Perfil: Armin Petras

Desde o início dos anos 90, Armin Petras já lançou cerca de 50 produções, 15 das quais somente entre 2002 e 2003. Isto mostra que o seu trabalho é agitado, infatigável, rápido. Ele também não hesita muito para apoderar-se das peças. Petras vê os textos como um material a ser cortado - se necessário - de modo radical, ou reanimado com os mais diversos meios estilísticos.

Todas as suas produções caracterizam-se pela ironia e graça, com as quais ele constantemente surpreende a platéia e os críticos - e muitas vezes também divide as opiniões. Não importa se o material é clássico ou contemporâneo - ele sempre o transforma em exuberantes orgias teatrais, plenas de prazeres, e enriquecidas com gags, slapsticks e quebras irônicas, muitas vezes usando microfones, mídias modernas e música pop. Esta técnica de sampling é a sua abordagem do teatro narrativo moderno - um teatro que, apesar do uso forçado dos meios, continua a colocar questões sobre a moral, sobre "como vivo eu?". "Colecionar sentenças, imagens, símbolos. Vasculhar aquilo que é familiar, procurar o que é antigo, e, com um novo olhar, fazer seleções, cruzamentos e comentários. Deixar intacto o que é belo e estranho, como se fosse uma zona proibida" - é assim que Petras descreve o seu modo de trabalhar como diretor.

Petras dedica seu amor e sua atenção aos desprivilegiados e perdedores. "Os problemas da sociedade burguesa não me interessam, porque eu nunca tive esses problemas", disse ele em 2004 numa conversa com a dramaturga-chefe Juliane Koepp. "Estou interessado nos problemas que são existenciais - quando as pessoas se metem em dificuldades e essas dificuldades também têm algo a ver com a sociedade na qual vivemos."

Recentemente ele realizou uma de suas mais marcantes produções dentro dessa linha, com o drama social naturalista Die Ratten, de Gerhart Hauptmann, no Thalia Theater de Hamburgo. Os acontecimentos cômicos que ocorrem em volta do fracassado diretor teatral Hassenreuter e seus pupilos são ambientados numa caixa transparente elevada, semelhante a um palco de teatro de bonecos. Assim, esses personagens ficam numa posição de contraste em relação à tragédia de proletários que se desenrola no plano inclinado que se situa abaixo. Com inteligentes quebras de estilo e irônicas explosões, o teatro, constantemente comenta-se a si mesmo, e acaba recorrendo à única coisa que resta, face a todo o desespero: atuar, continuar atuando, e dando risada.

Também as peças do próprio Petras são algo como dramas sociais. Como autor, ele adotou o pseudônimo Fritz Kater, e ele faz questão de manter separados Armin Petras, o diretor, de Fritz Kater, o dramaturgo com um CV fictício. A cisão alemã-alemã, que é representada tanto pela própria biografia de Petras como na do seu alter ego (inventado) é também o tema das três peças de Kater, que, tomadas em conjunto, formam uma espécie de trilogia da terra natal da RDA: Fight City.Vineta (2001), zeit zu lieben zeit zu sterben (2002) e WE ARE CAMERA / jasonmaterial (2003), que foram estreadas com grande liberdade por Armin Petras no Theater Thalia in der Gaußstraße.

Em Fight City.Vineta, Petras/Kater conta a história de um ex boxeador e de outros perdedores após a queda do muro, em Frankfurt an der Oder. Assim como Sterne über Mansfeld, a peça é um melodrama alemão oriental sobre pessoas que foram marginalizadas pela História, um melodrama de desejos e saudades de casa, de desgosto e de ira. Em zeit zu lieben zeit zu sterben (tempo para amar tempo para morre) (adaptado do filme Time Stands Still de Peter Gothár), ele desdobra um trítptico cênico, o que significa crescer e tornar-se adulto na RDA - uma história engraçada e sentimental, que trata da adolescência e da família, e que termina numa love story infeliz no ocidente. Também WE ARE CAMERA / jasonmaterial conta a história de família dividida entre o leste e o oeste. A peça, que parece um thriller de espionagem, é uma mistura de drama de adolescentes, novela de TV familiar e tragédia matrimonial - uma viagem à infância e um jogo com as lembranças.

Foram as produções dessas três obras - todas elas convidadas para o Festival de Peças em Mühlheim, sendo as duas últimas convidadas também para o Berliner Theatertreffen (Encontro de Teatro de Berlim) – que catapultaram Armin Petras para a primeira divisão dos diretores alemães. Se antes ele tinha uma má reputação como amante do slapstick e um demolidor de peças, Petras agora deixa claro que ele não só é um filantropo e um moralista, mas também um grande romântico.

Christine Dössel

After the Fall – Europe after 1989

A European theatre project by the Goethe-Institut on the impact of the fall of the Berlin wall