De mundos entre os mundos

Comunidades de ritmo e movimentos transfronteiriços

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Na fronteira entre o México e os EUA, a cultura fronteiriça se tornou um paradigma das travessias transculturais. Na música e nos estilos de movimento se pode descobrir como as tradições regionais vão se transformando ao se sobrepor.

A “border-culture”, celebrada desde os anos 1980 como modelo de identidade pós-nacional, tem precedentes nos fenômenos transnacionais das décadas de 1930 e 1940. Na fronteira entre o México e os EUA, a “border-culture” se tornou um paradigma de travessias transculturais que invalidam as relações tradicionais entre cultura e espaço, identidade e origem geográfica. Aqui também houve a atuação de intelectuais e artistas internacionais que se inteiraram dos discursos deconstrutivistas europeus através dos EUA.

A “border-culture”, que há muito tempo já se inseriu na cultura de consumo, só ganhou contornos como contraponto ao conceito de “mexicanidad”. Tais modelos nacionais e étnicos de identidade parecem ter voltado a exercer grande atração sobre as Américas de hoje. O nacionalismo moderno no México e nos EUA provou ter uma capacidade de adaptação e integração maior do que se esperava.

Mesmo assim, o fim da “border-culture” como modelo pósnacional tornou-se evidente não apenas a partir do debate iniciado por Samuel P. Huntington sobre o papel dos mexicanos nos EUA ou a intensificação do controle de fronteiras estadunidense para com o México. Enquanto Huntington encara os imigrantes mexicanos nos EUA como relativização “interna” da fronteira entre os dois Estados nacionais e como ameaça da identidade cultural norte-americana, a questão do “trans” dentro da nação passa por uma reformulação após o fim da euforia pós-nacional.

A migração mundial e as redes transnacionais de comunicação colocaram culturas em contato e movimento, numa dimensão até então desconhecida. Com isso, desenvolveu-se uma nova cartografia cultural. A Turquia está em Berlim, Puerto Rico se encontra em Nova York, o México em Los Angeles, os banlieues das cidades grandes francesas se tornaram espaço de imigrantes árabes e africanos.

Copyright: PixelquelleJá não se atravessam mais fronteiras somente nos limites entre Estados nacionais, mas também nas ruas e entre os edifícios de uma metrópole. Sobretudo as culturas de música e de movimento permitem ouvir e vivenciar ritmicamente como se misturam e se sobrepõem o global e o local, as tradições regionais e a cultura midiática pós-moderna. Assim, os portoriquenhos de Nova York, os nuyoricanos, ou os americanos de origem mexicana residentes nos EUA, os chicanos, inventam suas formas de vida essencialmente através de gestos, estilos de comportamento, rituais cotidianos e outfits até a dança.

É possível se falar numa cultura específica do movimento. Culturas do movimento são parte de uma história política do corpo. Através dos estilos de movimento (desde a gestualidade e os movimentos cotidianos até a dança, passando pelas mais diversas técnicas corporais), se articula a identidade social, mas também diferenças entre as comunidades. Movimento e ritmo são, portanto, formas de comunicação nas quais se expressam, entre outras, a identificação étnica e nacional, mas também esboços de identidade transnacional.

Salsa, plena e rock chicano se misturam com rap e hip-hop. Surgem novos esboços de identidade que não pertencem nem a uma cultura e nem à outra, mas misturam os mais diversos elementos latino-americanos, africanos, bem como europeus e norte-americanos.

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Inge Baxmann