Christine Dössel
Estendendo pontes.
O grande interesse existente no Chile pela arte dramática alemã contemporânea e o animado e inspirador intercâmbio com jovens autores manifestam-se no Festival de Dramaturgia Européia Contemporânea em Santiago.A casa de Pablo Neruda na Isla Negra é um lugar mágico. A propriedade, com uma localização fantástica no litoral, ao sul de Valparaíso, é atualmente um museu e, para muitos, uma espécie de local de peregrinação. O escritor chileno, detentor do Prêmio Nobel de Literatura, está sepultado ali ao lado de sua mulher, Matilde, como desejara no seu Canto general: "em frente ao mar, que meus olhos perdidos já não mais verão". Cem mil pessoas visitam a sepultura e a casa, onde estão reunidos os objetos que Neruda levou de todas as partes do mundo.
Inspirado pela aura do ambiente, o dramaturgo alemão Roland Schimmelpfennig, junto com sua esposa, Justina del Corte, escreveu uma peça sobre o museu e sua magia: Canto minor, uma peça sob encomenda do Instituto Goethe e do Teatro Nacional Chileno, encenada por seu diretor, Raúl Osorio. Na peça, concebida como representação onírica, Neruda não aparece como personagem, mas seu espírito e sua poesia estão sempre presentes e, na encenação de Osorio, como uma espécie de assombração divertida. Em Santiago, Canto minor foi levada ao palco no dia 12 de julho de 2004, centenário do nascimento do poeta chileno. A verdadeira estréia já se dera em maio, na Alemanha: a peça, apresentada em espanhol, fez parte do programa do Festival de Teatro de Mülheim, como participação especial do Chile – um jogo cultural amistoso.
Por ocasião das comemorações do centenário do nascimento de Neruda, o Teatro Nacional encomendou cinco peças sobre a sua pessoa e a sua obra: quatro a dramaturgos locais e, em parceria com o Instituto Goethe, uma ao alemão Roland Schimmelpfennig, que goza de grande prestígio naquele país. À primeira vista, pode parecer estranho que um alemão receba uma incumbência tão honrosa – neste caso, de caráter altamente nacional. Mas quem sabe como é grande no Chile o interesse pela dramaturgia alemã contemporânea e o valor dado a um intenso intercâmbio com os jovens autores alemães reconhece nisso o resultado de um diálogo fértil.
O motor e o fórum desse diálogo é, desde 2001, o Festival de Dramaturgia Européia Contemporânea, criado por Hartmut Becher, diretor do Instituto Goethe de Santiago do Chile, juntamente com seus colegas dos institutos culturais da França e da Espanha. Em três anos o festival se transformou num modelo de sucesso para o intercâmbio intercultural entre o teatro chileno e o europeu. Essa iniciativa dos três institutos lhes valeu, em 2002, o Prêmio do Círculo de Críticos Chilenos na categoria teatro internacional. O objetivo do festival é o diálogo, o encontro, o debate. Por isso não são convidadas encenações prontas da Europa, mas sim dramaturgos distintos, com seus textos, e diretores e outros autores para acompanhar o programa em workshops e mesas-redondas. As peças escolhidas são encenadas exclusivamente por diretores chilenos em chamadas semi-encenações, apresentações que conservam um certo caráter de oficina, mas que vão muito além da simples leitura cênica e que são recebidas com grande entusiasmo, especialmente pelo público estudantil.
Depois do "apagão cultural" durante o governo de Pinochet, existe dezesseis anos após o fim da ditadura uma enorme demanda no setor da cultura, uma fome de novas formas de experiências. O Festival de Dramaturgia Européia Contemporânea é, portanto, um fórum bem-vindo para a troca de idéias e informações sobre os acontecimentos no exterior. "O festival deve trazer de fora novos impulsos para o teatro chileno", disse Benjamin Galemiri, um dos mais conhecidos dramaturgos chilenos. Olhar para fora é visto como uma atitude que traz esclarecimento, liberta e inspira.
Galemiri, juntamente com o dramaturgo Marco Antonio de la Parra e o diretor do Teatro Nacional, Raúl Osorio, compõem o júri do festival que todos os anos escolhe as peças teatrais européias mais inspiradoras e incitantes para o Chile. Para eles não se trata apenas de buscar a maior das novidades, mas "obras dramáticas ambiciosas que representem um desafio em termos formais e de conteúdo", embora a escolha esteja sujeita a uma restrição: os textos têm que ser naturalmente traduzidos para o espanhol. Desta tarefa se incumbe o Instituto Goethe, em Santiago, com um empenho louvável. Pelo menos três peças alemãs são traduzidas ali por ano, textos de alta qualidade e de autores renomados como René Pollesch, Roland Schimmelpfennig e Dea Loher, que também são autores determinantes do teatro alemão contemporâneo.
Os chilenos já haviam tomado a dianteira aos alemães, com a montagem tipo oficina do trabalho de Falk Richter Electronic City, uma peça sobre global players estressados, alienados do mundo em salas de aeroportos e corredores anônimos de hotéis. A estréia mundial aconteceu em setembro de 2003, em Santiago, dez dias antes da estréia alemã no Schauspielhaus de Bochum. O entusiasmo irônico com que o elenco do jovem diretor Luis Ureta representou o texto se propagou até o Festival de Salzburgo, e ele foi convidado a apresentar sua montagem em agosto deste ano no Young Directors Project, uma vitória sensacional para o festival chileno.
Com as semi-encenações da epopéia futebolística de Marc Becker Nós na Final e de Inocência, de Dea Loher, um relato de cunho social em vários níveis sobre pessoas que vivem à margem da sociedade, o Festival de Dramaturgia Européia Contemporânea teve no seu programa de 2004 novamente obras recentes do mercado teatral alemão da mais alta qualidade. Da Suíça, As Neuroses Sexuais de Nossos Pais, de Lukas Bärfuss, onde uma menina deficiente mental põe em xeque a nossa percepção da normalidade. Pela primeira vez, a Grã-Bretanha participou como convidada do festival. O programa foi complementado por leituras de várias obras, entre as quais Death Valley Juction, do poeta alemão Albert Ostermaier.
A dramaturgia alemã contemporânea, por ser rica e vital, dificulta à primeira vista uma visão geral. Todos os anos estréiam 150 peças inéditas, entre as quais existem naturalmente muitas pouco amadurecidas. O termômetro da qualidade dos textos é há quase 30 anos o Festival de Teatro de Mülheim, onde são apresentadas as melhores sete peças do ano, segundo os critérios de um júri. No final, um autor é escolhido como o Dramaturgo do Ano. Um comprovante da capacidade de julgamento e atualidade do festival chileno é o fato de os autores alemães convidados a se apresentar em Santiago terem concorrido ou sido premiados no Festival de Mülheim.
Fritz Kater, por exemplo, autor alemão que recebeu o prêmio de Dramaturgo do Ano de 2003 com a obra Zeit zu lieben, Zeit zu sterben apresentou-se exatamente com esta peça no festival do ano passado em Santiago (na tradução espanhola: Tiempo de amar, tiempo de morir). O interesse dos jovens chilenos por seu texto e sua participação nos debates dos workshops surpreendeu profundamente o diretor alemão, cujo nome verdadeiro é Armin Petras (Fritz Kater é seu pseudônimo). Como ele constatou, no Chile existe não somente "um paralelismo com as rupturas sociais vividas na Alemanha", mas também "uma ansiedade por uma dramaturgia que seja atual e trate de temas contemporâneos". Na sua peça, que fala da problemática de se tornar adulto na antiga RDA, os chilenos reconheceram sensações de vida que lhes são muito familiares da época de Pinochet. Na oficina do festival surgiu uma versão final da montagem, que foi assumida pelo próprio diretor do Teatro Nacional, Raúl Osorio. Sua versão em ritmo acelerado, cheia da emocionalidade chilena, foi aclamada pela crítica em Santiago e, com sua refinada coreografia, despertou entusiasmo também em Armin Petras. A montagem foi convidada para o Festival Ibero-Americano, em Bogotá, e também – juntamente com Canto minor de Schimmelpfennig – para Mülheim e Frankfurt.
Não são apenas os temas do teatro alemão que fascinam os diretores de teatro chilenos, mas também, e sobretudo, a forma. A dramaturgia aberta, fragmentada, muitas vezes épica, das obras alemãs atuais, sua estrutura pós-moderna – sem personagens claramente definidos, sem estrutura linear, às vezes até sem ponto nem vírgula – são consideradas por muitos atores e diretores como liberdade. E eles fazem uso dessa liberdade para experimentar com uma visão própria dos temas, freqüentemente muito irônica, novas formas de narrativa: com vídeo, multimídia e pop, high-tech e trash, elementos do cinema e de quadrinhos, mas também com uma rígida expressão corporal, baseada no teatro-dança moderno.
"Os jovens chilenos utilizam esses textos como material inovador, para questionar costumes tradicionais", constata Erik Altorfer, o diretor suíço que já se responsabilizou duas vezes pelos aspectos dramatúrgicos do festival. E eles se sentem muito seguros de si. "Os diretores tratam os temas com muita leveza e integram sua própria história social." Para Altorfer, "uma frutificação do modo de conceber o teatro".
Claro que também há críticas. Alguns chilenos dizem: "Representamos as obras dos alemães, e eles, será que também representam as nossas?". Não, o intercâmbio ainda não chegou a tanto. Mas uma ponte foi estendida, e os efeitos de sinergia do festival continuam.










