Ele é o esportista radical entre os diretores, e com seus materiais ele entra em regiões de frio glacial ou de calor tórrido. Quando produziu Geier-Wally, de Wilhelmine von Hillern, em Stuttgart, ele projetou - junto com o seu cenógrafo de longa data, Martin Zehetgruber - um cenário de tal força imagética que a platéia, num primeiro momento, temeu pela vida dos atores. A cortina subiu e mostrou o esqueleto de um prédio alto em ruínas. Os Alpes formavam uma paisagem gelada de abismos perigosos, que os atores escalavam e na qual se moviam como sonâmbulos, enquanto Kušej usava o exemplo da Geier-Wally para mostrar que, mesmo na solidão dos desfiladeiros alpinos de concreto, a relação entre homens e mulheres nada mais é que uma luta pelo pode
Nesse tempo Kušej já era diretor residente no Staatstheater de Stuttgart, e, com a ópera dramática König Arthur de Henry Purcell/John Dryden, ele já tinha esboçado um espetáculo teatral em que se cruzam as disciplinas, dando assim o primeiro passo na direção da ópera. Hoje ele é muito requisitado como diretor operístico, e produz principalmente na Staatsoper de Stuttgart e no Festival de Salzburg.
Também na ópera ele é um pioneiro: Kušej interpreta o material operístico com os instrumentos de um diretor teatral. É uma reminiscência dos seus tempos em Kärnten, logo após os seus estudos, quando ele cruzava as fronteiras para produzir na Áustria e na Eslovênia, e levava ao palco não somente peças, mas também projetos próprios, como Mobiler Himmel. Isto foi em 1990, no steirischer herbst, em Graz. Ele havia realizado o projeto com o seu grupo independente “my friend martin”.
Desde que foi contratado pelo teatro Schauspielhaus de Stuttgart, ele não mais desenvolveu projetos próprios. Mas se olharmos mais detidamente para o seu currículo de diretor, é notável que, diferentemente de outros diretores, ele não faz questão de colecionar a média usual de produções de clássicos. Ele é atraído por materiais difíceis de serem tratados, como Weh dem, der lügt, de Franz Grillparzer, ou, Glaube und Heimat, de Karl Schöner. São peças que lidam com os temas da origem e da religião, do sangue e do solo. Isso também vale para Herzog Theodor von Gothland, de Christian Dietrich Grabbe. A peça Shakespeare bêbado (Heine), que quase nunca é encenada, trata de uma guerra fictícia entre a Finlândia e a Suécia. Kušej fez uma colagem da trama ao redor da frase central “E nada que não seja puro desespero pode nos salvar”, encenando os personagens de Grabbe como pontos de exclamação dessa frase.
Isto foi no início de seu tempo no Staatstheater de Stuttgart, durante o qual ele se tornou um dos mais importantes diretores do mundo de língua alemã. Mais recentemente, Martin Kušej pôs no palco a sua produção mais radical até agora, com Gesäubert, transformando os personagens de Sarah Kane em arquétipos de um pesadelo coletivo. A partir do verão de 2005, Martin Kušej assumirá a responsabilidade pela programação do Festival de Salzburg, como sucessor de Jürgen Flimm, e espera-se que nessa posição ele continue sendo um pioneiro.












