A arte da Independência... e algumas reflexões sobre o heroico

O afeto anti-heroico

Miguel Ángel Rojas (Colômbia) “David nº 1”, 2005, 199,5 x 100 cm, Daros Latinamerica Collection, Zurique © Miguel Ángel Rojas O mundo moderno, burguês, democrático não se contenta com a desconstrução do heroico, quer desmascará-lo, destruí-lo, ridicularizá-lo.

Ter um herói é privilégio da juventude. Hoje em dia seria extremamente difícil encontrar um jovem que se identifique com Aquiles – e bastante mais fácil encontrar um que se identifique com Brad Pitt. Mesmo neste nível de trivialidade, admiração, entusiasmo e veneração de um herói continuam a constituir o meio dentro do qual se desenvolvem os caracteres. E a gente é jovem justamente enquanto temos heróis que veneramos. Quem não tem um herói também não tem ambição; vive uma vida que não vale a pena ser vivida. Na medida em que a existência escolhe o seu herói, ela repete uma possibilidade existente de modo factual no passado. O meu herói age como força da possibilidade em minha existência. E justamente pelo fato de eu me submeter à autoridade dessa possibilidade de existência heroica, eu sou fiel a todo o meu eu.

Mas isso tem hoje algo de longínquo e de démodé. O nosso autoentendimento esclarecido reage de forma sensível ao primeiro sinal de tenacidade. Pois o cidadão da sociedade moderna é aquele que não cai de joelhos diante de ninguém. Mas quando se trata da autoridade do herói que foi escolhido pela existência, sente-se imediatamente a pretensão do senhor. O herói é a ideia decisiva em forma de pessoa. Por isso também seria possível dizer que ele encarna a soberania. E isso produz uma sensação ambivalente, característica para a nossa relação com o herói. Porque o herói também é sempre o comandante, é quem nos diz o que deve ser feito em cada circunstância. Nessa medida, a veneração pelo herói também implica nostalgia pelo comando, a esperança de encontrar um bom líder para este mundo. Todo líder é um instituidor de sentidos. E para tanto não é necessário nenhum programa; basta o grande gesto.

Embora nós não tenhamos mais heróis, temos ainda uma necessidade inarticulada de veneração. Isso é, ao que tudo indica, uma consequência da moderna democracia de massas, pois o seu igualitarismo não permite a excelência do herói. Mas é sabido que aquilo que é recalcado sempre retorna, porém numa figuração deformada, feia ou, pelo menos, constrangedora – a saber, no culto aos astros e nos seus fãs. Ao lado deles, hoje em dia só são aceitos heróis anônimos. E a mídia politicamente correta há muito tempo não mais mitifica os heróis, mas as vítimas.

O igualitarismo da democracia de massas não pode tolerar o herói, justamente por ele não ser um ser humano como eu e você. O problema da igualdade, enquanto todos anseiam pela distinção, foi resolvido pelos gregos de um modo totalmente diferente. No mercado, na ágora, os iguais se defrontavam em torneios, para se diferenciar e se galardoar. O espírito agonal quer se diferenciar dos outros, quer mostrar que é o melhor, quer se elevar por cima dos outros através de feitos ímpares.

Heróis, nunca mais!

Os gregos chamavam os melhores de aristoi; eram aqueles que constantemente se punham à prova e iam à procura de feitos imorredouros. Fama inextinguível – é também disso que se trata quando se fala da ambição de alguns políticos de ficarem inscritos nos livros de História. O igualitarismo não pode tolerar coisa semelhante e perverte o ideal democrático no sentido daquela perversão que nega toda forma de grandeza e despreza o heroísmo. Não mais deve haver grandes homens, grandes feitos, grandes ideias. A inveja é sequiosa de notícias sobre a desgraça dos grandes, porque a sua excelência só pode ser suportada sob esta condição. Os invejosos obtêm apoio científico, hoje em dia, sobretudo por parte dos psicólogos, que sabem como reduzir os grandes feitos dos grandes homens a adições e paixões.
Grandeza é exceção, não é modelo. A orientação pela grandeza, a preocupação pela fama, apresenta-se até mesmo como o contrário da orientação burguesa pelo êxito. E, no herói, o que é ainda mais inquietante é que ele não procura o sentido da vida na felicidade. Isso é algo que, de fato, podemos aprender dos aios dos historiadores: os heróis não são felizes. Mantêm distância do moderno endeusamento do sucesso, da busca da felicidade e da vaidade de uma exemplaridade moral. A sua identidade heroica conhece apenas uma cotação: a da fama.

O herói é aquele que consuma o grande feito sozinho. Com o seu feito heroico ele se destaca da massa, pois frequentemente se trata de triunfar contra um monstro. Mas por trás disso talvez se esconda um feito monstruoso, um malfeito, e a função do troféu poderia ser a de disfarçá-lo em feito heroico. Mas justamente quando ele é um malfeito mascarado nós podemos presumir que ele possui um cerne histórico. Portanto, a suspeita anti-heroica dá indícios de que o feito heroico é um malfeito. Aqui podemos facilitar-nos a vida e julgar de um ponto de vista moral: heróis, nunca mais!

Heroísmo requer coragem

Mas existe ainda uma dialética totalmente diferente do heroico. O herói é o fora da lei que consegue se impor como grande homem. Dito de outra forma: o indivíduo que se torna personagem da história universal é o criminoso justificado. Porque o herói só faz instintivamente aquilo que é necessário e urgente. Portanto não há a menor dúvida de que o herói infringe a lei. Ele que ser culpado do seu feito e ele responde integralmente pelo seu feito. Quando ele faz o mal, não faz uso das circunstâncias para se justificar. O feito heroico não conhece riscos nem efeitos colaterais.

O herói está adstrito ao seu demônio, e isso o distancia de tudo que é psicológico ou sociológico. Dito de outra forma: o herói não tem motivos. Não existe uma psicologia do ato heroico. Um herói antigo como Aquiles existe única e exclusivamente pelos seus feitos. Diferentemente do herói de um romance moderno, ele não tem interioridade. O herói clássico é valente, mas, diferentemente do aventureiro moderno, não é temerário.

O herói sempre enxerga apenas uma coisa; ele não sopesa. E não conhece ironia nem contingência.

Todo feito heroico implode a imanência da vida. E mesmo a mais miserável das existências não pode reprimir o sentimento de que o heroísmo mexe com o mistério da vida, com a excelência da vida. Guerra e aventura são os palcos inconfundíveis da comprovação do padrão heroico de vida. Por mais incompreensível que isso nos possa parecer hoje, a guerra sempre foi, até bem avançado o século XIX, a experiência extrema e mais forte da vida. E no caso da aventura, trata-se, antes de mais anda, de salientar a oposição com o risco. O herói faz parte do perigo, não do risco. Ele interpreta o perigo como aventura.

É indiferente que tenhamos a ver com um herói antigo, um herói de um romance moderno ou com um turista de aventuras. A aventura é justamente aquilo que cai fora da vida, tem um começo e um fim. A aventura é presente puro; passado e futuro não têm nada a ver com ela. Por isso podemos defini-la como a vivência propriamente dita. O herói da aventura encarna o sangue-frio, a serenidade perfeita. A sua livre identidade e independência comprovam-se justamente na própria aventura. Com suas bravatas ele as conquista diante da barbárie, elas se estraçalham definitivamente no embate com a pretensão absoluta de ordem do Estado.

Heroísmo exige coragem para se expor, para se defrontar cara a cara com o perigo. Face it!, dizem os americanos. Herói é aquele a respeito de quem se pode contar uma história, porque ele se expôs. Aqui o ser humano se apresenta não como um animal que tem o dom da fala, mas como animal alfa. Trata-se de autoafirmação, de uma postura segura de si, da alegria pela ação bem-sucedida – dito de forma mais exata: da agressão bem-sucedida. Trata-se de orgulho, coração, dedicação, paixão, mas também de sensações que hoje em dia atribuiríamos aos efeitos de um choque de adrenalina.

Crítica da hombridade

Em resumo, trata-se de energia heroica. Ela é o problema fundamental que os homens apresentam à sociedade moderna. A agressividade cultivada seletivamente, que outrora foi de fundamental importância para a própria sobrevivência, hoje em dia não encontra vias para se desafogar. Por isso William James procurou um equivalente moral para a guerra. Por mais anacrônicas que hoje possam parecer as suas propostas de solução – a pobreza voluntária do ascetismo, a luta contra a natureza –, tanto mais atual se apresenta a questão. Na guerra, o mundo dos homens ainda está em ordem. Durante a paz, eles procuram uma válvula de escape para sua energia heroica. Foi a última vez que um pensador importante colocou a questão de como a hombridade pode se confirmar e se conservar num mundo pacifista. Esta pergunta caiu no esquecimento durante um século.

“Canta-me a cólera – ó deusa – funesta de Aquiles Pelida...” Os poetas, desde Homero até Ernst Jünger, cantaram o louvor da hombridade na guerra. A guerra sempre foi o estado de emergência para a hombridade, a possibilidade para o seu total desenvolvimento. E ainda hoje, em tempos felizes de paz, quase todos os filmes mostram as armas como tótens da hombridade. Ela corre perigo a todo o momento e por isso precisa ser a todo o momento demonstrada. Um homem recusa os subterfúgios do escapismo e do infantilismo. Com tudo o que tem de ridículo, o macho ainda é o representante do espírito da dominação masculina. A hombridade é desde então o tema da autocrítica ressentida da modernidade.

Enquanto hoje em dia ainda consideramos evidente que o criminoso, que infringiu a norma, deve ser castigado; que o tolo, o fracassado, que ficou abaixo da norma, pode ser menosprezado, a admiração pelo herói, que ficou acima da norma, causa-nos grandes dificuldades. A ética qualifica seus feitos como supererrogatórios, o que na essência quer dizer que nós não devemos exigir algo semelhante de nós mesmos. Aquilo que é supererrogatório é louvado, mas não é compulsório. Nesta medida, o feito heroico também se apresenta como comportamento discrepante. Toda discrepância individualiza e garante a atenção – mas também implica risco. O caminho real da individualização é, por isso, o do desempenho sobrepujante, ou seja, o desvio casado com a conformidade. Dessa forma, como cumprimento da norma para além do esperável, a sociedade burguesa consegue medianamente suportar o heroísmo.

O afeto anti-heroico

Contudo, na moderna sociedade da informação não há mais necessidade de heróis, e onde rege a colaboração, não há mais heróis. O burguês substitui o desempenho supererrogatório do herói pela ascese intramundana do sucesso na profissão. A indústria desbanca a ladroagem, e a riqueza ocupa o lugar dos troféus devidos ao sucesso. Assim, passo a passo, os feitos dos heróis foram sendo substituídos pelo desempenho do burguês; o burguês não mais conhece a fama, mas apenas o prestígio.
Aqui não nos é possível acompanhar o longo caminho que levou da fama ao prestígio, mas queremos assinalar que ele passa por um estágio intermediário crítico, o do conceito de honra. Fama é a questão do herói; honra, a do cavaleiro. E do mesmo modo que não nos é possível entender os gregos em seus tempos de grandeza se não soubermos o que significa sina, não nos será possível entender os espanhóis em seus tempos de grandeza se não soubermos o que significa honra. A honra é aquilo que é incondicional, aquilo que é vulnerável em última instância. Mas hoje em dia rimos de El Cid assim como rimos de Dom Quixote, e a condição de cavaleiro logo se viu obrigada a pedir asilo nos tipos sublimados do honnête-homme francês e do gentleman inglês.

Existe um afeto anti-heroico. O mundo moderno, burguês, democrático não se contenta com a desconstrução do heroico. Quer desmascará-lo, destruí-lo, ridicularizá-lo. A destruição dos heróis termina depois, nos cursos de pós-graduação, com a morte do sujeito. A dimensão política deste afeto anti-heroico torna-se hoje em dia especialmente nítida quando intelectuais de esquerda reescrevem a história em nome da humanidade e produzem bodes expiatórios retrospectivos. Os heróis brancos são denunciados.
No princípio era a guerra civil, a barbárie das paixões desenfreadas. Depois, a obra de arte moderna do Estado e o espírito ascético do capitalismo trouxeram ordem ao caos. Mas logo se fez sentir o preço que o velho Adão teve que pagar por este serviço de ordenação: desencantamento, decepção, mal-estar e fastio. A libertação desse “imenso vazio” foi trazida mais tarde pelo protesto, pelo terror e pelo engajamento, pela poesia da guerra. Os últimos heróis morreram na Primeira Guerra Mundial. Stefan George os evocou, Ernst Jünger os protocolou. Eles serviram como modelos heroicos no período entre 1933 e 1945, quando o Dia do Luto Nacional foi transformado em Dia de Rememoração dos Heróis.

Nós não temos mais heróis legítimos, mas ainda temos a necessidade de venerar heróis. Os holofotes da mídia são, contudo, demasiado ofuscantes para os heróis. Mostram todos os seres humanos no que eles têm de comum, assim frustrando constantemente o anseio pelo herói. Quanto mais nos aproximamos dos grandes, tanto menores eles se tornam. Enquanto a eminência carismática do herói é, no fundo, algo molesto para a democracia, as celebridades nos oferecem compostos do meio-termo. A sua habilidade consiste no modo como elas se diferenciam dos seus iguais. As celebridades confirmam que o meio-termo é aperfeiçoável. Elas não são diferentes de nós, porém mais ricas, mais transladáveis, mais móveis. Elas estão “por cima”, sem que por isso nós estejamos “por baixo”, e por isso possibilitam a admiração democrática. Não se tem inveja deles, porque neles festejamo-nos a nós mesmos. Porque qualquer um pode vir a ser uma celebridade.

Heroísmo como farsa nos programas da mídia – esse é o ponto final lógico de nossa pequena análise. Mas cada um tem a liberdade de querer trocar os seus heróis pelos fantasmas da mídia de entretenimento. Ainda existe a igreja dos livros, existe a leitura como culto e como veneração do herói. É somente nos grandes livros que encontramos os verdadeiros heróis. Por isso a aversão “crítica” aos clássicos, aos cânones e à educação nada mais é do que uma outra forma de expressão do afeto anti-heroico. Porque o afeto anti-heroico surge a partir do ressentimento contra a transcendência de si mesmo. O herói nos lembra de que o mero viver e sobreviver não são o bom viver.

O herói é o homem para além de si mesmo. Sua história narra algo que talvez nunca aconteceu, mas que sempre é. Ela satisfaz a necessidade indestrutível de uma história significativa, de um grande acontecimento em sua plasticidade e sua narratividade. Enquanto a sociologia moderna transforma tudo em atribuição, o mito interpreta o acontecer como um fazer, como feito heroico e ação. A morte do herói deixa como herança a sua história, que mostra a sua essência. Por isso fazem parte dos grandes feitos do coração as grandes obras do cérebro: Aquiles e Homero, Sócrates e Platão, Alexandre e Aristóteles, Péricles e Tucídides, Cristo e Paulo, Napoleão e Hegel. Estes são verdadeiros heróis, e eles somente deixarão de existir quando não houver mais ninguém que queira ler os grandes livros.


Outras reflexões sobre esse tema foram feitas pelo autor, entre outros, em um ensaio de mesmo título publicado pela revista Merkur.
Norbert Bolz
(1953, Ludwigshafen)
lecionou Teoria da Comunicação na Universidade de Essen de 1992 a 2002. Desde 2001, é catedrático na Universidade Técnica de Berlim no setor de Ciências da Comunicação. Seus campos de pesquisa são a lógica da rede informática, a teoria dos meios de massas e a teoria da comunicação.

Tradução do alemão: George Bernard Sperber
Copyright: Goethe-Institut e. V., Humboldt Redaktion
Setembro 2010
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