A arte da Independência... e algumas reflexões sobre o heroico

A voz da selva

AMAZONAS: teatro musical em três partes” (Estreia no âmbito da Bienal de Munique de 2010) 1ª parte: “Tilt” Música: Klaus Schedl, Foto: Regine Koerner/ Biennale O teatro musical “Amazonas” nos palcos de Munique, Roterdã, São Paulo e Lisboa.

A selva geme quando as gigantescas árvores abatidas desabam sobre ela. Sofre quando é desmatada e queimada. A selva é a epiderme das costas de Hutukara, o primeiro céu do universo dos Yanomami. É viva, é grande, de fôlego longo. Os xamãs dos Yanomami escutam a sua voz. Ela canta, mas quando a destroem, grita de dor. Mas os brancos não ouvem sua voz.

Davi Kopenawa é porta-voz da Hutukara Associação Yanomami. Ele luta contra a surdez do mundo ocidental. Ele também é xamã e amplifica as mensagens sussuradas dos xapiripë, os verdadeiros donos da floresta, ancestrais dos animais e dos homens. A selva, povoada há milênios e base vital dos índios amazônicos, está seriamente ameaçada. Sabemos disso, pois só assim a Amazônia ganha as manchetes dos jornais. Mas o que torna os brancos, o mundo ocidental, todos nós tão indiferentes a essa catástrofe que nos ameaça e que terminará por atingir a todos nós através de uma mudança climática global?

Usando o instrumental da música contemporânea, do teatro e das possibilidades multimidiáticas de som e imagem, Amazonas: teatro musical em três partes (“Amazonas – Musiktheater in drei Teilen”) tenta agora abrir os olhos e os ouvidos de um público seleto na Alemanha, nos Países Baixos, no Brasil e em Portugal.

Os idealizadores do projeto – Joachim Bernauer, ex-diretor de programação cultural do Goethe-Institut de São Paulo e José Wagner Garcia, arquiteto e artista midiático – imaginaram um teatro musical com caráter socialmente relevante. Queriam falar da Amazônia e acabaram topando com os índios Yanomami, que se tornaram parceiros equivalentes neste gigantesco projeto. Há muito tempo eles vêm advertindo contra a destruição da selva. Seguindo o alerta dos índios Yanomami, todos agora aguçaram seus ouvidos para ela: especialistas em música e compositores do Brasil e da Alemanha, assim como artistas midiáticos dos dois países, e ao longo dos últimos cinco anos este ambicioso projeto cresceu e se transformou como a própria floresta. A tragédia que agora é levada aos palcos consiste em que o homem ocidental, com todas as suas possibilidades tecnológicas, não percebe a floresta enquanto ser vivo e não é capaz de escutar aqueles que sabem nominar o núcleo de todo o problema, como diz o sociólogo e filósofo paulista Laymert Garcia dos Santos.

O que resultou deste projeto ambicioso foi um novo olhar sobre a floresta, à qual o teatro musical Amazonas agora quer emprestar voz. Nele, a selva é protagonista, herói trágico.

Domínio compartilhado

Não existiriam formas mais imediatas de trazer o drama ambiental para a consciência coletiva? Por que logo um teatro musical moderno que não costuma produzir melodias fáceis de cantarolar? A resposta é espantosamente fácil. Comparada com outras formas de representação mais discursivas, a música tem uma enorme vantagem: seu efeito é direto. A música, enquanto meio sensorial, libera as emoções. Tem ligação direta com o cérebro e se presta mais do que qualquer outro meio a transportar os sentimentos. “Aquilo sobre o que não se pode falar, é preciso cantar”, expressou Alexander Kluge, parafraseando livremente Wittgenstein. No moderno teatro musical, a dor amazônica se torna audível e perceptível, sem poupar ninguém.

Outro motivo é que é precisamente o teatro musical em sua poesia, mas também em seu distanciamento da realidade, que compartilha o mesmo domínio com o xamanismo amazônico. Também na Amazônia é de uma diferença relevante se as palavras são faladas ou cantadas. Nos dois casos, a palavra cantada pertence a uma outra esfera da realidade. Os espíritos da selva, os xapiripë, coletam as palavras infinitas das árvores. Por sua vez, os xamãs Yanomami em transe as encontram e transformam as palavras que ganharam dessa maneira em melodias e padrões musicais. Portanto, o canto dos xamãs permite vivenciar diretamente a natureza viva enquanto imagem acústica e visual. De maneira semelhante, os artistas midiáticos também tentaram transformar sons e ruídos desconhecidos em indivíduos sonoros. Neste processo, a selva é seu elo de ligação, sua fonte mágica comum, sua visão artística. No download virtual, o trabalho artístico dos compositores modernos relembra o dos xamãs indígenas. Como nenhum outro gênero, a forma multimídia da ópera age simultaneamente sobre os diversos canais da percepção, tentando traduzir poeticamente também neste nível a diversidade das formas de vida da Amazônia.

O teatro musical moderno que nasce desta forma mostra três perspectivas diferentes da floresta com sua enorme diversidade, sem omitir suas contradições.

Três vezes “dores amazônicas”

Uma tempestade sonora polifônica desaba sobre a plateia no espaço escuro. Tudo tine, vibra, ruge e rosna. Mal dá para acreditar que estes sons eletroacústicos possam estar sendo gerados por “verdadeiros” instrumentos, que vozes humanas estejam vibrando juntamente com essas ressonâncias e além delas, conduzindo-nos por vias sonoras para o mundo das viagens de aventuras e descobertas de Sir Walter Raleigh. Já no início da ópera, os dutos auditivos do público são devidamente invadidos. Heinz Friedl dirige estas explosões sonoras furiosas e fragmentadas, que param de repente, exalam, respiram, para logo em seguida tornar a irromper.

A primeira parte da composição do músico Klaus Schedl, de Munique, chama-se Tilt. De uma maneira nada habitual, ele fala da descoberta e da devastação da Guiana pelo navegador britânico Sir Walter Raleigh. É o olhar do conquistador, um olhar calculador, ávido, explorador – é a Amazônia entre Eldorado e Inferno Verde, entre a tentação e o sofrimento. Três atores enfrentam a plateia atrás de telas negras. Todos são Walter Raleigh. Seus rostos são projetados à sua frente na tela que dá para o público, e num turbilhão cada vez mais veloz de raiva, desespero e cobiça, essas imagens também se movimentam com rapidez crescente, como uma máquina que no fim começa a ratear, volta a irromper, corre, esquenta e finalmente “dá tilt”, como um autômato exageradamente forçado.

A segunda parte, composta pelo brasileiro Tato Taborda, tenta reproduzir a visão de mundo mítico-profética dos habitantes da floresta. É o olhar muito próximo que encena a Queda do céu. Além de dois trompetes, duas trompas, trombone e tuba, há vários instrumentos de percussão, assim como doze instrumentos de sopro de madeira. Tomando a flauta yanomami como modelo, eles foram construídos especialmente para a ópera. Tato Taborda se inspira sobretudo no registro sonoro das vozes dos xamãs e na sua cosmologia, mas abre mão de usar diretamente os seus cânticos e os ruídos da floresta. Não são Yanomami que pisam o palco, e sim dois artistas vocais que representam o Xamã (enquanto personificação da floresta) e seu rival Xawara (o princípio da destruição coletiva). Xawara é o espírito fumegante que traz as epidemias. Ele canta – os instrumentos de metal atrás – contra a floresta. Enquanto os espectadores são convidados a caminhar pelo palco-floresta, veem três atores que carregam sua própria orquestra em pesadas caixas de madeira. De uma delas soam corais de igreja, das outras, ruídos eletrônicos. São os invasores da selva. Na visão dos Yanomami, o falcão, a formiga e a marta correspondem ao missionário, ao cientista e ao garimpeiro. Das caixas sai uma fumaça que, assim como os estranhos, penetra por toda a parte e invade o palco, obscurecendo-o. O repto lançado ao visitante consiste em reativar a audição como principal sentido de orientação. Os sons da mata tropical, traduzidos para o ouvinte ocidental, adensam as vozes individuais para um delírio sensorial audiovisual. Serão estes os xapiripë, os inúmeros espíritos da floresta que os xamãs Yanomai ouvem em seu transe? É assim que soa o apocalipse dos habitantes da floresta? No final, os três baús reboam ao mesmo tempo e num mesmo tom, fazendo as vozes da floresta e do Xamã emudecer. Xavara venceu.

A terceira parte da ópera lança um olhar sobre o futuro. O título é: Na expectativa da efetividade de um método racional para solucionar o problema climático. O público agora se torna testemunha de uma experiência sinestética concebida por Peter Weibel, do Centro de Arte e Tecnologia da Mídia de Karlsruhe (ZKM), e composta por Ludger Brümmer. Imagens digitais são lançadas sobre um espaço de projeção em degraus e despejados sobre os espectadores numa visualização de música “molecular”. Os sons se originam no mundo de determinados peixes que se orientam nas águas turvas do Amazonas por meio de sinais elétricos (José Wagner Garcia). Através de técnicas de cálculo matemático, estes sinais são transformados em imagens. Imagens matemáticas e, ao mesmo tempo, poético-estéticas jorram e pulsam pelas escadas da “catedral sonora”, legendadas com frases sobre as emissões de CO2 e revelando a Amazônia enquanto máquina de vento-água-nuvens-floresta. Tudo isso desemboca numa conferência de multimídia em que um economista, um político, uma cientista e um representante dos povos indígenas negociam o destino da floresta. Enquanto a cientista e o índio se esforçam por apontar a importância da preservação da Amazônia enquanto espaço vital e gigantesca biblioteca biogenética recheada de exemplares únicos, o político e o economista falam em seus celulares, feito autistas. A cena é comentada por um coro antigo e, no final, como em quase toda ópera que se preze, lamenta-se um defunto. Neste caso, a floresta. O coro é a floresta e o público fica desconcertado, em pé na floresta – o público é a floresta.

Nas três partes da ópera, a mensagem – embora dita de forma diferente – é a mesma: a floresta está morrendo. Nós, com o nosso sistema econômico baseado em progresso, a devoramos.

A música como feitiço

No final, estamos todos dentro da floresta. Será ela igual para o espectador ocidental como para os Yanomami? Certamente não. No entanto, na Amazônia, a música sempre foi um feitiço. Os missionários jesuítas do Paraguai tinham certeza de conseguir converter os indígenas sem maiores problemas, com a música. A ópera sobre a Amazônia tenta o caminho inverso. Hoje, são os Yanomami que nos convertem graças a um exército de modernos músicos e artistas midiáticos, que atuaram como tradutores. Sua linguagem, sua expressão musical reside no gênero vanguardista do teatro musical e – assim como a visão mítico-poética dos Yanomami – está condicionada à época e à cultura. Eles aceitaram um grande desafio e tomaram a sério a selva enquanto protagonista. Podemos agora compreender melhor o que está acontecendo na Amazônia? A floresta é mais do que um recurso natural, isso é certo, e ela também está longe de ser uma mera metáfora, isso nós sentimos, sofremos na própria pele. O feitiço funciona: foi um bom teatro musical.
Ulrike Prinz
(1961, Munique)
estudou Etnologia, Filologia Românica e Filosofia em Munique, Madri e Marburg. Entre 2001 e 2004 deu aulas sobre temas latino-americanos na Universidade Ludwig Maximilian de Munique. Desde outubro de 2007, é corresponsável pela redação da revista HUMBOLDT.

Tradução do alemão: Kristina Michahelles
Copyright: Goethe-Institut e. V., Humboldt Redaktion
Setembro 2010
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