A educação – entre o coração e a razão

Como educar o coração

Sentimentos e emoções. Sobre a transformação dos ideais de educação ao longo dos séculos.

A “educação do coração” ou, literalmente, a “formação do coração” (Herzensbildung) é um conceito do classicismo alemão. Friedrich Schiller o empregava com frequência; Wilhelm von Humboldt preferia a expressão “formação do temperamento” (Bildung des Gemüths). Na época, o coração era considerado o centro do sentimento (Gefühl) e do temperamento (Gemüt), e ainda hoje nos utilizamos de expressões e sinais vinculados a essa topografia. Quem está apaixonado dá de presente anéis ou chocolate em forma de coração, quem está na fossa fica com o coração partido ou com dor no coração. Quem está feliz sente o coração expandir, quem está triste sente um aperto no coração.

Mas como educar um coração? Será então que os sentimentos não são inatos e consequentemente imperscrutáveis? Será que todos nós não temos, conforme rezam os psicólogos, um repertório de sentimentos básicos, por assim dizer, como medo e alegria, ódio e tristeza, repulsa e fúria? E esses sentimentos não seguem um ritmo natural ou uma concepção biodinâmica transmitida e inscrita nos seres humanos ao longo da evolução? Nesse caso, o que significaria “educação” e o que ela poderia proporcionar?

Essas questões foram discutidas desde a Antiguidade, mas adquiriram maior significado e impulso a partir do século XVIII, o chamado Século da Pedagogia. Quem considerava o ser humano – em corpo, mente e alma – um ser capaz e carente de formação, e quem esperava que sua formação levasse a um progresso civilizatório não podia ignorar a educação do coração. A educação deveria incluir não só a mente, o entendimento, ou seja, o que Wilhelm von Humboldt denominava “o conhecimento do conhecimento”; sentimentos e emoções também deveriam ser educados. Por um lado, estes eram considerados produtos da natureza imediatamente acessíveis à pessoa. Por outro, parecia problemático relegá-los a um estado natural, sem qualquer filtro.

Com certeza, todo homem era capaz de sentir compaixão (sympathy), segundo enfatizavam os representantes escoceses da filosofia moral. Todavia, se essa capacidade realmente acabava sendo exercida e cultivada, já era uma outra história. Em algumas pessoas, essa capacidade podia estar bloqueada ou obliterada por sentimentos paralelos de egoísmo. Era nesses casos que a educação se tornava necessária, a fim de possibilitar que aquilo que é próprio do ser humano de fato se manifestasse e fosse colocado em prática.

Controlar e moldar os sentimentos 

Outros sentimentos − como inveja ou avidez, ira ou ódio − talvez estivessem presentes em excesso e pertubassem a convivência próspera em uma sociedade burguesa. Quem se deixasse dominar por essas emoções e paixões negativas se tornava um perigo para si mesmo e para os outros. Também aqui os pais e pedagogos deviam intervir, a fim de impedir excessos e garantir uma boa temperança emocional. O objetivo de tais intervenções era um ser humano autogovernado, que se observasse, controlasse e cultivasse e cuja capacidade de sentir respaldasse o processo da civilização, em vez de entravá-lo.

Como deveria ser exatamente essa educação do coração e como ela deveria ser organizada eram questões calorosamente debatidas. Muitos pedagogos davam grande valor a uma educação estética, que deveria enraizar na alma jovem os sentimentos do belo e do sublime. Nesse sentido, uma iniciação precoce à música, à poesia e às artes plásticas parecia indispensável. Outros já advertiam contra um excesso de estética. Estes consideravam a leitura de romances perigosa para ambos os sexos. Entre as mulheres, ela poderia levar a uma imaginação exacerbada e a desejos fantasiosos que não se consumariam e que a vida real acabaria frustrando. Por meio dos romances, os homens jovens poderiam, por sua vez, perder de vista sua verdadeira missão no mundo e acabariam desenvolvendo um temperamento frágil, dificilmente conciliável com seus sólidos deveres na política, na economia e na sociedade.

Há que se dizer que a sensibilidade ainda estava bastante em voga na segunda metade do século XVIII, e Gotthold Ephraim Lessing não foi o único a eleger o ser humano compassivo como o melhor de todos. No entanto, não era para exagerar ao fazer o bem. Quem ficasse com os olhos cheios de lágrimas com muita facilidade, quem aderisse a um culto do autêntico sentimento acabaria se entregando ao “melindre” (Empfindeley), criticava Immanuel Kant. O importante não era só um coração compassivo, mas também a coragem e a energia para colocar em ação a compaixão sentida e para prestar ajuda ativa quando necessário.

Juízo e sensibilidade 

Não havia dúvida entre os pedagogos de que a educação do coração deveria ocorrer também na escola, mesmo que não fosse esse o único lugar. Era consensual também que ela deveria ser acompanhada da formação do entendimento. Quem cultivasse somente sentimentos e sensibilidade entre crianças e jovens estaria criando entusiastas e sonhadores, já advertia o diretor de ginásio Immanuel Johann Georg Scheller em 1780. O entendimento não deveria adormecer, mas sim guiar as emoções e a imaginação por meio da riqueza de conhecimentos e da força do discernimento. Joachim Heinrich Campe, preceptor dos irmãos Humboldt e influente reformador da educação escolar, se utilizava da imagem do corpo como um navio, guiado pelo juízo ao leme e movido pelas velas da sensibilidade.

Os programas de ensino escolar geralmente incluíam três âmbitos principais: a formação do corpo, da mente e do coração. O diretor de um “instituto educacional para meninos de 6 a 14 anos”, inaugurado em Berlim em 1801, prometia que seus alunos seriam educados para se tornarem “seres humanos moralmente bons”, passariam por uma “formação do entendimento e do coração”, seriam habituados “a limpeza, ordem, diligência, modéstia e cortesia” e insuflados de amor pela “pátria e sua respectiva Constituição”. “Educação do coração” compreendia, nesse caso, “o direcionamento terno e amável dos impulsos jovens”, “a admoestação de passos em falso” e “a apresentação das consequências naturais da virtude e do vício por meio de exemplos da vida humana”.

Adestramento e empatia 

Com quanta ternura e quanta amabilidade as escolas do século XIX realmente direcionavam as emoções e os “impulsos” de seus educandos já era uma outra história. Nas escolas elementares, a educação do coração se limitava essencialmente a ensinar aos meninos e às meninas o senso de dever e a obediência à autoridade da Igreja e do Estado. Os ginásios ofereciam um currículo moral e estético mais diversificado. Mas o conde Harry Kessler não foi o único a vivenciar a sua fase escolar nos anos 1880, em Hamburgo, como um “adestramento”: “No fundo, não tínhamos que aprender grego ou latim, mas sim trabalhar. Trabalhar por trabalhar; eles queriam nos adestrar como animais de carga. Do ideal, inflamado na época de Goethe, da pessoa que trazia na cabeça e no coração toda a humanidade e sua cultura, só restara a enorme aplicação necessária para absorver a incomensurável quantidade de matéria”. Em vez de abrir “a alma tanto para o lado da mente quanto para o das emoções”, a escola só fazia transmitir habilidades e posturas que, segundo admoestava Kessler, viriam a “fornecer aos soberanos da nova era os escravos incansáveis e autocomplacentes necessários para a mecanização da economia”.

O cânon de formação ginasial também deixava transparecer ainda menos coração e humanidade quando se tratava de questões sociais. Não havia sensibilidade nenhuma para as preocupações, necessidades e anseios das camadas sub-burguesas. À medida que os interesses e as orientações nacionais passavam para primeiro plano, mais esmorecia a mensagem cosmopolita dos clássicos de Weimar. O prognóstico e a reinvidicação enfática de Schiller por uma fraternidade de alcance mundial se tornou ainda mais inatingível. Embora o mundo estivesse perceptivelmente se integrando por meio de grandes projetos coloniais, a atitude imperial não era marcada por solidariedade e amor fraternal, mas sim por uma arrogância de cunho social e crescentemente racial. Quem não correspondesse aos próprios padrões civilizatórios colhia desdém, desprezo e, em casos extremos, destruição.

A carência dessa educação do coração se revelou não só durante o Segundo Reich guilhermino, praticamente insuperável em sua identificação agressiva de inimigos internos e externos. Isso viria a se manifestar de forma ainda mais radical e raivosa durante o Terceiro Reich nacional-socialista, que definia a inimizade em termos não apenas políticos, mas também e sobretudo raciais. A compaixão, segundo constava da Enciclopédia Meyer de 1939, valia apenas para os “integrantes da comunidade”; ou seja, apenas com aqueles que pertenciam à própria comunidade étnica era possível compartilhar vivências e sentimentos, e só eles eram merecedores de uma “ajuda ativa para aliviar e sanar os sofrimentos”. O sofrimento daqueles que se viam excluídos dessa comunidade não contava. Quem mostrasse compaixão para com eles ou os ajudasse se tornava suspeito e corria o risco de graves sanções.

Supõe-se que foi exatamente essa experiência que moveu muitas pessoas após 1945 a enfatizar expressamente a educação do coração como meta da educação escolar. A proposta do governador social-democrata Wilhelm Hoegner de fundamentar isso na Constituição do Estado Livre da Baviera foi sancionada por unanimidade na Assembleia Constituinte. Até hoje, o parágrafo 131 impõe às escolas bávaras não só a tarefa de “transmitir saber e habilidade, mas também a de formar o coração e o caráter”. “Os objetivos supremos da educação são temor a Deus, respeito pela convicção religiosa e pela dignidade do ser humano, autocontrole, senso de responsabilidade e disposição a assumi-la, solicitude, receptividade para todo o verdadeiro, o bom e o belo.” Além disso, os escolares “devem ser educados no amor pela terra natal bávara e pelo povo alemão e no sentido de conciliar os povos”.

O moderno treinamento da empatia 

A disputa dos pedagogos a respeito de se tais metas da educação deveriam realmente ser alcançadas e como persiste hoje com a mesma veemência dos anos em torno de 1800. Alguns as rejeitam como uma pretensão arrogante e ingênua, outros editam um “Manual da educação do coração” e traduzem esse conceito em termos de “inteligência emocional”, uma linguagem compatível com o management empresarial. Enquanto muitos políticos pensam sobretudo na educação de valores, um número cada vez maior de escolas está experimentando com o treinamento da empatia. Esta é, desde muito tempo, a mais concreta e prática implementação da antiga ideia de que a “educação geral do ser humano” não envolve apenas corpo e mente, mas também coração e sentimentos.
Ute Frevert
deu aulas de História em Berlim, Constança, Bielefeld e Yale (EUA). Desde janeiro de 2008 dirige no Instituto Max Planck de Pesquisa Educacional (Berlim) a área de estudos “História dos sentimentos”. A história social e cultural da Idade Moderna, a história dos gêneros, a nova história política e a história dos sentimentos estão entre seus temas de pesquisa.

Tradução do alemão: Simone de Mello
Copyright: Goethe-Institut e. V., Humboldt Redaktion
Dezembro 2012
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