Depois de mim o dilúvio? Natureza – Cultura: Arte

Como escrever sobre a última “terra nullius”?

Erika Blumenfeld; “Apparent horizons: Antarctica”; Série de fotografias, 2009 © Foto: Erika BlumenfeldAlgumas considerações sobre a forma literária da Antártida, um lugar que não pertence a nenhum país e onde não mora ninguém.

Tudo começou com um sonho. Ou melhor, um pesadelo. Um homem está de pé ao lado de uma geleira que não existe mais. Esse homem é glaciólogo. Ele perdeu, há pouco, o objeto de sua ciência e paixão. O homem não sabe como lidar com isso. Ele procura salvação em um lugar onde o gelo ainda não foi danificado: na Antártida. Ele se alista em cruzeiros como palestrante, como especialista, como líder de expedição, como guia. Quanto mais a intocabilidade da Antártida o anima, mais ele se preocupa, pois sabe o que ocorrerá com ela, se o ser humano dela se apoderar. Um dia, ele não suporta mais essa possibilidade. E se vê obrigado a evitar que os homens continuem invadindo a Antártida.

Ter uma ideia é fácil. Não é tão difícil ajustá-la às realidades, colori-la com plausibilidade e prestígio. As dificuldades aparecem no momento em que começamos a pôr a mesma em prática. Ao escrevermos, não são apenas os pensamentos que se tornam consistentes; os problemas também amadurecem. Como escrever sobre a Antártida, um lugar que só permite visitas passageiras? Como escrever livre de estereótipos? Como escrever sobre a última “terra nullius”, um lugar que não pertence a nenhum país e onde não mora ninguém?

Para responder esta e outras questões, eu próprio embarquei em um desses cruzeiros luxuosos, que navegam, diversas vezes durante o verão do sul, rumo à península da Antártida e por lá permanecem por alguns dias. Iniciamos nossa viagem em Ushuaia e passamos primeiramente pelo Estreito de Beagle. Os pontos geográficos importantes se chamavam Mount Misery e Cape Deceit, Last Hope Bay e Fury Island! Isto era do ponto de vista literário um bom sinal.

Logo me entrego à poesia de uma paisagem desconhecida. E a própria língua se apressa para satisfazer essa experiência:

À noite, quando os raios de sol cedem uma luz cinza de crepúsculo, o mar parece magma. Grandes aves planam no crepúsculo impenetrável e cortam o ar frio com asas rígidas. Alguns albatrozes levantam voo, depois baixam, em curvas repentinas; os menores deles desaparecem, por instantes, nos comedouros, entre as ondas, por trás de cristas fosforescentes. E quando a escuridão tudo enegrece e as estrelas não brilham e o vento se satisfaz com uma brisa, o nosso navio parece flutuar no desconhecido definitivo, no último vazio.

Será a Antártida um lugar de saudade para viajantes? Será que as pessoas a bordo realizam um sonho (muito) antigo? Acho que não. A Antártida não se deixa apreender facilmente. Só recentemente, pinguins bonitinhos ajudam a divulgar o turismo. Antes disto a Antártida era sentida como inacessível. Ela parecia até perigosa, como no mito polinésio sobre Ui-Te-Rangirao, que no século VI velejou tão ao sul que o oceano parou, tornando-se sólido, tão sólido e frio que o herói voltou aterrorizado para casa. As viagens de exploração de Amundsen e Scott são míticas porque na realidade incompreensíveis. Shackleton era uma figura como que fantasmagórica. A Antártida parecia uma invenção de Edgar Allan Poe. Mais uma vez nos deparamos com a última fronteira da civilização, com o último lugar selvagem.

O navio desliza por um canal natural, aos dois lados paredes brancas até onde a vista pode alcançar; e na nossa frente a preta e cintilante superfície de uma água transparente. De forma imperceptível, o mundo foi transformado em um desenho de giz. Estamos agasalhados até o pescoço e aglomerados no convés, mudos, imóveis, como se recebêssemos uma bênção, como se o nosso inerte navio lesse uma oração. É um silêncio respeitoso, expressão de um assombro que vem se formando há dias – desde que avistamos os primeiros albatrozes, as primeiras geleiras, as primeiras baleias, as primeiras ilhas pontiagudas. Na Antártida, facilmente ganhamos a impressão de sermos uma provocação. Como humanos. É um sentimento contraditório, que logo se transforma em misantropia.

Minha história luta pelo equilíbrio entre humanidade e misantropia. Pois o glaciólogo não consegue decidir se a preservação da Antártida acontece a favor ou contra a humanidade. Esta indecisa insegurança é alimentada pelas moradas humanas em torno da Antártida, feito cicatrizes de varíola, como, por exemplo, as armações de baleeiros, instalações enferrujadas de destruição em massa. Principalmente na Geórgia do Sul. O glaciólogo não suporta mais tanta destruição, nem mesmo como fato histórico.

Icebergs. Memento mori. Armazéns. Eles contêm a água mais fresca e o ar mais puro que temos na Terra, encapsulados nos cristais há milhares de anos e que agora, em viagem lenta, derretem até desaparecer. Quanto mais contemplo o gelo, mais ele me fascina. Ele é (talvez) o elemento mais diversificado de todos: dependendo das circunstâncias é corpo sólido, ar ou água. Ademais, uma espécie de memória da Terra. Os resultados obtidos pelo Projeto Europeu de Perfuração do Gelo na Antártida já alcançaram uma profundidade de 900 mil anos. E ao longo deste caminho para baixo, o nosso passado planetário vai sendo revelado.

Aos poucos, eu também estou criando uma relação carinhosa com o gelo.

“Se a Antártida desaparecer, a humanidade desaparecerá também” – lê-se no folheto diário distribuído no cruzeiro, sem informação da proveniência da citação. O texto deveria cumprir justamente esta função – que o leitor levasse essa frase ao pé da letra. Que ele se identificasse com o delírio do glaciólogo. Na melhor das hipóteses (que ambição), que ele olhasse para si mesmo e para o seu potencial de destruição com outros olhos.

Ant-ártida, assim denominada por Aristóteles, pois se o Ártico existe, deve existir também a Ant-ártida; a dicotomia entre o Polo Sul e o Polo Norte foi colocada desde o início, pois se existisse apenas um polo, o planeta inclinaria, por uma questão de simetria, eis a ideia. Até agora a Antártida funciona como um exemplo positivo da razão humana e com isto o antípoda do Ártico. O gelo da Antártida freia a pressão do aquecimento global, ao passo que, no Ártico, o verão caloroso de 2007 desgelou uma área do tamanho de quatro Alemanhas. O Ártico é circundado por águas mais mornas, vindas do sul, enquanto a Antártida é cortada pela Corrente Circumpolar Antártida que a protege da elevação da temperatura. Enquanto os países limítrofes mal podem esperar até a completa exploração dos recursos do Ártico, o Tratado da Antártida, que proíbe qualquer uso comercial e congela aspirações territoriais, vale até 2048. Ao passo que se espera friamente o fim do Ártico, a Antártida ainda pode ser salva. Essa dicotomia deve determinar o enredo. Uma estrutura maniqueísta. Pode-se contar uma história em preto-e-branco, desde que os sentimentos permaneçam numa zona acinzentada.

Quando estamos no convés e olhamos ao redor, toda civilização pode ser facilmente esquecida (os sons baixos do motor são quase imperceptíveis para os ouvidos): nenhum avião, nenhum pedaço de madeira na água, nenhum mastro à vista, somente vento e ondas, apenas formações muito antigas de gelo e pedra que (ainda) se transformam sem a nossa intervenção, somente aves silenciosas que desenham notícias fugazes no céu monocromático, indecifráveis para nós.

Poucos autores se dedicaram a escrever sobre a Antártida. Nathaniel Hawthorne não pôde acompanhar a famosa expedição de Wilkes, pois de acordo com um deputado do Parlamento “o estilo com que escreve este cavalheiro é verborrágico e ornamentado demais para transmitir impressões autênticas e sensatas da atmosfera durante a expedição. Ademais, um senhor tão talentoso e distinto como o mencionado Mr. Hawthorne nunca poderá captar o significado nacional e militar de qualquer descoberta”.

O glaciólogo se pergunta se, através da exploração da natureza, sua condenação à morte já não está sendo assinada. Ele não consegue tirar a seguinte frase da cabeça: a autópsia concluiu ser a autópsia a causa da morte. Tema a dedicação do cientista, escreve ele em seu diário, pois ela envolve o seu objeto, que palavra terrível, OBJETO, com o hálito da morte.

Kälteidiotie (literalmente, “idiotice do frio”) é uma expressão médica usada na Alemanha para designar um tipo de delírio. Alguém prestes a congelar sente calor e tira a roupa, embora seu corpo esteja muito abaixo da temperatura normal.

Sofremos, pensa o glaciólogo, de uma Wärmeidiotie (“idiotice do calor”), nos aquecemos cada vez mais, embora estejamos quase morrendo de calor. Alguém prestes a congelar, no estado da “idiotice do frio” não é mais capaz de se salvar. O glaciólogo expulsa os passageiros e deixa o navio se chocar contra uma rocha e naufragar.

Nunca mais, dizem as pessoas que já vivenciaram um apocalipse.


A versão deste texto em português foi publicada em Alfons Hug [org.]: Arte da Antártida. Fenômenos estéticos da mudança climática e da Antártida, Rio de Janeiro, 2009.
Ilja Trojanow (1965, Sófia, Bulgária)
criou-se em Nairóbi e estudou em Munique. É editor, tradutor, autor e jornalista. Suas obras, entre outras Die Welt ist groß und Rettung lauert überall e Der Weltensammler, foram traduzidas para 23 idiomas e agraciadas com prêmios tais como o Adalbert von Chamisso (2001), o da Feira de Livro de Leipzig (2006) e o de Literatura de Berlim (2007).

Tradução: Johannes Kretschmer e Sílvia Herkenhoff Carijó
Copyright: Goethe-Institut e. V., Humboldt Redaktion
Novembro 2009
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