Depois de mim o dilúvio? Natureza – Cultura: Arte

O clima do futuro

Nanne Meyer “Luftperspektive” (Perspectiva aérea); Fotos: Eres-Stiftung © VG Bild-Kunst, Bonn 2009 O conceito de clima divide com o próprio conceito de cultura uma ambivalência entre provo-
car e suportar. Será por isso que é tão difícil definir medidas concretas, capazes de imple-
mentar a preservação do clima também de forma cultural?


A questão das consequências e dos pressupostos culturais da mudança climática é discutida em diferentes contextos atualmente. E nela também se trata de discutir o que os indivíduos, tomados isoladamente, podem fazer contra catástrofes iminentes. “Chegou a sua vez!” Embora seja este o título do último capítulo da análise programática de Tim Flannery em Os Senhores do Clima, 2005, justamente as sugestões concretas do autor, feitas em apenas cinco páginas – por exemplo, aconselhando a comprar geladeiras ecologicamente corretas –, geram mais ceticismo do que confiança. Qual poderia ser, de fato, o aspecto de uma cultura que preserva e protege o clima? São poucos os que ainda duvidam seriamente de que os homens, durante vários milênios – o mais tardar a partir da transição paulatina a uma vida sedentária, que desde Vere Gordon Childe em A Evolução Cultural do Homem (1936) é caracterizada como “revolução neolítica” –, influenciaram e modificaram a situação climática em seus respectivos ambientes; mas a maior parte dessas mudanças não foi planejada, e a maior parte das influências foi exercida sem que se tivesse consciência disso.

Johann Gottfried Herder já foi capaz de intuir isso ao fundamentar cultural e antropologicamente o conceito de clima há mais de 200 anos em suas Ideias acerca da Filosofia da História da Humanidade. O clima seria – assim como a cultura – uma “quintessência de forças e influências”, para a qual tudo aquilo que é vivo contribuiria, “em um nexo mútuo e recíproco”; o homem teria roubado o “fogo do céu” e causado, de “várias maneiras”, mudanças no clima. No passado a Europa era uma floresta úmida; o clima do continente foi mudado por seus habitantes. Sem polícia e sem arte, até mesmo o Egito teria se tornado, assim escreve Herder, uma “lama do Nilo”. Segundo Herder, a antiga civilização avançada teria sido arrancada ao delta do Nilo e submetida a um clima artificial, que os seres humanos, na condição de “bando de gigantes ousados, ainda que pequenos, que aos poucos desceram das montanhas”, tentaram modificar com seu “punho frágil”. O futuro nos ensinará até onde conseguiremos chegar nesse sentido, conclui o filósofo.

Como os homens criam, mudam ou suportam seu clima? Herder fala de “pequenos gigantes” com seus “punhos frágeis”, como se quisesse sublinhar a ambivalência entre potência e impotência que se expressa no tratamento concedido tanto ao clima quanto à cultura. Árvores, pântanos ou desertos lodosos desapareceram; com o clima, assim afirma Herder, também os habitantes das florestas ou das margens de rios mudaram. A natureza foi cultivada, mas também os próprios homens o foram. Quem prevaleceu? As iniciativas ou as paixões? Notoriamente o conceito de clima divide com o próprio conceito de cultura uma ambivalência entre provocar e suportar. Diz-se que é cultura aquilo que os homens produziram ao trabalhar a natureza; mas cultura é também aquilo que é imposto aos indivíduos na condição de pressuposto não escolhido livremente, e sim condicionado histórica, geográfica, linguística ou política e religiosamente. Cultura é um pseudônimo do clima (e vice-versa)? Será por isso que é tão difícil definir medidas concretas, capazes de implementar a preservação do clima também de forma cultural?


O “útero social”

Não são poucas as vezes em que os homens associam o clima de seu entorno social concreto com o clima do planeta em si; testemunha disso é um grande número de metáforas: da interjeição “raios!”, que o chefe lança sobre seus funcionários, às nuvens que por vezes encobrem o outrora sereno céu de uma amizade, sem contar os mesmos raios lançados por um par de olhos, ou o sorriso ensolarado dos amantes, ou ainda o “resfriamento” paulatino das relações, ou mesmo o “clima polar” entre dois partidos inimigos ou concorrentes que se encontram exibindo feições gélidas. Quem sabe, talvez a mudança climática discutida atualmente – em suas formas abstratas, predominantemente fundamentadas em técnicas de medição e simulação – apenas seja plausível na medida em que pode ser ilustrada em experiências com mudança de clima social; e talvez, por outro lado, a dúvida sobre quem é o responsável por causar e o responsável por cuidar do clima se origine daquela formação diferencial entre microclima e macroclima, que pode ser caracterizada como estratégia de sobrevivência da “insulação”.

São descritas como insulações – um conceito que Hugh Miller cunhou em Progress and Decline (1964) – as técnicas não planejadas de seres vivos organizados socialmente no sentido de diminuir a pressão da adaptação evolucionária, e isso através do desenvolvimento de um clima interno que se distingue do clima externo. Se, por exemplo, plantas se juntam, ficando mais próximas umas das outras, elas originam em seu meio um clima sombreado, muitas vezes também mais úmido e mais favorável do que em seu entorno externo. As plantas otimizam suas condições de sobrevivência; elas avançam à condição de mecenas de seu próprio desenvolvimento. Processos de insulação aumentam a proteção; eles abrem, segundo Dieter Claessens (1980), a possibilidade de construir e habitar “nichos ecológicos”.

“Enquanto a evolução, no caso dos mamíferos, reservou a função de nicho a um meio favorável à sobrevivência como a água, depois à proteção mais nítida do ovo, e por fim ao útero (que assim se torna diretamente o mecenas da evolução e desenvolve em si mesmo aquele clima interno artificial que é o pressuposto para um desenvolvimento mais sofisticado), no caso dos humanos o desenvolvimento de certo modo se inverte: agora o útero volta a se transformar em espaço social, o que não significa outra coisa a não ser que uma parte da função de proteção, que o espaço interno da mãe havia assumido, agora é transferido para fora mais uma vez, coisa que não seria possível se um tal espaço externo, o ‘útero social’, não fosse produzido de antemão.”


Clima na condição de encenação cultural e estética

Em outras palavras: os homens também são – na condição de especialistas em insulação social – experts na produção de um clima interno favorável para sua própria sobrevivência. Eles geram seu pequeno clima privado, por exemplo, aquecendo suas moradias no inverno e refrescando-as com ar condicionado no verão, ainda que justamente essas medidas influenciem negativamente o clima externo. Eles consideram difícil de acreditar na notícia que diz que a renúncia parcial a regulações do clima interno possivelmente poderia contribuir para uma melhor regulação do clima externo. Ainda assim, justamente esta mensagem faz parte do cânone dos discursos contemporâneos; no entanto, ela também contradiz uma explicação do clima como encenação cultural e estética exercitada já há mais de cem anos. Enquanto a maior parte das civilizações agrárias avançadas – dos reinos do velho Oriente aos Estados da Idade Moderna mais remota na Europa – aprenderam a estudar e interpretar os fenômenos variegados do clima como um prenúncio favorável ou desfavorável da própria sobrevivência, na época da modernização industrial e midiotécnica a distância entre clima interno e clima externo aumentou de forma tão radical que até mesmo os piores prognósticos só podem ser percebidos mais como peças teatrais ou filmes de catástrofes.

Nós mutamos – conforme Peter Sloterdijk comenta com precisão em Esferologia plural III, 2004) – e nos transformamos em um público do clima: “Com sua forma publicitária mais bem-sucedida, o assim chamado boletim meteorológico (Wetterbericht, informations météorologiques, weather news), a moderna meteorologia (palavra emprestada ao grego meteoros, ‘pairando no ar’, no século XVII) – ou seja, a ciência das ‘precipitações’ e todos os demais corpos que irradiam no céu ou pairam nas alturas – impôs às populações de Estados nacionais modernos e de comunidades midiáticas de caráter político uma forma historicamente nova de conversação, que pode ser caracterizada da melhor forma como ‘discussão da situação climatológica’. Sociedades modernas são comunidades que discutem as condições do tempo na medida em que uma entidade de informação oficial do clima põe na boca dos cidadãos os temas de seu autoentendimento acerca das condições de tempo dominantes. Pela comunicação das condições do tempo apoiada na mídia, grandes comunidades modernas, que envolvem muitos milhões de membros, se transformam em vizinhanças de caráter aldeão, nas quais se trocam opiniões que dizem que está demasiado quente, demasiado frio, demasiado chuvoso ou demasiado seco para determinada época do ano. [...] As modernas notícias acerca das condições do tempo transformam populações nacionais em espectadores de um teatro do clima, ao exortar os receptores a comparar a percepção pessoal com o relato da situação e a formar uma opinião pessoal sobre os acontecimentos correntes. Na medida em que descrevem as condições do tempo como uma representação cênica da natureza perante a sociedade, os meteorologistas reúnem as pessoas e fazem delas um público de conhecedores debaixo de um céu conjunto que a todos encobre; eles fazem de cada indivíduo um resenhista do clima, que avalia as apresentações atuais da natureza segundo seu gosto pessoal”.

A teatralização do clima parte sempre do pressuposto de que as condições sociais do tempo são condições do tempo produzidas, que os engenheiros do clima são autores e diretores de narrativas e imagens convincentes; ela compreende clima e condições do tempo como resultados de uma estratégia, de um plano. Esse plano pode objetivar a melhora do próprio clima interno, mas também a piora do clima inimigo. Não por acaso, conforme Sloterdijk também explica em Aeromotos. Nas Fontes do Terror (2002), o ataque com gás letal está entre as formas de ação exemplares de guerras modernas; ele não objetiva mais atingir os corpos dos inimigos, e sim seu entorno, sua atmosfera, seu clima. “O século XX principiou de forma espetacularmente reveladora no dia 22 de abril de 1915, com a primeira utilização em massa de gases de cloro na condição de meio de combate por um ‘regimento de gás’, criado especialmente para tanto, dos exércitos ocidentais alemães contra as posições da infantaria franco-canadense no Ypern-Bogen. Nas semanas anteriores, soldados alemães, sem que o inimigo percebesse, haviam instalado milhares de garrafas de gás escondidas como baterias de tipo até então desconhecido na borda das trincheiras alemãs que se localizavam naquela parte do front. Exatamente às 18 horas, 1.600 garrafas grandes (de 40 kg) e 4.130 menores (de 20 kg), cheias de cloro, foram abertas por pioneiros do novo regimento, sob o comando do coronel Max Peterson, quando o vento soprava em direção norte-nordeste. Com esse ‘escape’ de substância condensada, cerca de 150 toneladas de cloro se expandiram, formando uma nuvem de gás de cerca de 6 quilômetros de largura e de 600 a 900 metros de profundidade.” Tais experiências cunharam a mentalidade de civilizações modernas. Elas formam, segundo Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem (1964), de Marshall McLuhan, os bastidores espantosos da nostalgia coletiva pela metamorfose do homem em um “homem-rã cósmico”, que com refinamento tecnológico torna reais várias “possibilidades de moradia”, “que vão da nave espacial até paredes de ar aquecido”; mas elas também inspiraram decisivamente a filosofia do século XX: do Tractatus de Wittgenstein até a “corrida adiantada à morte” de Heidegger, do L’être et le néant de Sartre à esferologia de Peter Sloterdijk. Não por acaso Wittgenstein, Heidegger e Sartre foram incumbidos de observar as condições do tempo – na Primeira Guerra Mundial, no front oriental e na Ofensiva Ludendorff, e na Segunda Guerra Mundial na Linha Maginot. Sua função era prognosticar os movimentos do vento e das nuvens, para possibilitar uma melhor avaliação do alcance da própria artilharia e da artilharia inimiga.


Utopia e tendência

Como poderemos julgar as futuras mudanças do clima na Terra, se até mesmo os filósofos conseguem prever apenas os acontecimentos mais próximos em caso de emergência? Quem quer falar do futuro, tem de saber distinguir entre futuro próximo e futuro distante. Futuro próximo é daqui a uma hora, amanhã, na próxima semana, no próximo outono ou na próxima primavera. A sombra mais extrema projetada pelo futuro próximo por certo não alcança mais longe do que uma legislatura ou um campeonato mundial. Futuro distante, ao contrário, é o novo século, uma época de triunfos técnicos ou de derrotas catastróficas. O futuro distante é estruturado em épocas; sua palavra-chave se chama utopia, a palavra-chave do futuro próximo é tendência. Partindo dessa diferenciação, poder-se-ia perguntar se a perda atual do futuro distante positivo – comumente discutida como crise das utopias – não aumenta a atenção com o futuro próximo, o interesse por modas e tendências. Até mesmo a política hoje em dia apenas raramente pensa no horizonte temporal de José, o intérprete de sonhos bíblico, que ainda chegou a desenvolver para o faraó um conceito planificado fundado nos prognósticos do clima para mais de três legislaturas (sete anos de vacas gordas, sete anos de vacas magras). Que futuro será alcançado com que técnicas de planejamento e de previsão? Na Antiguidade, o oráculo era requisitado para decisões relativas ao futuro próximo; a astrologia, ao contrário, era aplicada também na construção de épocas e do futuro distante. E hoje? Que distância pode ser dominada, por exemplo, com a estatística? Quão confiáveis são cenários construídos com a ajuda de simulações por computador? Tão-somente a menção de sistemas de alerta precoce sinaliza que a dominância atual do futuro próximo possivelmente também esteja intimamente ligada a dificuldades técnicas e metodológicas na construção do futuro distante, seja na política, na economia ou na ecologia.

Mas nesse caso é grande o risco de que nós apenas discutamos o clima do futuro na medida em que este tema corresponda às regras atuais das controvérsias políticas. Há 25 anos ainda era oportuno imaginar a iminente guerra nuclear, enquanto há 60 anos a ventura de um futuro atômico era festejada entusiástica e apaixonadamente. Na época, até mesmo Ernst Bloch se entusiasmava em Princípio Esperança com uma mudança climática alcançada por meios técnicos: “Algumas centenas de libras de urânio e tório seriam suficientes para fazer desaparecer o Saara e o deserto de Gobi, e transformar a Sibéria, o norte do Canadá, a Groenlândia e a Antártida em uma Riviera.” Também no século XXI, nós nascemos em culturas que foram tão pouco feitas por nós mesmos quanto o clima dominante – e, assim como o clima, também a cultura pode ser contemplada como destino e projeto ao mesmo tempo. Mudança climática é mudança cultural e vice-versa. Até mesmo mudanças radicais das condições climáticas e culturais da vida poderiam esperar meramente aquela flexibilidade que um olhar à história pretérita da humanidade, ao “pequeno gigante” no sentido que lhe concedeu Herder, descortina. Com razão, o sábio de Weimar observou em suas Ideias acerca da Filosofia da História da Humanidade que talvez um dia exista “um viajante próprio”, e talvez até mesmo uma nova ciência e uma filosofia que pense e aja “sem preconceitos e exageros em favor do espírito do clima”. Essa esperança, porém, não foi cumprida até hoje.
Thomas Macho (1952, Viena)
é catedrático de História da Cultura da Universidade Humboldt de Berlim. É cofundador do Centro Hermann von Helmholtz para Técnicas Culturais. Nos últimos tempos ocupou-se extensivamente de questões relacionadas com a mudança climática. É coeditor do catálogo da exposição realizada no Museu Alemão da Higiene de Dresden Zwei Grad: Das Wetter, der Mensch und sein Klima (2008).

Tradução: Marcelo Backes
Copyright: Goethe-Institut e. V., Humboldt Redaktion
Novembro 2009
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