A arte da Independência... e algumas reflexões sobre o heroico

Filmados e não filmados

Na comédia “Bandidas” (2006), as mulheres é que são as (anti-)heroínas: Salma Hayek e Penélope Cruz (na foto). DVD editado por Universum Film © Universum Film Neste ano de celebrações, estreiam no México vários longas que recriam heróis nacionais. A escritora, que debuta agora como roteirista, visita alguns dos heróis e algumas das heroínas ausentes e presentes na época de ouro do cinema mexicano.

O cinema

Nós, mexicanos de duas gerações, fomos parcialmente engendrados para essa identidade nos telões do cinema. Somos filhos de deuses diferentes, uns mais lendários que outros. Um destes deuses lutou na Revolução Mexicana, afiliou-se a Adolfo de la Huerta, depôs o presidente Carranza e foi presidente provisório em 1920; quando aquele caiu, viveu o exílio em Los Angeles, onde foi lavador de pratos, trabalhou como extra e asseverava ter posado nu para o escultor da estátua do Oscar, ensinou Rodolfo Valentino a dançar, regressou quando o presidente Cárdenas concedeu anistia aos partidários de De la Huerta, foi protagonista num filme (Janitzio, de 1934, de Carlos Navarro, encarnando o herói, um pescador do lago de Pátzcuaro, em Michoacán, que enfrenta os especuladores de terra e é vítima de um maldito que deseja a sua namorada, de beleza mexicana típica) e dirigiu alguns dos filmes do cinema mexicano (o primeiro foi produzido para ele por um general revolucionário) que nos converteram num objeto de exportação e deram à nossa identidade mexicana uma particular beleza lírica, apoiada no monumental trabalho do fotógrafo Gabriel Figueroa: o México de charros e Adelitas, de paisagens agrestes e céus sem paralelo no mundo. Para tornar mais chamativo seu retrato, é necessário acrescentar suas tórridas histórias amorosas, entre outras, com uma das grandes divas do cinema mexicano, Dolores del Río. Este diretor, Emilio Fernández, o Índio Fernández (1904–1988), atingiu o Olimpo alimentando mitos, incluindo o próprio, com grande capacidade persuasiva.

Com ele, outros realizadores do cinema mexicano, como Fernando de Fuentes (1894–1958), que olharia com olho crítico a Revolução Mexicana, acompanhado de Matilde Landeta (1913–1999), sua parelha de trabalho – embora num trabalho inferior, mas que seria também diretora de cinema –, com fitas como Vámonos con Pancho Villa e El Compadre Mendoza (1933), que retratariam o desencanto pela Revolução Mexicana, elevando também ao nível do mito a nossa imagem.

Estes deuses não faziam um cinema provinciano – embora muitos dos seus filmes fossem rurais. Aceitavam a influência de “mestres alemães” – de diretores do expressionismo alemão – e não alemães, como Eisenstein, e em alguns casos tinham se afogueado em Hollywood. Recebiam elogios do mundo inteiro. Breton qualificou Dos monjes, de Bustillo de Oro, de “experimento audaz e insólito”, e os filmes ganhavam prêmios internacionais.

Criavam no telão uma Revolução que, embora não fosse perfeita, acabava sendo idílica, e com ela a ideia de um México belo e característico, habitável e cheio de encantos, onde os papéis sexuais e as fronteiras de classe ficavam bem delineados. Quanto à caracterização das mulheres, abundavam as prostitutas: o primeiro filme não mudo foi Santa (1932, dirigido por Antonio Moreno) e depois dele vieram muitos com o mesmo tema: La mujer del puerto (1934, de Arcady Boytler), ou o célebre Aventurera, com Ninón Sevilla (1950, de Alberto Gout), mulheres puras apesar dos pesares. Segundo o cinema mexicano, na Revolução Mexicana abundaram as Adelitas, mas não existiram nem as escritoras nem as ideólogas da Revolução, nem as mulheres que assumiram o comando de algum exército de sublevados – como ocorreu na realidade. Uma exceção seria La negra Angustias (1949), da já mencionada Matilde Landeta, pois sua protagonista é a filha de um bandido tipo Robin Hood, enrolada na tropa zapatista, e depois coronela.

As Adelitas podiam acompanhar seus homens na batalha, mas não ser as motoras desta, não as líderes, não as generalas, não as pensadoras ou escritoras.

A que não entrou no cinema

O cinema mexicano deixou sem filmar o roteiro de José Revueltas, Zapata, publicado em 1981 pela Editorial ERA sob o título Tierra y Libertad, que retrata Zapata apaixonado pela sua Dolores Jiménez y Muro. Essa heroína da Revolução Mexicana é a mulher cujo rosto assoma entre Zapata e Villa na célebre fotografia que deles foi feita na Cadeira Presidencial.

Falando dela (no roteiro de Revueltas), Zapata a chama de “heroína” e diz que “dá para ver que esta senhorita é muito mulher”. Se fosse verdade que Zapata se apaixonou por ela e que lhe confessou seu amor, como escreve José Revueltas (eu não acredito nisso), e que Dolores lhe fez saber a sua reciprocidade, seria necessário conceder outro gol a Emiliano, porque ele não se envergonhou de render seu coração ante uma mulher com muitas calças, que já não fervia com o primeiro fervor, uma sexagenária 31 anos mais velha que ele (Dolores Jiménez y Muro nasceu em 1848, Zapata em 1879) e que tinha sido sua guia intelectual: Zapata adotou seus escritos como ideário. Não é qualquer um que se atreve! É necessário ser muito macho para romper tantas convenções com uma penada!

Os fatos: Dolores Jiménez y Muro foi poeta e jornalista, cabeça e pena do Plano de Tacubaya, redatora do prólogo do Plano de Ayala – peças-chave no nascimento da Revolução Mexicana, embora nunca apareça o crédito de Dolores ligado a eles –, apoiou Francisco Madero e se rebelou contra ele (em suas próprias palavras: “contra Madero, porque ele faltou a suas promessas e apostatou suas próprias doutrinas”), uniu-se ao exército zapatista, onde atingiu alta patente, e foi cúmplice ideóloga do primeiro Vasconcelos. Revueltas põe em boca de Zapata: “Que prazer me dá ver que uma mulher será lutadora revolucionária! Assim deveriam ser todas e não viver resignadas a ser escravas do pilão”.

Depois que Dolores morreu, morta ficou, esquecida pelos círculos literários, apagada da memória pública e sem entrar no telão, apesar do texto do célebre Revueltas, que sim viu filmados, por exemplo, La otra (1946), El apando (1976), La escondida (1956), entre outras contribuições suas como escritor à cinematografia mexicana.

Os filmados

Para evitar mal-entendidos: também há heroínas no cinema mexicano. Deixando de lado o fato de que várias das prostitutas cinematográficas também o são, somente mencionarei dois filmes: Distinto amanecer (1943) de Julio Bracho – assassinato de líder sindical, operários, cabareteiros, arquétipos da realidade urbana –, com Andrea Palma, onde a protagonista se opõe à vontade de sua família pelas boas causas, e a sensacional Rosaura, aliás María Félix, de Rio escondido (1947), de Emilio, o Índio Fernández, a professora rural que se opõe aos desígnios malévolos de um nefasto cacique.

E há também, evidentemente, as devoradoras de homens: a que fica com o cetro é a inesquecível Doña Bárbara, de María Félix, de 1943, dirigida por Fernando de Fuentes.

Não obstante, não creio exagerar ao dizer que os galãs ficam com a parte mais suculenta, e não só nos papéis heroicos. Na época de ouro do cinema mexicano existiram dois galãs célebres, dois astros máximos: Jorge Negrete (1911–1953) – que no momento de sua morte estava casado com María Félix – e Pedro Infante (1917–1957) – que tinha sido bígamo até poucos dias antes de sua morte num acidente aéreo (sua paixão era pilotar aviões), pois seu segundo “matrimônio”, com a também atriz Irma Dorantes, foi anulado. Os dois morreram jovens, como heróis românticos. Nada como seus personagens para examinar a ideia daquilo que hipoteticamente é um macho mexicano, adereçado com tequila, cavalo e sombreiro, quando não com um halo de vigor varonil um tanto heroico, como no personagem de Pepe, o Touro.

Mas aqui o que deles me interessa é sua voz. Tinham ambos vozes inesquecíveis, vozes formadas – Jorge Negrete tinha treinamento de cantor de ópera. E não eram, entre os galãs, os únicos grandes cantores. Só uma mulher, Sofía Álvarez (1913–1985), tinha uma voz como a deles, e foi sua contraparte em repetidas ocasiões. Apesar de ter trabalhado em importantes filmes (de Ahí está el detalle, com Cantinflas, em 1940, dirigida por Bustillo de Oro, a Soy charro de rancho grande, com Pedro Infante, em 1947, dirigido por Joaquín Pardavé), Sofía Álvarez foi bem menos famosa que os galãs. Por que, para uma mulher alcançar a fama, era mais importante mexer as cadeiras do que modular bem a voz?

Dos anos 70 até hoje

Comecei falando de minha geração e da ideia de “o mexicano” que se alimentava através dos filmes. O certo é que a gente gostava mais, entre os filmes nacionais, de Mecánica Nacional, o filme de Luis Alcoriza que caçoa de todos os protótipos mexicanos (1971). Havia, é claro, a questão do gênero, mas principalmente, embora não coubesse dúvida de que vivíamos no México e de que éramos mexicanos, sonhávamos ao ritmo dos Rolling Stones, “Let’s spend the night together”. Minha geração usou minissaias, não as longas floreadas das Adelitas do cinema, tomou a pílula anticoncepcional, leu a revista MS – e/ou também a FEM, a mexicana – e não quis ser mexicana, mas “do mundo”. Janis Joplin ocupava o lugar de Sofía Álvarez e tinha consideravelmente mais força de protagonista.

Escrevo estas linhas num impasse. Logo haverá as estreias de vários longas celebrando o centenário da Revolução Mexicana e o bicentenário da Independência. Alguns deles recriam mitos e heróis nacionais. Sob o fragor da guerra contra o narcotráfico, desfeita inteiramente a cortina de nopais que imaginariamente nos protegia e adornava – ou, segundo José Luis Cuevas, nos asfixiava – haverá as estreias de Hidalgo-Molière (dirigido por Antonio Serrano), sobre a relação do padre Hidalgo, o herói da Independência mexicana, com o autor francês; El infierno (dirigido por Luis Estrada), mais no jeito de Mecánica Nacional, caricatura crítica dos patrões; El atentado (dirigido por Jorge Fons), baseado no romance Expediente del atentado, de Álvaro Uribe, que glosa um atentado contra Porfírio Díaz, ocorrido sem motivação política; Revolución, uma recopilação de curtas sobre a herança da Revolução Mexicana no presente, dirigidos pelas estrelas do cinema mexicano Diego Luna e Gael García Bernal e por outros oito diretores jovens, entre eles duas mulheres, Patricia Riggen e Mariana Chenillo.

E eu sou autora do roteiro de Las paredes hablan (aludindo ao título da obra de teatro de Juan Ruiz de Alarcón, Las paredes oyen), que foi dirigido por Antonio Zavala, onde uma casa lembra 1810, 1910 e enfrenta as tensões de 2010. Personagens que assumem traços e ideários de Hidalgo, as filhas de Cuauhtémoc – que alentaram a luta revolucionária faz cem anos – e uma das várias jornalistas heroicas contemporâneas aparecem combinadas com personagens de ficção. Me interessam a lenda e o mito, ou a maneira em que se reelabora a história.

Temos necessidade de heróis ou heroínas? Da sua memória, sem dúvida. As coisas estão tão mal no México que pode ser que faça falta reinventar a realidade, e nada como a memória para nos ajudar nessa empreitada.
Carmen Boullosa
(1954, México, D.F.)
é romancista, poetisa, dramaturga e diretora de cena. Seus romances foram traduzidos para vários idiomas. Foi bolsista da Fundação Guggenheim, do Centro Mexicano de Escritores e do Programa para Artistas do DAAD, Berlim. Recebeu o prêmio LiBeraturpreis de Frankfurt. Deu cursos em várias universidades dos EUA e da Europa. Vive em Nova York e no México.

Tradução do espanhol: George Bernard Sperber
Copyright: Goethe-Institut e. V., Humboldt Redaktion
Setembro 2010
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