A arte da Independência... e algumas reflexões sobre o heroico

A ignomínia de Napoleão

Pintura mural que mostra o herói nacional e líder revolucionário haitiano François-Dominique Toussaint L’Ouverture (1743–1803) © Jean-Marc Bernard / Realis Agence / Corbis É no passado que se encontram as raízes da miséria: o Haiti ainda hoje paga o preço pela sua libertação 200 anos atrás. Nem naquela época os donos do mundo levavam a sério o país na pequena ilha.


Em janeiro deste ano, o arquiteto britânico Cameron Sinclair, fundador da organização Architecture for Humanity, enviou um e-mail atônito e desesperado aos amigos e apoiadores. “São os prédios, não os terremotos, que matam as pessoas”, escreveu ele na linha “assunto”.

Com isso, expressou algo que o geólogo e escritor Simon Winchester ou o urbanista Mike Davis não se cansam de repetir: não existem catástrofes naturais. Existem, sim, poderosos eventos naturais com consequências letais.

A consequência dessa conclusão é a questão da culpa. Ela é simples de responder. Quase sempre, são a cobiça e a corrupção que desencadeiam uma catástrofe. No Haiti, porém, as raízes da tragédia são mais fundas na história do país.

Esta, segundo a contagem europeia, começou no ano de 1492, quando Cristóvão Colombo aportou na ilha chamada de Aytí pelos habitantes nativos. Colombo rebatizou a ilha com o nome de Hispaniola e, com os escombros da nau encalhada Santa Maria, fundou a primeira colônia espanhola no Novo Mundo. No final do século XVII, colonizadores franceses ocuparam o lado ocidental da ilha, declarado colônia francesa pela França em 1691 com o nome de Saint Domingue.

Ideais da Revolução Francesa

Durante quase um século as duas potências coloniais dominaram a ilha dividida. “Saint Domingue era a colônia europeia mais rica nas Américas”, escreveu o historiador Hans Schmidt. Em 1789, quase metade do açúcar produzido mundialmente provinha da colônia francesa, que também liderava o mercado mundial na produção de café, algodão e índigo.

Logo os 450 mil escravos que trabalhavam nas plantações foram apresentados ao novo espírito de seus senhores. A Revolução Francesa levou os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade para o Caribe. Em agosto de 1791, havia chegado a hora. Durante uma missa, o sacerdote de vodu Dutty Boukman conclamou os fiéis para a revolta.

Um dos principais líderes da rebelião foi o ex-escravo François-Dominique Toussaint L’Ouverture, hoje em dia nome do aeroporto da capital, Porto Príncipe. Em 1801, Toussaint deu ao país sua primeira Constituição que, ao mesmo tempo, era uma declaração de independência.

Para Napoleão, o Haiti seguiu sendo uma ignomínia

Em resposta, Napoleão Bonaparte enviou navios de guerra e soldados para a ilha. Toussaint foi preso e levado para a França, morrendo no cárcere. Mas quando Napoleão quis reintroduzir a escravidão no ano seguinte, houve uma nova rebelião.

Desesperadas, as tropas francesas pediram reforço no verão de 1803. Mas entrementes Napoleão já perdera seu interesse pelo Novo Mundo. Em abril, vendera a sua colônia Louisiana para os Estados Unidos, região que hoje representa quase uma quarta parte da área total dos EUA.

Para Napoleão, o Haiti continuaria sendo uma ignomínia. Em 1º de janeiro de 1804, o líder rebelde Jean-Jacques Dessalines declarou que a ex-colônia passaria a se chamar Haiti e seria uma República livre. Este primeiro – e até a abolição da escravatura, único bem-sucedido – ato de rebelião dos escravos no Novo Mundo foi um choque para as potências da Era Colonial, que tinham baseado sua riqueza na escravidão.

Uma barganha que determina a história do Haiti até hoje

A liberdade custou caro. Uma grande parte das plantações estava destruída, uma terça parte da população do Haiti fora vitimada pelas lutas. Acima de tudo, no entanto, nenhuma das potências coloniais quis reconhecer a nova República. Ao contrário, a maioria dos países apoiou o embargo contra a ilha e a reivindicação dos donos de escravos franceses por indenizações.

Esperando receber acesso aos mercados mundiais enquanto nação livre, a nova elite do poder haitiano aceitou uma barganha que determina até hoje a história do país.

Mais de duas décadas depois da vitória dos rebeldes, o rei da frança Carlos X enviou navios de guerra para o Haiti. Um emissário colocou o governo diante de um ultimato: ou bem o Haiti pagaria 150 milhões de francos para ser reconhecido como Estado, ou as tropas invadiriam o Haiti, voltando a escravizar a população. O Haiti se endividou e pagou.

Até 1947, as dívidas engessaram a economia haitiana, formando os alicerces para a pobreza e a corrupção. Em 2004, o então presidente haitiano Jean-Bertrand Aristide mandou calcular o preço, para o Haiti, do pagamento dessas “reparações“. Seus advogados pediram que o governo francês devolvesse cerca de 22 bilhões de dólares americanos. Sem sucesso.

Mas não foram apenas as potências coloniais que excluíram esta primeira nação de negros livres. Simón Bolívar, aplaudido herói das lutas de independência latino- americanas, recusou-se, enquanto presidente da Grã-Colômbia, a estabelecer relações diplomáticas com seus antigos aliados, alegando que o Haiti estaria germinando conflitos raciais.

Os EUA negaram o reconhecimento ao Haiti até 1862, quando Abraham Lincoln acreditou que o país poderia servir para abrigar escravos libertados. A postura racista da comunidade mundial continuou. Quando o presidente Woodrow Wilson preparou a invasão que duraria de 1915 a 1934, seu ministro das Relações Exteriores, William Jennings Bryan, observou: “Vejam só, pretos que falam francês”.

A história mais recente do Haiti foi uma sequência de tentativas fracassadas de desenvolver o país e conduzi-lo para uma independência efetiva. Os vizinhos EUA só apoiavam quem defendesse seus interesses. Por exemplo, a ditadura dos Duvalier, ainda que estes endividassem ainda mais profundamente o Haiti.

Lavoura e deslizamentos

Nem mesmo Jean-Bertrand Aristide, primeiro presidente eleito pela via democrática e reconduzido ao poder depois de um golpe de Estado com ajuda das tropas americanas, conseguiu pôr seu pais num rumo democrático e economicamente promissor.

A pior herança da história, no entanto, não pesou sobre a população, e sim sobre o país. Quando Cristóvão Colombo chegou à ilha em 1492, ele admirou suas matas densas e majestosas. Hoje, apenas se conservam 2% da cobertura vegetal original no Haiti.

A lavoura extensiva dos senhores coloniais dizimara as matas. Depois, a pobreza obrigou as pessoas a desmatar para extrair lenha. Isso levou a graves deslizamentos. A cada chuva, a terra e a lama assoreiam os rios e os córregos, impedindo que o nível dos aquíferos volte a subir.

Duas maneiras de lidar com a crise

A falta d’água não provocou apenas doença e morte. Também obrigou muitos habitantes dos bairros pobres a misturar cimento e concreto com água salobra, o que teve consequências fatais. Por escassez de madeira na ilha, as pessoas tiveram que construir com concreto e telhas de concreto. E isso em solo poroso.

Já agora existem duas maneiras de lidar com a crise depois do terremoto no Haiti. Otimistas como o arquiteto Cameron Sinclair ou a jornalista Amy Wilentz enxergam na catástrofe um raio de esperança para que o Haiti se livre de parte de seu fardo histórico e recomece com ajuda do resto do mundo.

Pessimistas como Reihan Salam, do conservador think tank New America Foundation, creem que não haja mais salvação para o Haiti e que somente um êxodo controlado possa ajudar seus habitantes. Já o economista Tunku Varadarajan, da Universidade de Nova York, acredita que o melhor recomeço seria a França finalmente devolver os 22 bilhões de dólares.


Artigo publicado no journal do Süddeutsche Zeitung do 19 de janeiro de 2010
Andrian Kreye
(1962, Munique)
é jornalista e escritor. De 2000 a 2006, foi correspondente do Süddeutsche Zeitung em Nova York e, desde 2006, é codiretor da editoria de cultura desse diário. Suas pesquisas levaram-no à América do Norte e América do Sul, à África e Ásia. Em 2007 foi distinguido com o Goldener Prometheus por suas reportagens nova-iorquinas.

Tradução do alemão: Kristina Michahelles
Copyright: Süddeutsche Zeitung, www.diz-muenchen.de
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