A abordagem de Karin Beier, porém, conta com duas respeitáveis testemunhas principais: Peter Brook e William Shakespeare. No início de sua carreria, ela uniu o conceito de Brook de uma linguagem universal do teatro com a tradição das exigentes peças populares de Shakespeare. O resultado foi uma produção que certamente se tornou uma das experiências teatrais mais fabulosas dos anos 90. Na Itália e em Düsseldorf, trabalhando com quatorze atores vindos de nove países, Karin Beier elaborou um "Sonho de uma Noite de Verão" multilíngüe e em múltiplos estilos, e encenou a peça num espaço vazio. As falas eram em polonês, russo, italiano, francês, húngaro e alemão, e a representação seguia toda gama de estilos históricos, desde a commedia dell'arte, até o teatro de Brecht.
Com esse espetáculo de atores, sem acessórios e sem pompa, o trabalho sobre Shakespeare - que ela vinha desenvolvendo há anos - e com o qual ela já tinha sido bem-sucedida quando trabalhava num grupo independente, sob o diretor Elmar Goerden, e também como diretora em Düsseldorf - encontrou uma forma maravilhosamente concentrada e nova. Mesmo que tenha falhado na tentativa de repetir tal experiência em Colônia, com "A Tempestade" de Shakespeare - nesta peça, a interpretação de texto tem um outro grau de importância - Karin Beier, desde aquele tempo, na metade dos anos 90, vem sendo muito requisitada como expert em teatro criativo de atores.
Nos anos seguintes, particularmente no teatro Schauspielhaus de Hamburgo - na época dirigido por Frank Baumbauer - ela produziu peças dos mais diversos autores, transformando-as em selvagens espetáculos sobre o palco, muitas vezes ao estilo de uma comédia-pastelão. Encenou Eskalation ordinär/Escalation: obscene de Werner Schwab, "A Laranja Mecânica", de Anthony Burgess, "Como Gostais", de Shakespeare, bem como Futur II/Future II, projeto elaborado por ela mesma, que trata do comportamento de pessoas que vivem como eremitas contemporâneos, emparedados pela mídia. E todos esses materiais ela transformou numa festa para os atores.
No entanto, o seu jeito despreocupado de lidar com os meios teatrais - por exemplo, transformando os horrores do teatro da peça de Werner Schwab numa revista de números circenses, com acrobacias e pantominas - não recebe somente aplausos. Uma vez que suas produções eram alheias a grandes ponderações e ruminações, os assuntos relacionados com a violência e os conflitos sociais muitas vezes eram apresentados de maneira exageradamente pop. Já em seus trabalhos posteriores, sobretudo em Bochum, Colônia e Munique, ela procurou cada vez mais atualizar as dimensões políticas em suas peças.
A sua produção em Bochum de "Ricardo III", por exemplo, foi uma reação imediata aos eventos políticos internacionais do 11 de setembro e o bombardeio do Afeganistão que a eles se seguiu. Na peça "99 Graus", de Albert Ostermaier, estreada no teatro Kammerspiele de Munique, ela discute o tema da felicidade prometida pela química e a filosofia do consumo. E um de seus trabalhos mais recentes, novamente em Bochum - uma reinterpretação da peça “Minna von Barnhelm”, de Lessing, sobre o retorno ao lar após o término da guerra - ela procura dar conta da dissolução moral através de uma comédia mordaz. A abordagem teatral de Beier, mais orgânica que intelectual, pode parecer um pouco antiquada. Mas o seu tratamento mais otimista da arte da representação, e sua paixão pela magia do teatro, enriquecem a cena teatral, com uma boa dose de charme. Nas produções bem sucedidas, esse tipo de teatro evoca, no público, um assombro com o poder de expressão do homem e a compaixão pelas suas diferenças. E para tanto, tem que ser divertido.












