A arte da Independência... e algumas reflexões sobre o heroico

Num torvelinho de sangue e de morte

Marcos López, Alberto Korda com o negativo de Che, 1996 © Marcos López O biógrafo de Che Guevara Gerd Koenen faz sua demolição sem recorrer à implosão.

Pensou-se em seis “ícones” para representar a cultura argentina em Frankfurt. Assim tinha determinado a presidente daquele país, que foi escolhido no segundo centenário de sua fundação como convidado de honra para a Feira do Livro deste ano. Infelizmente apenas dois desses “ícones” são escritores: Jorge Luis Borges e Julio Cortázar. Inicialmente, a peronista de esquerda Cristina Kirchner achava que seriam suficientes quatro colossos da cultura: Diego Armando Maradona, Evita Perón, Carlos Gardel e – o ícone de todos os ícones – Ernesto Che Guevara. Os dois escritores só foram acrescentados à iconografia oficial apos inúmeros protestos do mundo cultural argentino.

Um mártir fotogênico

Das quatro figuras mencionadas, somente Ernesto Guevara de la Serna tinha algo assim como uma estatura apropriada para se apresentar numa feira de livros, na medida em que, entre todos os atores políticos do século passado, ele foi aquele que encontrou entre os poetas e pensadores do Ocidente o maior número de entusiasmados adeptos. Foi chamado de “personagem dostoievskiano” antes mesmo de morrer. Mas Che Guevara foi mais do que isso. Foi uma figura lendária, que se inventou e criou a si mesma.

O poderio das imagens deve comprová-lo novamente em Frankfurt: ele não é apenas o messias tremeluzente da indústria do pôster, mas foi personagem central de todo um show de personalidade que o Che encenou desde a sua juventude, posudo como ele só. O estudante pensativo e enfastiado, com o corpo estendido num terraço e as mãos atrás da nuca. O ginasiano audaz, equilibrando-se num cano por cima de um abismo. O estudante de Medicina na aula de Anatomia, com um sorriso sem-vergonha nos lábios diante de um cadáver despido. Che jogando rugby, escalando montanhas, andando de motocicleta, voando de planador, fumando charuto ou sorvendo chimarrão. Mesmo quando esteve em missão secreta no Congo não se esqueceu dos fotógrafos. E quando isso era impossível – no hotel boliviano onde ele se disfarçou de “Adolfo Mena” com metade de uma careca e um par de óculos no nariz –, ele mesmo tirou fotos de si diante do espelho. Nenhum episódio desta epopeia heroica deveria ficar isenta de ilustrações. O que o Che mais gostava era ser fotografado com o torso nu, até mesmo para a Playboy. Diferentemente do Líder Máximo, suas cadeiras nunca ficaram deformadas com anéis de gordura.

“Um mártir precisa ser fotogênico”, anotou em seu exílio londrino o cubano Guillermo Cabrera Infante (Três tristes tigres), que conheceu Fidel e Che bem de perto. Como redator-chefe do suplemento literário Lunes de Revolución, que deixou de ser publicado em 1961 por falta de fidelidade à linha partidária, Cabrera Infante estava bem familiarizado com a iconografia do regime. Ele sabia como começou a circular a fotografia do Che na qual o católico Carl Amery achou reconhecer, “sob o boné preto, o rosto pálido do Nazareno”. Giangiàcomo Feltrinelli, o mais bem-sucedido dos editores europeus, havia pescado essa imagem altiva do Che no meio de um monte de fotografias feitas pelo fotógrafo de moda Alberto Korda. Com o seu talento para o design, os italianos enobreceram o rosto e o transformaram num objeto de devoção, que se espraiou triunfalmente pelo mundo em 1968. Mas, ao que tudo indica, Feltrinelli apaixonou-se pela sua própria criação. E quis fazer penitência antifascista pela adoração que tivera quando jovem por Mussolini – o Duce, que viveu o seu ocaso político na Villa Feltrinelli, na margem do Lago de Garda. Que outra explicação haveria para o fato de este homem, herdeiro de imensos bosques na Caríntia e de infindos rebanhos de gado no Brasil, se empenhar pela revolução mundial em meio ao fausto italiano?

Seria até possível dizer que Feltrinelli morreu de uma overdose de Che Guevara. “Em todo canto da Itália dormita um pequeno Vietnã”, ele delirava inspirado no ditado de Che, “criar dois, três, muitos Vietnãs” com seu torvelinho de sangue e de morte, para fazer o império dos EUA cair de joelhos. Foi um cachorrinho que encontrou o cadáver esfacelado de Feltrinelli no dia 14 de março de 1972, perto de Milão, ao pé de uma torre de alta-tensão, que o grande editor e parcimonioso patrocinador de terroristas quis explodir ele mesmo.

Encontros com a loucura

Durante a leitura da apaixonante obra de Gerd Koenen Traumpfade der Weltrevolution – Das Guevara-Projekt (Kiepenheuer & Witsch, Colônia, 2008) (As veredas sonhadas da revolução mundial: o projeto Guevara), são inevitáveis os encontros com esse tipo de loucura, embora o autor tenha se concentrado mais em novas descobertas, conexões ocultas e clareza analítica do que na desmistificação da revolução latino-americana ou no esclarecimento da comunidade internacional de adeptos do Che (se é que isso seria possível). A propensão dos intelectuais por super-homens violentos, surpreendente tão pouco tempo depois do fim de Hitler, torna-se evidente tomando como exemplos Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Com seu ensaio “A longa marcha”, ela tinha dado início, em 1957, ao culto europeu de Mao, e quando três anos depois o casal visitou Cuba, o filósofo do existencialismo chamou Che, em vida, de “homem mais perfeito do seu tempo”. Ou seja, um homem que irrompe da selva com um fuzil na mão e se converte em presidente do Banco Nacional de Cuba.

Che Guevara tornou-se mais sedutor ainda depois de morto. Koenen mostra de forma impressionante como os militares bolivianos transformaram sua presa involuntariamente numa figura semelhante ao Cristo, depois de tê-lo fuzilado em 1967. O torso do Che foi despido (bem ao seu gosto), seus cabelos e barba foram levemente tosados, os olhos ficaram abertos; um sorriso leve e indulgente envolvia os lábios do cadáver. Os fotógrafos puderam retratá-lo até o fastio, e estas imagens se transformaram realmente em “ícones”. E os intelectuais ficaram devidamente consternados. “Estou sentado em meu escritório, rodeado de livros, na falsa paz e no falso bem-estar da Europa. Deixo passar certo tempo para poder escrever, sem correr riscos, sobre esse homem que arriscou tudo.” Tão cônscio de culpa como Italo Calvino, o uruguaio Mario Benedetti julgou-se a si mesmo: “Dá vergonha olhar para quadros, poltronas, tapetes...”. O dramaturgo Peter Weiss, por sua vez, bateu com o chicote dos flagelantes nas próprias costas: “Somos nós corresponsáveis por essa morte? Somos nós os traidores?”. E ele, um escritor alemão, perguntava: “Será que nós nos furtamos a assumir uma posição?”.

Claro que era irritante o fato de que quem assumia posição não eram camponeses escravizados empunhando metralhadoras, mas escritores empunhando máquinas de escrever. A revolução que deveria ter inflamado o vasto Terceiro Mundo foi um tiro em falso. Os índios bolivianos, que Che Guevara queria conduzir à revolução através de seu sacrifício, continuaram sendo, em suas próprias palavras, “embotados como pedras”. Mas pelo menos este último ato tinha transcorrido de forma menos inglória que o penúltimo, a intervenção militar do Che no Congo. Lá, em 1965, o Che, juntamente com 130 experimentados combatentes cubanos, todos os quais (exceto ele) tinham que ter pele negra, quis decidir a guerra civil em favor das “forças revolucionárias” de Laurent Kabila. Koenen se esforça em descrever com objetividade essa grotesca empreitada, que mais parecia uma comédia de pastelão, embora muitos dos seus pormenores até mesmo exijam um tratamento satírico. No final desse episódio, Guevara teve que ser evacuado com suave violência.

Onze anos antes de ter que olhar para a boca do fuzil do seu inebriado carrasco na Bolívia, Che Guevara havia debutado como carrasco em Cuba, matando um homem indefeso. Ele se chamava Eutimio Guerra, um companheiro de luta que tinha se tornado traidor. “Atirei com uma pistola calibre 32 na metade direita do cérebro, com orifício de saída no osso temporal direito.” A objetividade clínica desta anotação em seu diário deixa pressupor a frieza dos sentimentos com os quais logo mais o Che iria confirmar e mesmo executar centenas de condenações à morte. A pseudoautoridade do combatente armado, que da sua disposição para morrer deduz seu direito de matar, tinha sido comprovada na Sierra Maestra contra camponeses renitentes e legitimou, após a entrada triunfal dos “barbudos” em Havana, a sangrenta justiça revolucionária.

Fonte de inspiração emocional

Koenen presume que não foi por acaso que Fidel investiu o outsider Guevara no papel de comissário especial para a limpeza política. Mas esse resseguro era desnecessário. Uma mídia dócil popularizou a prática das execuções. Castro queria “envolver todo o povo nessa vingança sangrenta” (Koenen). O slogan “ao paredão!” era vociferado nas ruas com alegria carnavalesca, também por muitas pessoas que tinham se sentido muito à vontade sob o regime de Batista. Processos espetaculares eram levados a cabo num estádio, na presença de 17 mil torcedores. Pelos dados oficiais, depois do triunfo da revolução, 550 pessoas foram condenadas à morte e executadas no forte de La Cabaña, sob a supervisão do Che. No leste da ilha, o irmão mais novo de Fidel e seu atual sucessor, Raúl Castro, preferiu o modelo do processo sumário: ordenou que 70 adeptos do regime de Batista fossem executados com rajadas de metralhadora e enterrados com escavadoras. Hoje, é deste velho carrasco que simpatizantes do mundo ocidental esperam uma reforma do “modelo cubano”.

Entre as duas dezenas de biógrafos do Che, a obra de Koenen sobressai por ser a mais ambiciosa, também pela prosa. Para derrubar mitos, ele não precisa fazer uso da implosão. De passagem, o leitor fica sabendo que o fuzilamento do Che não obedeceu a ordens de Washington. Os americanos teriam preferido que o “revolucionário global” fosse levado de avião para a Zona do Canal de Panamá, para lá ser posto diante de um tribunal. Se um livro semelhante tivesse sido publicado em 1968, teria faltado ao terrorismo internacional – desde os Tupamaros no Uruguai até os Montoneros na Argentina, passando pelas Brigadas Vermelhas na Itália e pelo bando Baader-Meinhof na Alemanha – talvez uma essencial fonte de inspiração emocional.


Artigo publicado no journal do Süddeutsche Zeitung do 10 de novembro de 2008
Carlos Widmann
(1938, Buenos Aires)
é um jornalista alemão. Desde 1965, viajou incansavelmente como correspondente no estrangeiro. Por sua reportagem “Kleine, böse Welt” sobre o clã Duvalier, para o jornal Süddeutsche Zeitung, recebeu o prêmio Egon-Erwin-Kisch-Preis em 1986.

Tradução do alemão: George Bernard Sperber
Copyright: Süddeutsche Zeitung, www.diz-muenchen.de
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