Estudos interculturais de quadrinhos: Relato da conferência “Comics Worlds and the World of Comics”

Em dezembro de 2009 foi realizada a primeira conferência internacional do International Manga Research Center da Universidade de Seika, em Quioto. Um desiderato claro: aplicar a interculturalidade dos quadrinhos à ciência.
Congressos científicos sobre quadrinhos já não faltam. Para a maioria deles, é necessário viajar aos EUA, mas nos países de expressão alemã a oferta também tem aumentado. Os congressos anuais de outono, realizados pela Sociedade de Pesquisa em Quadrinhos desde 2006, já se tornaram célebres. É ocasião para estudar o potencial interdisciplinar das abordagens mais diversas, a partir de um objeto comum. Porém, a interculturalidade ainda não está estabelecida nos Estudos dos Quadrinhos.
Especificidades culturais
Em primeiro lugar, há a dificuldade da língua estrangeira e a escassez de traduções disponíveis. Certamente a bande dessinée hoje em dia é objeto de estudos científicos em inglês e alemão, e os mangás japoneses têm um alcance muito além dos pesquisadores da cultura japonesa, mas quando se fala em “historietas ilustradas” chinesas ou “cómic latinoamericano”, o leitor ainda depende da respectiva área de estudos linguísticos e culturais regionais. Porém, mesmo na área de letras (línguas neolatinas, inglês ou alemão), em que a formação original dos pesquisadores em quadrinhos parece não ter importância alguma, dado que eles estudam a narratologia e a linguagem dos quadrinhos de uma forma mais geral, as especificidades culturais tornam-se visíveis e dificultam um intercâmbio científico intercultural se não forem tematizadas.Um sintoma dessa tendência nos países de expressão alemã é a discussão de elementos estéticos universais dessa mídia somente baseada em exemplos europeus e norte-americanos, e só considerando os mangás como um verdadeiro artefato cultural. Um congresso de quadrinhos, por exemplo, que queira tematizar o intercâmbio intercultural, precisa dar grande destaque a palestras sobre os mangás, porque não há outros candidatos, como se a interculturalidade fosse irrelevante no contexto da produção ocidental. Por tal motivo, os pesquisadores europeus, que falam sobre mangás a partir de uma visão supostamente universal, muitas vezes desperdiçam a chance de abordar questões inusitadas e portanto realizar estudos que se diferenciem dos seus colegas japoneses, por não terem tido acesso aos estudos deles em tradução.
Diferentes interesses de pesquisa
Um dos objetivos da primeira conferência internacional do International Manga Research Center da Universidade de Seika, em Quioto, em dezembro de 2009, foi sanar essa situação, ou seja, dar visibilidade às principais personalidades do discurso científico japonês sobre os mangás. Diferentemente do que é comum no Japão, o foco deste congresso não era o eu, mas o outro. As palestras sobre outras culturas de quadrinhos não pretendiam contrastar com os mangás para conferir maior destaque ao sucesso dos mangás, nem ilustrar a variedade nacional e histórica com uma simples enumeração de dados. O objetivo era mais profundo, mais fundamental: discutir como os pesquisadores das mais variadas origens e abordagens podem encontrar uma forma de diálogo e definir se eles realmente têm um objeto de estudo comum ao estudarem quadrinhos, histórias ilustradas, bande dessinée, historietas, mangás e manhuas.
Em termos de definições formais, não foi difícil encontrar pontos em comum, mas a relação entre indústria cultural e arte, gênero e autoria, cultura nacional e cultura dos adeptos de quadrinhos foi avaliada de forma bastante divergente. Isso se deve tanto aos diferentes graus de modernização nas sociedades europeias e asiáticas quanto aos interesses variados dos pesquisadores das ciências humanas e sociais, além de características específicas das gerações. Quando o famoso semioticista dos quadrinhos Thierry Groensteen constatou, depois de falar sobre a heterogeneidade da cultura de quadrinhos franco-belga, que para inovar seria necessário estar ciente da própria tradição cultural, Christina Plaka fez um comentário inusitado, que certamente foi surpreendente para o público japonês: “Mas eu fui criada com os mangás, isso também é a minha tradição cultural”.
Graças ao apoio do Goethe-Institut do Japão e da Japan Foundation e um projeto da pesquisadora de mangás Ōgi Fusami, foi possível convidar Trina Robbins e Wendy Wong, Pascal Lefèvre e Natsume Fusanosuke, Cheng Tju Lim e Kees Ribbens como interlocutores do diálogo em Quioto. Esses pesquisadores têm publicações pertinentes na área e demonstraram muito interesse pelas experiências dos outros, também dos novos talentos e colegas de outras áreas afins, como por exemplo do pesquisador em teoria literária Kawaguchi Takayuki e do historiador da arte Kajiya Kenji, que apresentaram uma mesa-redonda sobre Gen Pés Descalços juntamente com Thomas LaMarre, o autor de The Anime Machine (2009), ou ainda do sociólogo da arte Thomas Becker, de Berlim. Os resultados serão publicados nos anais do congresso, que estarão disponíveis para download gratuito, em japonês e inglês, no site do International Manga Research Center [a partir de meados de setembro].
Andreas Seifert: Bildgeschichten für Chinas Massen. Comic und Comicproduktion im 20. Jahrhundert [Histórias ilustradas para as massas da China. Quadrinhos e produção de quadrinhos no séc. XX]. Colônia: Editora Böhlau 2008.
é professora de Ciências da arte e da mídia na Faculdade de Mangá da Universidade Kyoto Seika, Japão.
Goethe-Institut Tóquio
Setembro de 2010
Perguntas sobre este artigo? Escreva-nos!
online-redaktion@goethe.de
Links relacionados
- Gesellschaft für Comicforschung

- Internationale Tagung „Tiras y Tirajes. Variaciones y contextos del cómic latinoamericano“, Oktober 2009, Freie Universität Berlin

- Konferenz „Intercultural Crossovers, Transcultural Flows: Manga/Comics“, 30.09.–02.10.2010

- Internationale Tagung „Comics: Zum Stand der kulturellen Legitimität eines intermedialen Mediums“, November 2009, Freie Universität Berlin












Ampliar







