Depois de mim o dilúvio? Natureza – Cultura: Arte

Desigualdade sem fronteiras

Takashi Horisaki “Social Dress New Orleans - 730 days after”, 2007; instalação no Socrates Sculpture Park, Nova York © Takashi Horisaki, cortesia do artista Quem desce e quem sobe na era da globalização e da mudança climática. Uma reflexão sociológica do autor de “A Sociedade Global do Risco”.

O número de crianças que crescem em meio à pobreza na Alemanha é cada vez maior. Milhões de pessoas das regiões mais pobres do mundo arriscam sua vida para participar da suposta riqueza de países ocidentais. Na Europa e nos Estados Unidos, mas também na China, no Brasil, na Rússia e na Índia, a desigualdade entre pobres e ricos aumenta. Notícias assim são fundamentadas por uma determinada concepção de mundo acerca da desigualdade entre os homens que surgiu na transição para a sociedade moderna e agora, no princípio do século XXI, na era da globalização e da mudança climática, é abalada decisivamente em seus fundamentos.

A ordem social pré-moderna vigorou e sucumbiu aceitando a hipótese de que os homens são desiguais por natureza e que a origem da desigualdade social deveria ser buscada na vontade de Deus. Com as exigências iluministas e revolucionárias que postulavam a igualdade de todos os homens, essa concepção de mundo se esboroou. Se os homens não são desiguais por natureza, então a desigualdade social é fundamentada pela mudança, então os privilegiados de hoje poderão ser os marginalizados de amanhã. Politicamente, isso quer dizer: todas as desigualdades em princípio são modificáveis e têm a obrigação de se justificar.

Entretanto, esse princípio é aplicado à realidade da Europa e dos Estados Unidos desde o século XVIII sempre e apenas dentro de fronteiras claras e com exceções bem características. Todos os homens são iguais – mas essa igualdade não vale para pretos, judeus e mulheres, e acaba sobretudo nas fronteiras dos Estados nacionais. E, sendo assim, as desigualdades sociais podem muito bem florescer e vicejar além das cercas do jardim nacional; isso até motiva uma indignação moral, mas não tem nenhuma relevância política. Afinal existe também uma fronteira nítida entre sociedade e natureza, como também entre desigualdade social e natural. Aquela necessita de justificação política, esta não.

Todas essas premissas hoje são questionáveis. A sobreposição, também se poderia dizer, a colisão de crescentes expectativas globais de igualdade (direitos humanos) e de crescentes desigualdades nacionais e globais, de um lado, com as consequências radicalmente desiguais das mudanças climáticas e do consumo de recursos, de outro, em pouco poderá varrer todo esse arcabouço de premissas de desigualdade limitada a determinados Estados nacionais como o furacão Katrina o fez com as casas pobres de Nova Orleans.

Estamos vivendo mais uma vez uma mudança epocal da ordem social e mundial, que no entanto apenas agora começa a chegar à consciência pública. Eu gostaria de descrever essa mudança a partir de quatro teses.


1. A igualdade social torna-se uma expectativa universal

Desigualdades sociais não viram problema e tema de conflito porque os ricos ficam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres, mas sim e apenas quando normas reconhecidas de igualdade e expectativas de igualdade – direitos humanos – se propagam. Quem pretende compreender o efeito político de desigualdades sociais deve buscar compreender a história da igualdade social.

É preciso, portanto, diferenciar entre a realidade da desigualdade social e o problema político da desigualdade social. As desigualdades sociais, sob um ponto de vista histórico, se transformam em escândalo político apenas bem tarde, e primeiramente na forma de um paradoxo característico: todos os homens são simultaneamente iguais e não-iguais ao longo de fronteiras nacionais. Nesse sentido, fronteiras nacionais funcionam como linhas divisórias da percepção: transformam desigualdades sociais em questão política – para o público interno – e ao mesmo tempo produzem, estabilizam, legitimam-na – para o público externo. Em que condições essa concepção de mundo passa a se esfacelar?

Ironia brutal: a desigualdade entre pobres e ricos na sociedade mundial assume a forma de uma taça de champanhe. Os 900 milhões de pessoas privilegiadas pela bênção de nascer no Ocidente consomem 86 por cento de tudo aquilo que é consumido no mundo, 58 por cento da energia do mundo inteiro e dispõem de 79 por cento das receitas do mundo. Os 20 por cento mais pobres, 1,2 bilhão da população mundial, consomem 1,3 por cento do consumo global, 4 por cento da energia e dispõem de 1,5 por cento de todas as ligações telefônicas. É fácil de explicar por que os ricos se refestelam em seu bem-estar. Mas como é possível que isso seja aceito também pelos pobres dominados? Aos 20 por cento da população mundial que estão em situação pior (essas pessoas têm, todas juntas, menos dinheiro do que o homem mais rico do mundo sozinho), falta tudo: alimentos, água potável e um telhado sobre a cabeça. O que é que torna essa ordem global desigual legítima e estável, no fundo?

Minha resposta é: o princípio do mérito legitima a desigualdade nacional, e o princípio do Estado nacional legitima a desigualdade global.

Fronteiras nacionais distinguem com nitidez a desigualdade politicamente relevante da irrelevante. Desigualdades no interior de sociedades nacionais são aumentadas na percepção; ao mesmo tempo, desigualdades entre sociedades nacionais são apagadas. A “legitimação” de desigualdades globais repousa, portanto, sobre um desviar de olhos institucionalizado. O olhar nacional “liberta” do olhar sobre a miséria do mundo.

As desigualdades entre países, regiões e Estados são tidas como politicamente incomparáveis. Até mesmo diferenças maciças de renda entre pessoas de mesma qualificação, mas de nacionalidades diferentes, só adquirem brisância política no interior de um horizonte de percepção fundamentado na igualdade social. Portanto, apenas se as pessoas pertencem à mesma nação ou à confederação da União Europeia ou se trabalham no mesmo conglomerado empresarial, ainda que em diferentes sucursais nacionais.

Mas é justamente isso que o olhar nacional apaga: quanto mais normas de igualdade se propagam mundialmente, tanto mais difícil e mais questionável passa a ser desviar os olhos. As democracias ricas carregam a bandeira dos direitos humanos até as regiões mais absconsas do planeta, sem perceber que desse modo arrancam o fundamento legitimador das fortalezas fronteiriças nacionais com as quais pretendem se defender das torrentes de migração. Muitos migrantes levam a anunciada igualdade a sério, como sendo um direito humano à mobilidade, e querem se deslocar a países e Estados que pretendem fazer com que a norma da igualdade acabe em suas fronteiras armadas.


2. Nós não podemos mais compreender desigualdade social no âmbito do Estado nacional

A percepção da desigualdade social no cotidiano, na política e na ciência repousa sobre uma concepção de mundo que assume fronteiras territoriais, políticas, econômicas, sociais e culturais como sendo uma e única coisa. Na realidade, porém, o mundo está cada vez mais conectado. O aumento dos entrelaçamentos e das interligações além das fronteiras nacionais obriga a uma nova medição da desigualdade social.

Essa mudança de perspectiva se fundamenta em três pontos de vista:
- Classes sociais são apenas uma das formas históricas de desigualdade.
- O Estado nacional é apenas uma das bases históricas de interpretação.
- O “fim da sociedade nacional de classes” não significa “o fim da desigualdade social”, pelo contrário: intensifica a desigualdade no âmbito nacional e transnacional.

O Estado nacional que apenas acabara de surgir conseguiu desenvolver as instituições políticas e de domínio com as quais os danos sociais e culturais do capitalismo industrial moderno puderam ser limitados. Isso aconteceu no interior das fronteiras territoriais do Estado nacional e foi uma espécie de casamento entre domínio e política, que agora acaba em divórcio. Assim, o domínio, transformado em poder difuso, em parte é depositado no espaço cibernético, em mercados e capital móvel, e em parte até mesmo empurrado para os indivíduos, que têm de dar conta dos riscos sozinhos. Eis que agora, face à crise financeira, justamente os Estados Unidos desertam para um socialismo de Estado para ricos.

Através do que é determinada a posição no sistema da desigualdade social em um mundo no qual as fronteiras nacionais – pelo menos para os fluxos de capital e de informação – se tornaram permeáveis? O interessante é que isso acontece essencialmente através da resposta a esse processo de desfronteirização. No topo da hierarquia global da desigualdade se encontram os “transnacionalizadores ativos”. Eles dispõem de recursos de todo o tipo – passaportes, patentes de ensino e formação, línguas, dinheiro, ou seja, capital cultural, social e econômico. Deles fazem parte grupos bem diferenciados: por certo as elites globais, que não pensam nem agem mais em categorias de espaços nacionais; mas também grande parte das gerações mais novas, que vivem conscientemente de maneira transnacional e são correspondentemente móveis, adquirem patentes internacionais de ensino e formação, constroem redes de amizade e desse modo ampliam seu “capital de relacionamento”; e por fim também migrantes, que aproveitam as chances da globalização, por exemplo, ao acionar a associação familiar como um recurso social. Do outro lado desta nova divisão está o centro global temeroso do descenso, que suporta passivamente a transnacionalização. Ou seja, a maioria assaz heterogênea composta por aqueles que definem sobretudo a sua existência material de maneira territorial e reclamam a renovação das fronteiras territoriais e da identidade nacional face à ameaça de seu padrão de vida, reivindicando a proteção do Estado. Os tempos incertos mostram aqui seu rosto neonacional: cresce o ódio contra “os outros”, contra estrangeiros, judeus e muçulmanos.

Para dizer honestamente, o que é destinado a apaziguar o centro em queda – o argumento gêmeo: a globalização é o nosso destino, e o protecionismo é contraproducente – não consola nem salva ninguém. O eleitor não é nenhum masoquista. Ele não elege o partido que promete seu descenso. Sem o consentimento do centro de caráter nacional no mundo inteiro, porém, a política, que quer preservar e inclusive aumentar a integração internacional, vê-se privada de seu fundamento de poder.


3. Na mudança climática as desigualdades sociais e naturais se fundem

A mudança climática, que é tida como catastrófica e causada pelo homem, acontece na forma de uma nova síntese entre natureza e sociedade. A consequência política disso: a concepção de mundo da igualdade natural de todos os homens é substituída pela concepção de mundo de uma desigualdade natural dos homens, quer dizer, causada por catástrofes naturais.

Os diagnósticos são conhecidos: aquecimento do planeta, derretimento das calotas polares, aumento do nível do mar, desertificação, crescimento dos furacões. Tudo isso é encarado como catástrofe natural. A natureza por si só, contudo, não é catastrófica. Os potenciais catastróficos espelham, muito antes, a vulnerabilidade social de determinados países e grupos populacionais às consequências da mudança climática.

O princípio do Estado nacional, conforme argumentei, não está em condições de reproduzir por mais tempo as desigualdades da mudança climática. E o que pode ocupar seu lugar? Minha sugestão: o princípio do efeito secundário (Nebenfolgenprinzip). Este diz: a unidade fundamental da desigualdade natural e social é formada por pessoas, populações, regiões que são atingidas existencialmente, além das fronteiras do Estado nacional, pelos efeitos secundários de decisões tomadas por outros. A atitude de não querer perceber os perigos do mundo ambiental e do mundo interno se evidencia com mais frequência onde os homens não têm possibilidade de escapar a eles. E, assim, os riscos são empurrados para onde não são percebidos. A aceitação por parte desses países não pode ser equiparada à concordância das pessoas que lá vivem, e sim creditada antes à mudez e à estupefação que se alimentam da penúria em que vivem essas pessoas.

Perigos ambientais de alcance global pressupõem e põem exatamente isso em marcha: geração de risco e submissão ao risco são desvinculados espacial e temporalmente. O que uma população põe em marcha em termos de potencial catastrófico acaba atingindo “outros”: pessoas de sociedades estranhas e gerações futuras. Analogamente, vale o seguinte: quem toma a decisão de desencadear perigos aos outros não pode mais ser responsabilizado por isso. E, assim, acaba surgindo uma irresponsabilidade organizada. Os mais pobres entre os pobres vivem à beira do precipício saheliano, e a mudança climática os empurra – eles que foram os que menos contribuíram para tanto – para dentro do abismo. Segundo todos os parâmetros válidos, isso é uma injustiça gritante. Ao mesmo tempo, porém, ela aparece na condição de “catástrofe natural”: carência de chuva. O que isso significa? Em que medida a desigualdade social é transformada em desigualdade natural?

Na medida em que os mais duramente atingidos pela “naturalidade” de sua situação catastrófica se veem abandonados a si mesmos, eles a aceitam. A luta pela sobrevivência isola. Se o fundamento de legitimação da desigualdade global foi abalado pela propagação da norma da igualdade, ele agora volta a ser consolidado de novo: sob a impressão da catástrofe “natural” produzida socialmente, a natureza, ela mesma, se transforma em fundamento de legitimação.

Quem pensa em todos os argumentos mencionados até agora, topa com um paradoxo: quanto mais normas de igualdade ganham globalmente em validade, tanto mais insolúvel se torna o problema do clima e tanto mais devastadoras se tornam as desigualdades ecológico-sociais dos efeitos secundários. Eis uma perspectiva nem um pouco otimista.


4. A mudança climática é hierárquica e democrática

A mudança climática intensifica as desigualdades entre pobres e ricos, entre centro e periferia – mas ao mesmo tempo as suspende! Quanto maior o perigo para o planeta, menor a possibilidade, mesmo entre os mais ricos e mais poderosos, de escapar a ele. A mudança climática é ambas as coisas: hierárquica e democrática.

Isso contém também uma nova reivindicação iluminista. A mudança climática libera um “momento cosmopolita”: riscos globais obrigam ao confronto com o outro aparentemente tão distante. Eles derrubam fronteiras nacionais e misturam o nativo ao estrangeiro. O outro distante se transforma em outro interno – não em consequência da migração, mas muito antes em consequência dos riscos globais. O cotidiano se torna cosmopolita: as pessoas são obrigadas a conduzir e compreender sua vida em intercâmbio com outros, e não mais meramente no encontro com seus iguais.

O realismo catastrófico corrente, correto e ingênuo engana. Pois esta diferenciação é importante: riscos climáticos não significam o mesmo que catástrofes climáticas. Riscos climáticos são a antecipação, no presente, de catástrofes futuras. E já a antecipação da mudança climática põe em marcha, aqui e agora, uma mudança de caráter fundamental. Desde que é dado como indiscutível que a mudança climática foi causada pelos homens e tem consequências catastróficas para a natureza e para a sociedade, as cartas na sociedade e na política voltam a ser distribuídas, e isso mundialmente. Por isso é completamente errado ver a mudança climática como um caminho irreversível em direção ao apocalipse. A mudança climática concede, inesperadamente, também a chance de superar a tacanhice nacionalista da política e de desenvolver um realismo cosmopolita inclusive em favor do interesse nacional. A mudança climática é ambas as coisas. Ela é ambivalência pura.

A humanidade poderia sucumbir ao equívoco da lagarta. Essa lagarta humana se encontra no estágio de sair da crisálida, mas lamenta seu desaparecimento, porque não tem a noção da borboleta em que se transformará. Inversamente pode acontecer que nós confiemos demais na esperança hölderliniana tantas vezes citada: com o perigo, aumenta também a possibilidade de salvação. Nesse caso, o esforço necessário para se tornar uma borboleta se veria privado de seu impulso.


Texto publicado no journal semanal DIE ZEIT do 9 de otubro de 2008. É uma versão resumida da conferência de abertura do Congresso de Sociologia de 2008 em Jena. A versão completa foi publicada com o título de “Die Neuvermessung der Ungleichheit unter den Menschen” pela editora alemã Suhrkamp.
Ulrich Beck (1944)
sociólogo, ocupou até o semestre de verão de 2005 uma cátedra no Instituto de Sociologia da Universidade Ludwig Maximilian de Munique. Há três décadas estuda as mudanças nas sociedades modernas, tendo refletido desde cedo a respeito das consequências da globalização. À sua obra A Sociedade do Risco (1986), seguiu-se em 2007 A Sociedade Global do Risco. Em 2008, tratou das consequências da mudança climática em seu livro Die Neuvermessung der Ungleichheit unter den Menschen.

Tradução: Marcelo Backes
Copyright: Die Zeit
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