Depois de mim o dilúvio? Natureza – Cultura: Arte

Apokalypse now! “... e o inferno o seguia”

O Dia Depois de Amanhã, 2004, Direção: Roland Emmerich © picture alliance / kpaComo aprendi, no cinema, a amar o fim do mundo. Vi o mundo ir abaixo, quarenta, cinquenta vezes pelo menos; foi sempre comovente, na maioria das vezes ruidoso, com frequência muito belo, colorido e poético. Depois eu fumava um cigarro.


Vi como Nova York caiu e como Los Angeles foi engolida pela terra. Vi a Torre Eiffel se desmoronar e uma Roma da qual só restavam cinzas. Vi como o mundo se transformava num deserto, como a América se extinguia, como a Europa morria de frio, como o nível da água subia e o ar ia se tornando rarefeito. Vi meteoritos dividindo o mar; extraterrestres bebendo o sangue de povos inteiros; não-mortos perseguidos pelo inferno na terra. E dos vírus que deterioravam tudo o que era vital, vi apenas os efeitos. Vi máquinas humanas dominando continentes mortos e homens-máquina à caça dos últimos seres vivos. Estive no cinema. E saí, na maioria das vezes, bem-humorado da sala.

O fim do mundo no cinema não é exatamente o que é o pôr-do-sol no que se chama de vida real, mas – da mesma forma como é necessário conhecer a hora ou a posição do sol para saber se o céu avermelhado é sinal do último raio ou já o primeiro de um dia que está por nascer – os apocalipses fictícios, encenados e imaginários apontam em duas direções. Já que o mundo ainda está de pé quando compramos uma entrada para a sessão de cinema, supõe-se que o filme se passa no futuro. Ao mesmo tempo, contudo, o gênero carrega consigo uma carga de lembranças não superadas e não compreendidas. Se nos filmes Mad Max ou em Fuga de Nova York, a civilização morre de sede e se atrofia, se hordas de guerreiros cruzam de novo por desertos de escombros, ali onde um dia havia cidades, ruas e luz elétrica, isto é ainda, mais de 1.500 anos mais tarde, uma reação ao choque frente à constatação de que, duas ou três gerações após a queda do Império Romano, o saber antigo tinha sido esquecido e a técnica antiga estava destruída.

E se incontáveis filmes levam a crer que, das grandes cidades, só vai sobrar lixo e cinzas e esqueletos desmantelados de arranha-céus destruídos, então isso tem também a ver com o pavor que persistiu na memória coletiva por muito tempo depois que as ruínas da Segunda Guerra Mundial haviam sido removidas e as cidades reconstruídas. O gênero de filmes “dia do Juízo Final” surgiram no momento em que a destruição de toda a vida humana havia se tornado uma possibilidade real. E vai nos acompanhar até que o mundo realmente acabe (ou pelo menos o cinema).

Mike Davis, o urbanista e arqueólogo da cultura popular, estudou há alguns anos todos os romances nos quais é descrito o fim fictício da cidade de Los Angeles. Seu diagnóstico foi deprimente: eram muitas vezes visões racistas, em sua maioria reacionárias e quase sempre puritanas, de purgatório e de pureza, alimentadas pelo desejo de que essa confusão urbana, a proximidade pecaminosa de pessoas tão diferentes na cidade grande, seja engolida pela terra ou devastada pelo fogo, para que uma nova estirpe virtuosa recomece. Tudo isso pode fazer parte do jogo, também quando se fala de imagens em movimento – embora essa não seja a verdade completa, principalmente porque isso implicaria no pressuposto de que ambos, tanto os mentores das visões de fim do mundo quanto o público dos mesmos, fossem eles próprios apocalípticos. Ou seja, o pressuposto de que eles, por um lado, desejassem o fim do mundo e, por outro, o esperassem em breve.

Esses dois pressupostos, porém, não se aplicam ao cinema apocalíptico, mesmo porque todos esses filmes de fim de mundo derivam o suspense de uma contradição aparentemente insolúvel: o mundo é belo, mas vê-lo se acabando é uma sensação sublime. Sim, é um prazer se deixar levar em Impacto Profundo pela onda enorme, de quase 500 metros de altura, que engole os grandes prédios da Ilha de Manhattan e inunda todo o país até o distante Oeste. Não é simplesmente um pavor, é também um desejo selvagem, quando, em Independence Day, as naves espaciais de extraterrestres escurecem o céu, quando as torres se envergam, as pontes caem e a terra se abre. Quando Karlheinz Stockhausen chamou o 11 de setembro de “a maior obra de arte possível”, ele infelizmente esqueceu que, além de seu belo lugar de espectador, em casa na frente da televisão, havia também outros lugares, talvez a um ou dois quarteirões distantes do Marco Zero, no meio da poeira e do caos. Um lugar para onde teria sido bom transpor Stockhausen, para que ele percebesse a diferença entre a arte e a vida.

O cinema americano de ação sempre executou a tarefa de destruir os excedentes da produção de carros, móveis, vidro e porcelana. Desta forma, os filmes fornecem algumas das contribuições mais interessantes para uma discussão sobre os valores: trata-se meramente de valores de sucata, mais ainda quando o mundo inteiro se acaba em ruínas. E no olhar impassível da câmera frente às edificações que se desmoronam, aos depósitos de mercadorias levados pelas enchentes e aos canais inativos de transferência de dados, o espectador vivencia também a libertação da obrigação autoimposta de compor seu próprio autorretrato com etiquetas de preço. É sempre dia de juízo nos filmes influenciados pelo cinema norte-americano, que, em seu cerne moral, se assemelha tanto ao sistema anglo-saxão de tribunal de júri: não há troca de argumentos, mas se contam histórias. E, no fim, o público decide pela culpa ou inocência do herói. O Juízo Final é ali apenas a forma mais incisiva; os filmes apocalípticos podem ser vistos também como processos em que os jurados se decidem pela culpa ou inocência da humanidade. E quando, no fim de Guerra dos Mundos, não é possível se livrar da suspeita de que Steven Spielberg só encenou toda aquela magia extraterrestre para que Tom Cruise provasse sua condição de bom pai e homem adulto; ou quando, em Impacto Profundo, a terra e o céu têm que primeiro se colidir para que uma filha se reconcilie com o pai, então o gênero está em seu elemento. “E Deus enxugará todas as lágrimas e não haverá mais a morte.”

O fato de que o mundo tenha que acabar está na lógica do cinema, que muito dificilmente consegue imaginar um outro futuro. A utopia do cinema é sempre um presente no qual os conflitos se agravam, os sentimentos se intensificam e as cores reluzem com mais clareza. Assim, também na ficção o presente devora o futuro e, quando se olha para trás, para 20 ou 30 anos no passado, vê-se então que até a mais avançada ficção científica no cinema não tinha a mínima ideia e quanto menos a mínima visão do que seria o nosso presente.

A internet, que tanto mudou nossa vida, ainda não produziu nenhuma imagem cinematográfica expressiva. O telefone celular apenas eliminou a cabine telefônica como cenário. O fato de que os filmes, quando arriscam deixar o presente, acabam sempre no passado, ficou provado até mesmo numa série capaz de imaginar naves espaciais mais rápidas que a luz, espadas de laser e soldados clonados. “Once upon a time, in a galaxy far, far away”, é como os créditos iniciais de Guerra nas Estrelas definiam o tempo narrativo.

A recaída na barbárie, a agonia, o mundo como campo de batalha, sucata da história, cemitério do progresso, envenenado, congelado, inundado: tudo isso o cinema pode imaginar, porque tudo isso um dia já foi visto. E mesmo quando temos que olhar o desconhecido no fundo dos olhos, como, por exemplo, na adaptação de Guerra dos Mundos feita por Spielberg, os extraterrestres têm orelhas tão grandes e corcundas tão horríveis como se tivessem sido, até pouco antes do início das filmagens, gárgulas nos tetos de catedrais góticas.

E assim a tendência para o distópico resulta das condições do próprio cinema, e o amor pelo apocalipse é provocado pela carência aguda de previsões para o futuro. “The Revolution will not be televised” era o título, há quase 40 anos, de uma canção maldosa de Gil Scott-Heron. Mas caso o apocalipse realmente chegue um dia, diremos que tudo está “igual nos filmes”, porque a história do cinema sempre levou até ali. “Olhei, e eis um cavalo pálido. E seu cavaleiro era a morte e o inferno o seguia”. Estas palavras do Apocalipse de São João, são (depois da intimação de Dante para abandonar todas as esperanças) o segundo lema mais frequente da história do cinema, do sombrio western O Cavaleiro Solitário, de Clint Eastwood, até o remake de Madrugada dos Mortos, filme de terror dirigido por Zack Snyder.

Mas isso faz de nós, que tanto gostamos de ver o fim do nosso mundo no cinema, apocalípticos? Em seu feroz ensaio “Ira e Tempo”, Peter Sloterdijk tentou mostrar que o apocalíptico, mesmo no Juízo Final, vê a si próprio como espectador até ser chamado e receber uma casa na Nova Jerusalém. Diante disso, como espectadores do Juízo Final, nós, frequentadores das salas de cinema, temos que nos alinhar aos apocalípticos.

Mas o apocalíptico, naquele sentido, é também um inimigo da realidade, o inimigo irreconciliável do que se chama de relações constituídas, que, contudo, não vê sentido em qualquer mudança do mundo, já que o fim deste está de toda forma próximo. Sendo assim, nós, frequentadores de cinema, para quem o fim do mundo é um pavor e um grande prazer ao mesmo tempo, somos tudo menos apocalípticos. Para nós, o mundo é belo quando ele ainda está de pé depois da sessão de cinema.

E os 200 milhões de dólares de custos de produção que hoje em dia têm que ser calculados para um filme decente de apocalipse podem ser entendidos como uma oferenda, endereçada a quem quer que seja em quem o cinema acredite, para que o mundo ainda se mantenha de pé por um bom tempo.

O Juízo Final não é um show na sessão da tarde.


Artigo publicado na revista Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung do 28 de dezembro de 2008.
Claudius Seidl (1959, Würzburg)
estudou Ciências Teatrais e Políticas na Universidade de Munique, assim como História Cinematográfica no Museu do Cinema de Munique, com Enno Patalas. Desde 2001 dirige a editoria de cultura do semanário Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung. Publicou livros sobre o cinema alemão da década de 1950, sobre Billy Wilder, Uschi Obermaier, a “Berlim bárbara” e sobre a questão de por que já não envelhecemos (ou o fazemos de outro modo).

Tradução: Soraia Vilela
Copyright: Frankfurter Allgemeine Zeitung GmbH 2009