Cultura da tradução – Tradução da cultura

Civilizar é traduzir

O tradutor de “Facundo”, um clássico não só da literatura argentina, mas também do pensamento social e da autoimagem da América Latina, reflete sobre a educação nacional e a transferência cultural em Domingo Faustino Sarmiento (1811–1888).

O autor destas linhas teve o enorme prazer de transpor para o alemão o opus magnum de um autor que sempre deu muito valor para a aprendizagem de línguas estrangeiras e para a atividade tradutória, tanto no sentido literal de verter textos de uma língua para outra, como também no sentido figurado de transferir e adaptar ideias, atitudes, instituições de uma cultura para outra, um aspecto de sua vida e obra no qual vale a pena dar uma olhada. E diferentemente do que se poderia esperar de um importador e propagador entusiasmado da civilização europeia, traduzir, para Sarmiento, devia ser um processo de mão dupla.

Pois bem, no ano de 1845, saiu em Santiago do Chile, cidade situada então nas margens da civilização ocidental, Civilización i barbarie. Vida de Juan Facundo Qiroga. Aspecto físico, costumbres i ábitos de la República Arjentina*, de autoria de um jovem exilado argentino sem cargo importante, sem dinheiro, sem formação profissional, um autodidata, porém já com certo prestígio como jornalista e educador, de nome Domingo Faustino Sarmiento. Ninguém podia prever que esse livro, mera coletânea encadernada de uma série de artigos apaixonados desse republicano liberal contra o caudilhismo na Argentina e mais especificamente contra a ditadura de Juan Manuel Rosas (1835–1852), publicados no diário El Progreso, teria logo um impacto retumbante em toda a América Latina, mais tarde também na Europa e nos Estados Unidos. Hoje é considerado “the first Latin American classic and the most important book written by a Latin American in any discipline or genre”, segundo Roberto González Echevarría, na sua introdução para: Domingo Faustino Sarmiento: Facundo. Civilization and Barbarism (tradução de Kathleen Ross. Berkeley: University of California Press, 2003). Pois esse ensaio à primeira vista disforme e híbrido – entre biografia de um caudilho (Facundo Quiroga), geografia, historiografia e antropologia do interior da Argentina, romance, dramaturgia e panfleto –, escrito no calor da hora, com a intenção imediata do autor de se defender contra a sua extradição exigida pelo governo argentino, virou um clássico não só da literatura, mas também do pensamento social e da autoimagem da América Latina. Ajudou o autor a projetar-se como líder da oposição antirrosista e a tornar-se, mais tarde, presidente da República Argentina (1868–1874).

Traduzir o Facundo para outro idioma não apenas significa prestar um serviço ao público leitor de outra língua, promovendo o diálogo cultural, mas cumprir um profundo anelo do próprio autor, que sempre quis ver o seu livro à disposição do público de outros idiomas, principalmente do francês, língua franca dos letrados da época, sugerindo traduções também para o inglês e o italiano, que realmente foram publicadas ainda durante a sua vida. Quando Sarmiento viajou pela Alemanha, em 1847, se encontrou, como narra no seu relato Viajes por Europa, Africa i América 1845–1847, publicado em Santiago de Chile em 1849–1851, com um professor de Geografia da Universidade de Göttingen, com quem havia algum tempo mantinha correspondência, Johann Eduard Wappäus, que publicou já no ano seguinte, em 1848, trechos do Facundo dentro de um tratado sobre a Argentina destinado a estimular a emigração alemã ao Rio da Prata. Pois essa era, entre outras, uma das intenções com que Sarmiento escreveu o seu livro: fomentar a imigração de europeus, a fim de que fossem agentes da civilização, da mudança social, do progresso econômico, tecnológico, civil, cultural.

O Facundo é um texto cuja orientação ideológica, entre iluminista e romântica, já é transnacional, vinda da Europa, aplicada ao Novo Mundo e transformada de modo original por um hispano-americano que deseja compartilhar o resultado de suas observações e reflexões com os hispano-americanos e norte-americanos, mas também com os próprios europeus, talvez por uma questão de vaidade, mas principalmente porque acreditava na importância do diálogo em escala internacional. Assim, Sarmiento estimulou resenhas, sobretudo no principal órgão da opinião pública internacional de então, a Revue des Deux Mondes, deu palestras em 1847 no Institut Historique de France, publicou a terceira edição espanhola do Facundo em Nova York (1868) e a quarta em Paris (1874).

A civilização – ou seja, desenvolvimento das forças produtivas, modernidade, cultura, razão, modos pacíficos de convivência – é associada geograficamente com as cidades, com a Europa e os Estados Unidos; ao passo que a barbárie – tradicionalismo econômico e tecnológico, ignorância, violência, opressão – é associada com o resto do mundo, especialmente com o interior da América do Sul, o campo, as pastagens, o pampa, os llanos, as selvas, o deserto. Trata-se de um dicotômico modelo interpretativo da história e das sociedades, mas que é usado também, pelos liberais e progressistas, com fins polêmicos, para atacar os inimigos políticos, atrasados, e para enaltecer as forças liberais e modernizadoras, uma espécie de campanha religiosa secularizada, sendo o bárbaro sempre o Outro, o não letrado, o não educado nos moldes europeus.

Procedimentos intelectuais da civilização

Em vários trechos do Facundo, o autor se dedica a procedimentos intelectuais muito próximos aos do tradutor, mediando entre línguas e culturas. Isto vale sobretudo para a antológica frase que aparece duas vezes logo no início, como epígrafe do prólogo e, depois, dentro dele: “On ne tue point les idées”. Nesta citação, ou pseudocitação, pois é de origem apócrifa, está todo o Sarmiento, o arauto da civilização, o extremado idealista, o possível mártir ou herói, com todo o seu senso pelos grandes gestos patéticos, pela autoencenação, pela instrumentalização da cultura universal para aumentar o prestígio próprio, mas também com seu empenho original, sincero e corajoso pelo Progresso, Liberdade, Humanidade. Estava fugindo, então, da mal-afamada Mazorca, a milícia da ditadura rosista:

A fines del año 1840, salía yo de mi patria, desterrado por lástima, estropeado, lleno de cardenales, puntazos y golpes recibidos el día anterior en una de esas bacanales sangrientas de soldadesca y mazorqueros. Al pasar por los baños de Zonda, bajo las armas de la patria que en días más alegres había pintado en una sala, escribí con carbón estas palabras:

On ne tue point les idées.

El Gobierno, a quien se comunicó el hecho, mandó una comisión encargada de descifrar el jeroglífico, que se decía contener desahogos innobles, insultos y amenazas. Oída la traducción, “¡y bien! – dijeron – ¿qué significa esto?  [...]”.

Significaba, simplemente, que venía a Chile, donde la libertad brillaba aún, y que me proponía hacer proyectar los rayos de las luces de su prensa hasta el otro lado de los Andes. Los que conocen mi conducta en Chile saben si he cumplido aquella protesta.

Sarmiento zomba da ignorância do governo e dos seus sicários, da sua falta de cultura universal, da sua incapacidade tradutória. Pelo uso do francês, ele se declara membro da comunidade dos homens civilizados e cosmopolitas, na qual inclui os seus leitores, os seus correligionários, os defensores das Luzes, da Razão, da imprensa livre e do Direito, ficando excluídos porém todos os monolíngues, os setores mais populares, os incultos, não só os rosistas como também, implicitamente, os pais e irmãos do próprio autor, que se revela algo elitista neste item, contrariando o espírito democrático que inspira a sua atividade pedagógica.

Os bárbaros federales, mesmo depois de terem acesso à tradução, não sabem interpretá-la, pois não entendem a sua dimensão filosófica e política, o seu pano de fundo iluminista, sendo também incapazes de avaliar a situação nacional e internacional da Argentina contemporânea, as diferenças fundamentais entre um país sem e outro com liberdade de opinião. E desconhecem, ou subestimam, a importância do jovem unitario Sarmiento, um homem que graças ao poder da ideia e da palavra chegará a legitimar a pretensão expressa em um gesto que poderia ser considerado pedante ou arrogante. E realmente, a queda de Rosas em 1852 será – também – uma consequência da atividade literária e jornalística de Sarmiento, inclusive da atitude expressa na epígrafe. Ora, a tradução que dela oferece o próprio autor, é altamente significativa e emblemática com respeito à sua prática de transferência linguística e cultural, totalmente apropriadora e incorporadora:

A los hombres se degüella: a las ideas, no.

É uma interpretação subjetiva, particularizadora e nacionalizadora, pois desambiguiza, restringe e concretiza o significado do original, produzindo um texto de chegada atualizado e adaptado para a situação política e cultural da Argentina, de modo que pode ser lido como acusação ao regime rosista, pois alude, sarcasticamente, ao seu principal método de repressão e trucidação, um modo de matar não os homens, mas o gado: a degola. E sugere, de acordo com o critério da longevidade, uma oposição entre homens e ideias na luta pela liberdade, relativizando a importância de indivíduos e imortalizando a ideia pela qual eles lutam. Alude também – um aspecto autobiográfico – ao destino a que o autor por pouco escapou.

Hoje essa frase se encontra inscrita não em uma sala, mas na própria rocha de um dos primeiros morros no sopé dos Andes, entre San Juan, cidade natal de Sarmiento, e a fronteira chilena, ou seja, a epígrafe foi de certa forma eternizada, imortalizada, inscrita na própria natureza, com um busto do autor ao lado, o todo transformado, pelas autoridades argentinas, em lugar de memória nacional, saudando, instruindo e moralizando o viajante, em língua europeia, nota bene.

Cosmopolitismo e nacionalização

Não só o prólogo, também a introdução e cada um dos quinze capítulos do livro têm uma epígrafe de autor europeu, quase todas em francês, mesmo que sejam da autoria de um Shakespeare ou de um Alexander von Humboldt, e quase todas ficam sem tradução da parte do autor, apelando mais uma vez para o cosmopolitismo dos leitores. Quase todas essas epígrafes apresentam problemas filológicos, sendo citações pouco fiéis ou até fantasiosas; e pelo menos duas têm indicação errada de fonte, por exemplo a epígrafe do primeiro capítulo, que é atribuída ao viajante inglês Francis Bond Head, sendo na verdade de Humboldt. Os primeiros críticos já apontaram uma série de inexatidões no livro, sem que o autor as tivesse corrigido sistematicamente em tiragens posteriores; e no fundo ele tinha razão, pois o valor do Facundo não está na sua confiabilidade filológica e historiográfica. É antes de tudo uma eficiente máquina geradora de ideias e imagens sugestivas sobre a Argentina, a América do Sul e sua relação com o mundo, inscrevendo o pampa e o gaúcho no imaginário da Humanidade civilizada. Muitas caracterizações dessa paisagem, aliás, já se encontram nos relatos de viajantes ingleses, de modo que os escritos de Sarmiento e de outros autores hispano-americanos sobre a temática podem ser, parcialmente, considerados adaptações, variações, desdobramentos de textos estrangeiros.

As citações e outras alusões àquilo que o leitor europeu culto sabe e conhece mostram uma técnica cognitiva e didática, por assim dizer comparativa, que é a de muitos viajantes europeus: a sabedoria, a cultura, a história da Europa e do Velho Mundo ajudam a entender a América Latina.

La Esfinge Argentina, mitad mujer, por lo cobarde, mitad tigre, por lo sanguinario, morirá a sus plantas, dando a la Tebas del Plata el rango elevado que le toca entre las naciones del Nuevo Mundo.

A esfinge aqui é o ditador Rosas, e a Tebas é Buenos Aires, podendo o pronome possessivo “sus” (que evoca o papel de Édipo como solucionador do enigma) referir-se às “almas generosas” ou à “República”, que aparecem na frase anterior, sugerindo o subtexto que será o próprio autor. A palavra “tigre” é outro exemplo da estratégia incorporadora praticada por Sarmiento como tradutor, pois se refere à onça americana que substitui o leão do mito grego, sendo além disso uma alusão ao tótem de Facundo, chamado ele mesmo El Tigre de los Llanos. As pressuposições em termos de cultura geral que o leitor deve conhecer são consideráveis: a Bíblia, a história e mitologia da Antiguidade, a literatura francesa e europeia, noções científicas de um modo geral, e um pouco de latim e de inglês também não faz mal, além da língua francesa naturalmente. O autor traduz, por assim dizer, o interior do país para a civilização, para a cultura urbana nacional e estrangeira. Para isso, usa a história e a cultura do Velho Mundo, que o público letrado conhece, para entender e interpretar o Novo Mundo, que o público não conhece, mesmo sendo de Buenos Aires ou Montevidéu; daí as comparações, analogias, antonomásias e metáforas emprestadas da história da África, Ásia e Europa, de modo que os gaúchos “são” ora beduínos, ora turcos, mongóis etcétera.

Educação europeia para todos

Desde a Independência, a grande preocupação de gerações inteiras de letrados, artistas, escritores, advogados, engenheiros, políticos sul-americanos, ou pelo menos dos patriotas progressistas, foi a construção de um moderno e civilizado Estado Nacional, deveras independente, um Estado de Direito, preferencialmente – exceto no Brasil, monárquico até 1889 – republicano ou até democrático, próspero, garantindo a igualdade, a liberdade, a segurança dos seus cidadãos e o progresso econômico, naturalmente nos moldes capitalistas. Para os grupos mais liberais e cosmopolitas, representados por letrados, profissionais liberais, empresários, negociantes, como os unitarios na Argentina – aos quais pertencia Sarmiento – e que eram inimigos dos federales – considerados atrasados e autoritários, ligados aos caudilhos, cujo chefe supremo era Rosas –, as ideias e os modelos tinham que vir da França, mas também da Inglaterra e da Prússia (sendo esta última considerada modelar no ensino primário) e dos Estados Unidos, o grande modelo político. Construir uma nação e civilizar o país pareciam duas faces da mesma moeda, e o método era uma gigantesca transferência de pessoas assim como de bens materiais e culturais, querendo-se importar quase tudo: mercadorias, modas, ideias, ciências, tecnologias, artes, instituições sociais e políticas, para acabar com o atraso, a pobreza, a desordem, a violência, as guerras civis. Pois vários países da América Hispânica, na primeira metade do século XIX, eram aquilo que hoje se chamaria failed states, Estados fracassados, de modo que criar uma sólida ordem pública não era só uma questão de cultura, mas de sobrevivência.

Para essa grande obra era preciso formar e informar as pessoas, já que uma nação civilizada precisava de cidadãos autônomos e instruídos, não súditos subservientes e analfabetos. Por isso a imprensa e a opinião pública – para os adultos – assim como a pedagogia e a escola – para os jovens – se tornaram atividades e instituições essenciais. Começou-se a propagar, nos países recém-emancipados, um verdadeiro culto à educação assim como um culto ao livro e à imprensa, pois “educar o soberano” era um dever patriótico, pelo que as escolas primárias criadas na Argentina a partir do início da Independência em 1810 se chamaram Escolas da Pátria, sendo o jovem Sarmiento aluno em uma delas e depois professor e até fundador de muitas delas, inclusive no Chile. Como presidente da Argentina, introduziu o ensino primário obrigatório para todos os jovens, fossem brancos ou não, também para meninas, um avanço notável para a época. Se Sarmiento mostrou algumas vezes preconceitos racistas contra gaúchos, mestiços, negros e indígenas, eles se referiam mais à sua autonomia cultural, que não aceitava; mas todos os grupos da população eram bem-vindos, desde que participassem da construção de uma sociedade civilizada e homogeneizada. Assim, a escola primária devia ser o grande viveiro da democracia e da nação.

Faltavam porém livros de todos os tipos, livros didáticos, técnicos, científicos, literários. Como a Espanha era identificada com o atraso, o obscurantismo e a tirania, os modelos tinham que vir de alhures, da Europa e da América do Norte. Em Recuerdos de provincia, suas memórias da juventude, Sarmiento narra a sua própria juventude como romance de formação que se confunde com o da nascente nação, professando uma fé quase religiosa na apropriação da civilização, ou seja, a sua tradução, adaptação, metamorfose para o bem do povo e da República a ser construída.

Para poder ler as principais obras da civilização, era preciso aprender línguas estrangeiras e para os que não as sabiam era precisa traduzi-las. Traziam-se professores e outros especialistas estrangeiros, principalmente professoras primárias dos Estados Unidos, montavam-se bibliotecas, inclusive com livros estrangeiros; viajava-se dentro e fora do país, sobretudo para a Europa e os Estados Unidos, pois viajar era educar-se. A tradução é tema constante em Recuerdos de provincia. Conta o autor que aprendeu francês e inglês traduzindo livros, por exemplo as memórias de Josefina Bonaparte ou os romances de Walter Scott, o que provavelmente significa que os leu no original ou os traduziu apenas mentalmente. A maioria dos próceres da pátria – não os federales naturalmente – foram também tradutores: Belgrano, Moreno, Rivadavia, Alberdi, Alsina, Mitre, e outros, inclusive Sarmiento que traduziu e mandou traduzir numerosos manuais didáticos, técnicos e científicos.

Um grande transculturador

Sarmiento às vezes é considerado um cego imitador e importador de culturas estrangeiras, uma visão que não faz jus às ambivalências e contradições na sua obra. Na verdade, ele foi um importante agente do intercâmbio cultural, um grande transculturador, a começar pelo Facundo. A própria dicotomia “civilização e barbárie” é ambivalente, pois como ideólogo iluminista Sarmiento valoriza e idolatra a civilização, querendo divulgá-la e transferi-la para a América Latina, combatendo e denegrindo as formas de vida e cultura não europeias. Mas como escritor romântico, como leitor de Herder, Rousseau e Victor Hugo, como patriota, Sarmiento se afasta desse racionalismo utilitarista e unidimensional, valorizando o Outro, a natureza selvagem, culturas pré-modernas e caracteres não domados, simpatizando até com aspectos daquilo que chama barbárie. É como se escrevesse dois livros dentro de um só: no primeiro o gaúcho é atrasado, inculto, supersticioso, um ladrão de cavalos e sequestrador de donzelas; no outro ele é original, valente, poético como objeto e sujeito, um músico nato, figura emblemática da nação. Pois o elemento genuinamente nacional pode ser bárbaro, selvagem, irracional mas é o que a nação tem, aquele Outro que é também o Próprio da Nação, sendo indispensável para afirmar a sua especificidade, aquilo que diferencia a Argentina da Europa. A civilização, transnacional, e a barbárie, nacional e sul-americana, não apenas se combatem, mas também se complementam e se condicionam. Sempre é bom lembrar que no título de sua obra-prima aparece a conjunção “y” (e não “o”): Civilización y barbárie, ou seja que não se trata de substituir uma das tendências históricas pela outra, mas de conjugá-las, por mais difícil que seja.

Se, em nível dos bens materiais, a América do Sul ainda não dispunha de produtos sofisticados para exportar, em nível das ideias e das artes, sim, ela tinha algo a oferecer e explicar aos europeus e, eventualmente, aos norte-americanos, em termos de valorização do Outro, do não europeu, do mestiço, do selvagem, inclusive do letrado e artista sul-americano. Assim, já na introdução, Sarmiento põe em questão o monopólio interpretativo dos autores estrangeiros sobre as Américas, dos Tocqueville e dos Guizot ou Thiers, por mais respeitados que fossem, defendendo ao contrário que quem conhece melhor a América do Sul são os próprios sul-americanos, e que o movimento de bens simbólicos devia ser recíproco. A Argentina tinha que exportar não apenas couro e carne, mas também cultura, como já aconteceu no caso do poema lírico-épico La Cautiva, de Esteban Echeverría, citado por Sarmiento com visível orgulho, e no caso do próprio Facundo que não hesita em comparar com a Ilíada, de Homero, e com Waverley, de Walter Scott.

Pois a selvageria, a barbárie é uma das condições da poeticidade do pampa, do sublime, do incomensurável, da dimensão metafísica que engendra quase que necessariamente a arte, cabendo ao autor letrado registrar e traduzir essa poesia da paisagem e dos seus moradores para os leitores urbanos do litoral e da Europa:

La soledad, el peligro, el salvaje, la muerte! He aquí ya la poesía [...]. De aquí resulta que el pueblo argentino es poeta por carácter, por naturaleza.
Berthold Zilly (1945)
é professor da Universidade Livre de Berlim e da Universidade de Bremen, especializado em português, literaturas latino-americanas e tradução. Autor de diversas publicações sobre literatura brasileira, portuguesa e argentina; realizou ademais traduções de clássicos latino-americanos para o alemão, como Os Sertões, de Euclides da Cunha (trad. de 1994), e Facundo. Civilización y barbarie, de Domingo F. Sarmiento (trad. de 2007)

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Maio 2010
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Especial: A outra Língua

Este especial de literatura para a revista Humboldt passa a palavra a escritores alemães e latino-americanos, sobretudo brasileiros, que – ao longo de sua obra ou em livros recentes – têm revelado um interesse especial em renovar sua dicção e estranhar a própria língua por meio da incorporação de outros idiomas ou da permeabilização radical do texto a referências intertextuais e mídias extra-literárias