagem a este agitado período e à pessoa de Anton Lubowski, através de uma obra literária desafiadora, emocionante e distractiva.

     

    Hans-Volker Gretschel, 2011
    tradução de Fernando-Cesário de Almeida

    Links

    Focus Online   deutsch

    Breve descrição e comentário de Horst Eckert (29.06.2010)

    Krimi-Couch.de   deutsch

    Recensão de Wolfgang Franßen, abril de 2010

    Rowohlt Magazin   deutsch

    Artigo sobre o romance: breve descrição, contexto histórico e links complementares sobre o autor