Martin tom Dieck

A água é um elemento importante que aparece em quase todos os quadrinhos do desenhista Martin tom Dieck, de Hamburgo. Ele usa a água como metáfora para visualizar o mundo interior dos sentimentos e dos pensamentos de seus protagonistas. Deixando-se levar pela vida, eles tentam escapar do redemoinho das decisões. Um exemplo disso encontra-se na história “Der unschuldige Passagier" (O passageiro inocente, 1993), em que um viajante, que pretende conseguir uma mudança de rota, erra pelo navio inteiro, da ponte de comando até a sala das máquinas, à procura do capitão. Em sua andança, ele se depara com uma tripulação sem comandante, que permanece fielmente a postos, e outros passageiros que aceitam sua situação. Mas ninguém está disposto a assumir a liderança.
No álbum posterior “Hundert Ansichten der Speicherstadt" (Cem vistas da cidade dos armazéns, 1997) predomina o elemento fundamental da água tanto na narrativa quanto no aspecto gráfico. Em quadros de página inteira, sem palavras, o observador vagueia pela zona dos armazéns de Hamburgo, uma área do porto hoje desativada em que se descarregavam os navios. O protagonista, que em sua figura e mímica lembra Buster Keaton, se move num espaço indefinido em que parece diluir-se, porque tom Dieck faz com que fique deslizando pela água, debaixo dela e sobre ela. Cada representação, seja de figuras humanas ou seja de materiais líquidos ou sólidos, é desenhada em traços finos ou grossos, recurvos ou retos. Em conseqüência disso, tudo se torna fluido, desenvolvendo uma sinergia dramática. “Monsieur Lingus’ Wissen über Wasser (O conhecimento de Monsieur Lingus sobre a água, 2001) também trata do elemento líquido, como já se depreende do próprio título. Mas a história em imagens e palavras é bem mais obscura, sendo dominada por seqüências sonâmbulas e surreais.
Em “Salut Deleuze” (2000) e “Neue Abenteuer des unglaublichen Orpheus (Novas aventuras do incrível Orfeu, 2001), tom Dieck e Jens Balzer fazem uma leitura analítica da obra de Gilles Deleuze, “Differenz und Wiederholung" (Diferença e repetição). Desta vez, a água simboliza a passagem da vida para o reino da morte, o Hades. No primeiro volume se descreve cinco vezes com as mesmas imagens a travessia de Deleuze, com a ajuda do barqueiro Caronte, e o cumprimento de velhos conhecidos como Roland Barthes, Michel Foucault e Jacques Lacan na outra margem. Enquanto a seqüência das imagens se repete, mudam, no entanto, os diálogos que se referem tanto ao passado quanto ao presente e ao futuro. O álbum seguinte reúne as tiras publicadas anteriormente no jornal Frankfurter Allgemeine (FAZ) em que a dupla de autores relaciona os filósofos supracitados com os múltiplos problemas da vida. Movido pelo desejo de transformar o uso tradicional do desenho, Martin tom Dieck investiga as possibilidades representativas e narrativas da HQ.
Suas ilustrações são publicadas regularmente em jornais diários e semanários, como por exemplo Süddeutsche Zeitung, Libération e Die Zeit, entre outros. Atualmente, é professor de ilustração na Escola Superior de Artes Muthesius em Kiel.
Matthias Schneider
é cientista cultural, jornalista cultural free-lance e curador de jornadas de cinema e exposições que têm os quadrinhos como tema
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Maio de 2009



















