Hartmann, que apesar da pouca idade já passou por todas as etapas da direção teatral, tendo desempenhado funções desde diretor assistente nas províncias, passando por teatros de tamanho médio e grande, até se tornar uma estrela entre os diretores e dirigentes teatrais, a cada nova experiência cresceu em termos estéticos. No tempo de seus primeiros sucessos na direção teatral, ele ainda era considerado um jovem amigo de velhos métodos, que transformava materiais clássicos em sucessos de bilheteria através de grandes atuações teatrais. Hoje em dia, a sua preocupação é muito mais com a interpretação coerente dos autores contemporâneos.
Hartmann, no entanto, permanece fiel às exigências de um teatro que transmite e embeleza a obra. Uma de suas produções mais bem sucedidas do começo dos anos 90, a montagem cheia de imagens e elaboradamente moderna de Käthchen von Heilbronn, de Kleist, ficou em cartaz no teatro Deutsches Schauspielhaus de Hamburgo - normalmente voltado para um teatro mais experimental - durante sete anos, com enorme sucesso. Nessa encenação vemos o mesmo gesto convidativo como em seu novo vídeo-teatro. Por mais que ele faça uso dos novos recursos tecnológicos, como em suas produções mais recentes, Electronic City, de Falk Richter, e a adaptação da novela 1979, de Christian Kracht - colocando sobre o palco cinegrafistas em ação, diversos telões e técnicas digitais de mixagem - a subordinação da tecnologia à narrativa nunca é questionada. O uso intenso do vídeo como comentário ou contraposição, predominante em muitos teatros na Alemanha, é alheio a Hartmann.
Com esse amor pela narração lúdica, mas compreensível, Hartmann obteve muito sucesso junto ao público e aos políticos culturais; já as seções literárias dos periódicos mantiveram distância. O sentimento caloroso de boas vindas que a sua direção e sua gestão passam para o público levou o teatro Schauspielhaus de Bochum - que se encontrava em má situação - de volta ao sucesso. Graças a essa performance brilhante, ainda na metade de sua gestão como intendente, foram-lhe oferecidos dois dos mais importantes teatros de língua alemã (entre o Schauspielhaus de Zurique e o Schauspielhaus de Hamburgo, ele acabou se decidindo pelo primeiro, na Suíça).
Por outro lado, na opinião da crítica, o empenho de sua arte em prol da harmonia não estava em sintonia com os tempos atuais, e os críticos contrapuseram Hartmann aos principais diretores dos últimos 15 anos, Frank Castorf e Christoph Marthaler. Mas a arte com que estes obtêm uma posição intelectual, partindo de fragmentos, quebras e elevadas exigências que fazem à platéia, é contestada, de um modo consistente, através da moderna fidelidade ao texto de Hartmann.
No entanto, apesar de o teatro contemporâneo nos últimos anos se moldar cada vez mais pela tecnologia, o desejo da platéia por um acurado trabalho psicológico com os atores continua existindo. E Matthias Hartmann atua nesse campo com um talento excepcional, criando proximidade humana em grandes imagens. Seguro em relação aos efeitos e forte no estilo, rico em variações quando utiliza os meios teatrais e inventivo na evocação das habilidades transformadoras dos atores, Hartmann criou vários momentos gloriosos no teatro de atores.
A produção de Der Kuss des Vergessens de Botho Strauss em 1999, com Anne Tismer e Otto Sander, que foi convidada para o Berliner Theatertreffen (Encontro de Teatro de Berlim), ou a brilhante idéia de dar ao comediante late-night Harald Schmidt o papel do escravo Lucky em Esperando Godot, dão prova de seu raro talento para reconciliar o entretenimento com a seriedade. Em momentos assim, Hartmann combina de forma maravilhosa suas duas grandes paixões, através da refilmagem de antigas tradições teatrais.












