Depois de mim o dilúvio? Natureza – Cultura: Arte

Intempérie

Marcello Dantas, “Gelo”, 2009; Instalação © Foto: Marcello DantasSobre o tempo, o clima e a arte na segunda edição da Bienal do Fim do Mundo. Antigamente, o tempo era simplesmente tempo. A mudança climática transformou o tempo em intempérie.


“Chuva e mais chuva, ontem incessante, e justo neste instante recomeça. Se olharmos à nossa frente, diríamos que vai nevar. Mas esta noite acordei com a luz da Lua sobre uma ponta da minha fileira de livros; uma mancha que não brilhava, mas cobria o lugar onde se deitava com seu branco alumínico. E até os cantos da sala se preencheram com a noite fria. Mas a manhã chegou radiante. Um amplo vento leste se derrama com fronde desenvolta sobre a cidade, pois a encontra tão espaçosa. Do outro lado, a oeste, empurrados e embaralhados pelo vento, arquipélagos de nuvens, grupos de ilhas, cinzentas como o pescoço e o peito de aves aquáticas em um oceano quase azul de longínqua bem-aventurança.” (Rainer Maria Rilke, Cartas sobre Cézanne, 1907)


Antes de o tempo se tornar clima

Antigamente, o tempo era simplesmente tempo. Cheirava a feno seco e botas de borracha molhadas. Para pessoas comuns e artistas, mostrava-se como um crepúsculo de cores ricas ou sublimes dunas de neve com as marcas do vento... Era assunto para iniciar uma conversa sem compromisso com um desconhecido e, quando alguém se atrasava, funcionava como gentil desculpa: “Foi a chuva...”.

O tempo era como uma segunda pele para as pessoas e, apesar de suas ocasionais inclemências, fazia com que nos sentíssemos parte de algo maior na natureza.

Mas, agora, o tempo chegou ao fim e transformou-se em clima, uma entidade física, anônima e amedrontadora que, a qualquer momento, é capaz de deflagrar uma catástrofe. No grego antigo, o significado da palavra era “inclinação”. As mudanças climáticas fizeram do tempo intempérie. O clima é o tempo sem poesia e estética. Ao contrário do tempo, o clima não possui aura, aquela “teia singular de espaço e tempo” da qual falava Walter Benjamin.

O que antigamente era patrimônio de todos, agora é domínio de engenheiros, cientistas, e até dos políticos. Um simples mortal que, não há muito tempo, durante uma caminhada pelo parque podia desfrutar o frescor do orvalho e o suave afago da brisa, agora percebe o tempo como um misto de CO2, CFCs e partículas de fuligem. É preciso ser meteorologista para prever o quanto vai chover nos próximos dias, agricultor para calcular o rendimento da colza ou da cana-de-açúcar na produção de energia, mecânico de automóveis para usar o biodiesel de forma eficiente, economista para orientar os fluxos globais de mercadorias, zoólogo para garantir a sobrevida adequada à espécie dos ursos-polares e, finalizando, também é preciso ser soldado para lutar na guerra das matérias-primas.

Um pesquisador que pretendesse viajar ao Polo Norte durante o verão do Ártico teria de percorrer os últimos quilômetros a nado. Em agosto último, quando um quebra-gelo se deparou com mar aberto no polo, até a comunidade científica ficou atônita.

Quase cem anos depois da ópera futurista Vitória sobre o Sol, para a qual Kasimir Malevitch criou com o “quadrado negro” um cenário que fez história, é de se temer a vitória do Sol sobre o seu pequeno planeta, a Terra. Enquanto a vanguarda russa via no ícone moderno de Malevitch um campo energético inesgotável, que daria começo à transformação do mundo através de um progresso técnico ilimitado, nós, agora, parecemos estar indo em direção a um abismo.

O céu e a antiga ideia de uma perfeição sobrenatural, tal como se manifesta no tempo pré-climático e surge entre os românticos alemães, deram lugar às imagens de satélites e ao Google Earth. Nem mesmo os turistas na Antártida e na Groenlândia estão mais em busca de experiências radicais, mas entendem-se como vítimas que testemunham as mudanças climáticas.

Entretanto, as qualidades metafísicas e simbólicas do tempo não podem ser apreendidas em gráficos e levantamentos estatísticos.

O discurso do clima é apocalíptico, categórico, e não tolera qualquer contestação. Cada novo relatório sobre o clima é uma última advertência. Este climatismo alarmista, que já atingiu um grau de consenso preocupante, provoca grande sentimento de culpa em cada habitante da Terra: desde o caboclo do Amazonas, que queima a mata para seu roçado, até o motorista europeu, o pecuarista indiano e o petroleiro do Golfo Pérsico. O clima atingiu status de guerra. Parece um deus vingativo que se prepara para destruir tudo o que tem vida. A ética nada mais é do que uma commodity, comercializada como petróleo ou soja.

Por um lado, é chegada a hora dos ecologistas, que pregam o boicote ao consumo e a mudança de hábitos, e, por outro, a dos engenheiros, que acreditam ter uma solução técnica para cada problema, sejam turbinas eólicas, painéis para coletar energia solar, motores de combustão mais eficientes ou melhorias de produtividade na agricultura.

Mas o que não se vê é que as mudanças climáticas, sejam elas causadas pelo homem ou pela natureza, sempre vêm acompanhadas de mudanças culturais. Com o clima, muda a atitude que temos em relação a nós mesmos e ao próximo. O corpo e os sentidos são expostos a novas experiências.

No conto que escreveu em 1932, em Ibiza, Walter Benjamin descreve a tórrida temperatura do meio-dia naquela ilha mediterrânea:

“O andarilho está demasiado cansado para deter-se, e, à medida que perde o controle sobre seus pés, percebe como sua fantasia dele se soltou. O Sol queima inclemente em suas costas. O cheiro de resina e tomilho impregna o ar, no qual, arfante, ele acredita asfixiar-se”.

O andarilho da bucólica imagem de Benjamin não mais enxerga, apenas sente. Após a heliofilia, sobrevém a insolação.

O calor obriga até mesmo o tempo a mudar seu ritmo inexorável; ele passa mais imperceptível, tenaz, sem que se possa medi-lo.

As gotas de suor sobre a pele das sambistas brasileiras antecipam aquilo que o mundo tem pela frente: trópicos que avançam inexoráveis com languidez voraz e sensualidade transbordante.

Não é nossa intenção negar as mudanças climáticas ou minimizar os esforços dos técnicos e cientistas. Mas um tratamento estético do tempo e da paisagem, como propomos, poderá eventualmente contribuir mais para a preservação de ambos do que um procedimento meramente científico.

Fenômenos climáticos, cada vez mais burocratizados e midiatizados, precisam ser novamente ‘culturalizados’ medindo as temperaturas estéticas de um novo estado de ânimo. Em vez de análises insensíveis, o que se requer nestes tempos que se dedicam infatigavelmente a erradicar a poesia da face da Terra é um erotismo no trato com a natureza.

O clima é uma invenção da megalópole moderna e de seus centros de pesquisa. Já o tempo sempre vem acompanhado de uma noção de paisagem. Ninguém conseguiu descrever esta sutil combinação melhor do que Adalbert Stifter, pois seus contos despertam imediatas associações visuais:

“Certo dia, as pedras tinham um calor especial. Apesar de o Sol não ter aparecido o dia inteiro, conseguia atravessar o baço véu que cobria todo o firmamento, deixando entrever sua pálida figura, fazendo com que cada objeto desta paisagem de pedras fosse envolvida por uma luz irreal, que não jogava sombras, que deixava murchas as folhas das escassas plantas existentes no lugar; pois, apesar de nem meia luz do Sol penetrar a camada de nuvens da cúpula, fazia um calor como se três sóis tropicais brilhassem num céu descoberto, ardentes” (Adalbert Stifter, Kalkstein [Pedra calcária], 1851).

Enquanto o clima é suscetível a mudanças bruscas, verdadeiras catástrofes, o tempo, numa perspectiva filosófica, é uma categoria estável, atemporal. Nas línguas latinas, seja no português “tempo” ou no espanhol “tiempo”, o sentido cronológico e o atmosférico, ou seja, sol e chuva, estabeleceram uma feliz simbiose. Perguntar sobre o tempo sempre deixa implícita uma noção cronológica. Já no alemão ou no inglês, diferencia-se bem entre “Zeit / time” e “Wetter / weather”. Estes provêm do germânico antigo, onde “veter” significava “vento”.

“O tempo agora, que eu estou olhando para o relógio: o que é este agora? Agora, que eu o faço, agora, que talvez aqui a luz se apague. O que é o agora? Eu disponho do agora? Sou eu o agora? Todo outro é o agora? Então o tempo seria eu mesmo, e todo outro seria o tempo. E em nosso estarmos juntos, nós seríamos o tempo – nenhum e cada um. Sou eu o agora, ou sou apenas aquele que o diz? Com ou sem um relógio explícito? Agora, de manhã, à tarde, esta noite, hoje. Aqui defrontamo-nos com um relógio que desde sempre se apropriou da existência humana, o relógio natural da mudança do dia e da noite” (Martin Heidegger, O Conceito do Tempo, 1924).

Na obra Cosmos, de Alexander von Humboldt (1845), o tempo era relacionado não apenas à temperatura, umidade e pressão atmosférica, mas também à “transparência e limpidez do céu, que é importante não somente para maior irradiação do calor do solo, o desenvolvimento orgânico das plantas e o amadurecimento das frutas, mas também para as emoções e o estado d’alma das pessoas”.


O tempo como domínio dos artistas

Não surpreende que o tempo, mas não o clima, tenha inspirado artistas e poetas desde sempre, pois o tempo é atmosfera e espiritualidade.

Fenômenos naturais como o sol e a chuva, o calor e a neve, o gelo, a seca e as inundações sempre fizeram parte das manifestações artísticas, tanto nas grandes civilizações como nas chamadas sociedades primitivas. Vale lembrar o culto ao Sol pelos Incas do Peru, o deus da chuva e dos ventos dos Astecas ou as estátuas do povo Baoulé da África Ocidental destinadas a chamar a chuva. Uma terracota indiana do século V simboliza a fertilidade e a abundância trazida por Ganga, a deusa dos rios; e Krishna, em uma miniatura do século XVIII, engole uma floresta em chamas. As esculturas nigerianas dos Mumuye eram usadas por “pajés chamadores de chuva” como objetos sagrados em cerimônias. Assim também os ritos de fertilidade, que em muitas culturas pré-modernas desempenhavam um papel importante, tinham forte ligação com o clima e suas vicissitudes.

O tempo infunde vida às Quatro Estações de Vivaldi e está presente em “A cachoeira de Paulo Afonso”, de Frans Post, e em “Manhã de inverno”, de Antônio Parreiras. Reina no sublime azul-celeste das paisagens do Rio de Janeiro de Fachinetti e sobre o espetacular crepúsculo a que Lévi-Strauss assistiu ao cruzar o Equador durante sua travessia do Atlântico. E, quando Cézanne se encontrava “sur le motif”, como chamava seu estilo de trabalho, e pintava o “Grande pinheiro” sacudido pelo vento (1892) ou uma natureza-morta com maçãs, o tempo nunca estava longe.

O tempo é o ator principal no quadro “Chimborazo”, de Frederic Edward Church, e do mar polar, de Caspar David Friedrich, uma paisagem antes simbólica do que real. Friedrich havia exortado os artistas a não apenas pintar o que viam diante de si, mas também o que viam dentro de si.

Em todos esses casos, não se trata de uma análise científica, mas de uma abordagem estética que, pela percepção dos sentidos, dirige nossa atenção à interdependência entre natureza e atividade humana. A massa crítica da arte é capaz de ativar processos de conscientização no público.


A morte da luz

“Lá longe, onde passa a grande corrente, havia uma longa e espessa camada de neblina, e mesmo no horizonte a sudeste se arrastavam rolos de nuvens e de neblina que muito nos amedrontavam, e partes inteiras da cidade pareciam se afastar como se nadassem na névoa. No lugar do Sol havia apenas tênues véus, que também deixavam entrever grandes ilhas azuis.”

E mais: “E não diferente da última chama de um pavio que se apaga, se esvaía também o último raio de Sol, provavelmente engolido pelo abismo entre duas montanhas lunares: e depois o silêncio mortal, era o momento em que Deus falava e os homens ouviam”.

Neste “quadro descritivo” do eclipse solar de 1842 na Áustria, cada palavra tem profundidade simbólica. Adalbert Stifter refere-se não apenas a um evento da natureza, mas também ao obscurecimento da alma e dos corações. O esfriar, o descorar, o empalidecer e o silêncio mortal são categorias que também encontraremos na arte contemporânea.

O fato é que os artistas frequentemente buscam a meia-luz, o crepúsculo e os tons de cinza, que não revelam a posição do Sol. A arte, sobretudo na sua forma fotográfica, se diferencia das orgias de luz estourada e de design das grandes cidades. À medida que se esvaece a luz interior, o homem busca fontes de luz externas cada vez mais fortes. Até mesmo a cor se torna substituta da luz.

Luz cintilante e céu azul podem ser muito oportunos para um fotógrafo amador, mas, para o artista que trabalha com fotografia, estes ingredientes são como veneno. O céu encoberto com tons de cinza e sem a projeção de sombras realça mais as paisagens, sejam os maciços andinos na Patagônia chilena ou a península antártica. Densas nuvens de um cinza azulado, que jogam sua cor sobre os rochedos verticais de Torres del Paine, criam um ambiente cheio de melancolia e nostalgia. Aqui, paisagem e tempo se fundem, transmitindo aquela sensação de longitude sem a qual não poderia haver poesia.


Ushuaia, uma bienal de arte no fim do mundo?

Uma exposição no fim do mundo, como a que se realizou de 23 de abril a 24 de maio de 2009, não pode deixar de considerar dois aspectos: por um lado, a localização geográfica extrema, ou seja, a clara distância do resto do mundo, e, por outro, as vicissitudes da história do lugar. Ushuaia, a cidade mais meridional do mundo, localiza-se na extremidade da América do Sul, lá onde o continente se afina em forma de cunha e avança cautelosamente em direção à Antártida. Quando sopra o vento sul, sente-se na pele o hálito gélido do sétimo continente. À localização excêntrica da Terra do Fogo deve-se também que a natureza e o meio ambiente estejam em grande parte intocados.

Mas esse isolamento significa também um agradável corretivo ao “circo midiático” dos ambientes artísticos metropolitanos, a cujo exibicionismo e agitação Ushuaia opõe uma modéstia reconfortante. À febre de especulação que se alastra, o fim do mundo responde com introspecção; ao fake, contrapõe aura. Na falta absoluta da camisa-de-força do mercado, Ushuaia permite a reflexão sobre as sutilezas da arte.

Já o legendário perito Francisco Pascacio Moreno, que explorou a Patagônia em fins do século XIX, sucumbiu aos encantos da região:

“As ondas pareciam inflamadas, e os grandes cetáceos que cruzavam rápidos as águas do buque ou seguiam seus sulcos luminosos, banhados em fósforo líquido, apresentavam-se à nossa imaginação como monstros fantásticos com melenas de fogo, entre as quais se deslizava a escuna, levantando com a proa uma verdadeira chuva de diamantes”.


Os Ona e os Yámana

A Terra do Fogo é uma das regiões mais tardiamente povoadas pelo homem. Os indígenas chegaram à extremidade da América do Sul somente há cerca de dez mil anos. Em fins do século XIX e princípios do século XX, os Ona e os Yámana foram exterminados, num dos piores genocídios da história. Neste sentido, Ushuaia constitui também uma parábola da ascensão sangrenta da civilização europeia em terras distantes e da decadência concomitante da cultura indígena.

Antes da chegada dos europeus no século XVI, a Terra do Fogo já era objeto de inúmeras lendas. Ali viviam os antípodas, que tinham dezesseis dedos; ali as árvores cresciam para baixo e a chuva caía para cima. Ainda em princípios do século XVIII, a Terra do Fogo continuava sendo nos mapas-múndi uma região que se estendia infinitamente em direção ao sul. O grupo de ilhas deve seu nome ao navegador Fernão de Magalhães, que ali avistara fogueiras.

Em tempos de crise como a atual, é valioso ressaltar a escassez de recursos materiais com a qual os habitantes da Terra do Fogo sobreviviam. Eles não tinham mais do que uma dezena de pertences: o arco e a flecha, o arpão, o cesto, uma ferramenta para fazer fogo e alguns colares singelos. Só Dom Quixote possuía ainda menos quando, munido de seu escudo, sua armadura e sua lança, partiu para suas aventuras na Mancha. Esta frugalidade condiz com o fato de que, apesar de abranger mais de 32 mil palavras, o vocabulário dos Yámana só incluía um sistema numérico rudimentar. O um, o dois e o três eram seguidos de uma mão e duas mãos; o quatro e o seis faltavam completamente.

No que diz respeito às suas moradias, os Ona contentavam-se com simples resguardos contra o vento, feitos de peles de animais; mesmo no inverno, viviam seminus. Quando saíam à caça, acampavam ao relento e dormiam sobre a neve, apoiando a cabeça sobre um pedaço de carne congelada.

Os habitantes da Terra do Fogo puseram à prova sistematicamente os limites da sobrevivência e o mínimo absoluto de subsistência. Mesmo os Inuit, da Groenlândia, tinham um padrão de vida mais elevado.

Este grau zero da vida humana é um bom ponto de partida para a arte, que revoga a concepção costumeira de tempo e progresso como algo linear; com frequência, o artista contemporâneo é alguém que, chegando tarde, reelabora materiais antiquíssimos.

A arte é uma máquina do tempo familiarizada tanto com o passado remoto quanto com o presente. Um dos paradoxos da arte é que o mais antigo e o mais novo se encontram inesperadamente próximos.


Versão resumida de um texto do curador da Bienal do Fin do Mundo.
Alfons Hug
é diretor do Instituto Goethe do Rio de Janeiro. Em 2002 e 2004 dirigiu a Bienal de São Paulo. Em 2008 teve a seu cargo a concepção da exposição itinerante “Os Trópicos” e em 2009 foi curador da Bienal do Fim do Mundo, realizada na cidade argentina de Ushuaia, que enfocou os fenômenos estéticos da mudança climática e da Antártida.

Tradução: George Bernard Sperber
Copyright: Goethe-Institut e. V., Humboldt Redaktion
Novembro 2009
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