A educação – entre o coração e a razão

Antígona oriental

A montagem do diretor alemão Volker Lösch dá a palavra a mulheres vítimas da última ditadura uruguaia. Presas, exiladas e filhas reivindicam a memória das vítimas do terrorismo de Estado e põem em evidência a necessidade de julgar os genocidas e de enterrar os “desaparecidos”.

“Já não o quero comigo. Faça o que quiser. Vou enterrá-lo”, repetiam as mulheres na audição realizada em fevereiro de 2011. Havia mais de quarenta mulheres para formar um coro, mas somente dezenove delas fariam o papel de Antígona em 28 de janeiro de 2012, no Teatro Solís, o mais importante do país e sede da Comédia Nacional e da Orquestra Filarmônica de Montevidéu. As mulheres entrariam em cena no papel de si mesmas, sem atuar. Elas e seus discursos, o de todas, misturados, criando uma nova trama, com outra pontuação e reivindicando o direito à verdade e à justiça.

A Antígona de Sófocles desenvolve o conflito entre a lei divina e a dos seres humanos. Antígona quer enterrar seu irmão – representando o direito individual de ter uma sepultura, e Creonte representa o Estado – que se nega a lhe conceder esse ritual. No Uruguai pós-ditadura, esse dilema existe até hoje, às vezes mais camuflado, às vezes num tom mais exaltado. Desconhece-se, atualmente, o paradeiro de quase 150 pessoas detidas por motivos políticos. Desde 2005 até agora foram encontrados restos de quatro assassinados. Isso acontece porque, logo após o fim da ditadura, foi aprovada a Lei da Caducidade da Pretensão Punitiva do Estado, que concede impunidade aos atos ilícitos cometidos por militares e policiais durante aquele período. Em 1989, um grupo de movimentos sociais e militantes de esquerda realizaram uma campanha para reunir assinaturas e adesões em prol de um plebiscito para anular a lei. O resultado da votação foi favorável à sua manutenção por mais de 54 por cento dos votos. E o tema parecia ter sido silenciado.

Todas são Antígona 

No início do projeto teatral – que contou com a colaboração do Goethe-Institut de Montevidéu – no final de 2009, realizaram-se eleições nacionais que elegeram José “Pepe” Mujica, um ex-guerrilheiro tupamaro e prisioneiro político como presidente e segundo governante de esquerda. Houve então um segundo plebiscito que obteve 52 por cento de apoio à lei, embora pesquisas de opinião pública tenham assegurado que a maioria da população era contra a mesma. A seleção do coro de mulheres se realizou nesse clima, no qual a própria esquerda no governo com maioria absoluta no Parlamento manobrava para manter o status quo reinante. Levantou-se novamente o muro e as portas se fecharam. E a pergunta era: “que farão essas mulheres não profissionais do teatro contando suas histórias, as piores que aconteceram no passado recente?”. O diretor Lösch e a diretora e dramaturga uruguaia Marianella Morena confiaram com razão no potencial da vivência: o corpo de quem atravessou a história, o discurso de quem a viveu, o esquecimento de quem lhes recusa a ajuda, o desejo de falar sobre o passado, do que ocorreu e do que não pode ser, assim como de seus anseios para a sociedade de amanhã. Na palavra e na carne dessas mulheres. O fio condutor era a esquerda uruguaia ontem e hoje, a Lei de Caducidade, a maternidade na prisão, o papel dos familiares, a sexualidade, os homens, a tortura, entre outros tópicos. Estas mulheres tinham e têm muito a dizer e querem fazê-lo.

A cada ensaio foram se tornando evidentes os protagonismos, as personalidades, as diferenças entre elas, não somente políticas como também de vida, que no entanto formam uma só Antígona feita de muitas. O texto é polifônico, como o coro. Todos os testemunhos então se unem para criar um só relato, que ao mesmo tempo são muitos. “Este é um grupo de mulheres que está acostumado a questionar e criticar. No entanto, houve tanta insistência nos pedidos, que elas cederam suas memórias porque sentiram que as estariam depositando em um local protegido. É estranho, e principalmente com uma pessoa que você pensa ser distante, mas não é assim”, explica Ana Demarco como foi fazer o relato ao diretor. Ana tem 59 anos, é professora, foi prisioneira de dezembro de 1974 a fevereiro de 1978, e a primeira mulher que falou com Lösch no Museu da Memória de Montevidéu, momento em que surgiu a ideia. De qualquer modo, disse Demarco, elas não se importaram de que alguns de seus testemunhos não tenham feito parte do texto final ou de terem de dizer palavras de uma outra. “Há muitas coisas que não coincidem com a pessoa, mas sabemos que refletem um setor.” Desse modo, pensa, o texto se torna mais democrático e se forma um grupo: “Na medida em que se deixa de ser um personagem para ser a pessoa, você se torna parte de um grupo que tem como trama o conhecimento e a confiança”.

Elas decidiram falar sobre a tortura: física, simbólica, própria, a dos amigos e familiares, a que podiam contar, a que não podiam, a que somente hoje têm coragem de verbalizar. É difícil falar da dor, expressar com palavras, se mostrar ao outro como vítima. É difícil também perguntar sobre isso, não parecer óbvio, mórbido, insensível no interrogatório, voltar a perguntar – “sem torturômetro”, como elas diziam –, sentindo que as perguntas as desnudam novamente. Mas como não perguntar, se precisamos saber o que aconteceu para nos darmos conta da insanidade, da loucura, da falta de sentido da tortura, esta besta imbecil que esteve solta trinta anos atrás e continua ainda babando escondida? Como fazê-lo sem voltar a colocá-las naquele lugar? Como fazê-lo sem escutar os mínimos detalhes e sentir de alguma forma que fizeram isso com todos nós, com aqueles que estavam fora, que ainda não eram nascidos ou eram crianças? É difícil falar da dor e das perdas, mas é necessário, pelo menos para mostrar o limite e ver que de certa forma continuam sendo as mesmas e por sua vez são outras, aquelas que estão de pé e querem continuar sendo protagonistas de sua própria história.

O aplauso grita 

Para Lösch era necessário expô-las à dor sem cair numa espécie de psicoterapia. Era necessário – assim como faz em todas as suas obras na Alemanha – confrontar a tragédia com o público e a opinião pública. “Há imagens precisas que não espalham sangue. São fortes em si mesmas. Talvez pelas sutilezas”, descreve Demarco. Para as mulheres, elas foram mostradas em seu momento de maior debilidade com uma delicadeza chocante. Nibia López, 57 anos, funcionária, onze anos na prisão, contracena com Tatiana Taroco, 22 anos, desenhista gráfica, sua filha. Esta última faz parte da geração nascida na democracia mas que sofre as sequelas da ditadura. O público ao qual Antígona oriental queria comover e conseguiu. Taroco tem um irmão que nasceu na prisão e tanto o pai como a mãe dela estiveram presos. “Estou feliz por minha filha participar desse projeto”, disse Nibia, “mas por outro lado penso que para ela é uma experiência muito dura. Uma coisa é saber e outra é estar ali e ouvir uma série de experiências e testemunhos que muitas vezes nunca tínhamos escutado. Eu mesma ouvi e disse coisas pela primeira vez.” No entanto, López define esta experiência também como curativa e até como um impulso para novas ações sociais: “Muitas mulheres foram fazer denúncias da tortura e violação agora. Porque não conseguiam ir até o fim e falar sobre sua violação. É muito difícil”. Foi a partir de novembro de 2011 – em pleno ensaio – que 28 ex-presas fizeram uma denúncia penal sobre as torturas físicas e psicológicas e os delitos sexuais. No Uruguai não existem presos por tortura, mas por violação aos direitos humanos. O general Gregorio Álvarez (ditador de 1981 a 1985) foi detido no governo de Tabaré Vázquez por sequestro, traslado clandestino, assassinato e desaparecimento de cidadãos uruguaios exilados na Argentina em 1978 e é o símbolo de outros tantos genocidas nacionais que ainda devem ser julgados.

O teatro lotou nas oito apresentações. As pessoas de pé, aplaudindo. “Tivemos retornos diversos. Dos meios de comunicação, que foram muitos. Mas o que nos importava era a emoção que sentíamos no público. Por exemplo, quando a sala se iluminava, no intervalo, e víamos o público, os rostos. Esse momento de comunhão, onde se sentia uma resposta, era impressionante. Os aplausos – que para nós não tinham precedentes, já que não somos atrizes e não nos movimentamos nesses espaços – eram comovedores”, conta Demarco. Talvez esses mesmos aplausos que se repetem em todos os 20 de maio desde 1996 na Marcha do Silêncio pela busca dos desaparecidos. Era um aplauso diferente daquele de teatro, não era contínuo, era como se fossem golpes.

“Com uma força que só senti aí e na Marcha”, evoca Demarco, “era um aplauso que não significava aclamação, era um aplauso diferente.” Era uma manifestação que muitas sentiram como uma reparação depois dos dois plebiscitos perdidos. “Sentia-se como um obrigado por dizê-lo. O retorno é que alimenta seu processo de crescimento, com o dizer, com o gritar e a resposta do outro”, explica. As mulheres já estiveram em Córdoba, Argentina, com sua obra. “Ali sentimos que o tema gênero ocupou um lugar importante. Num dado momento, um rapaz jovem nos disse que lhe deu vergonha ser homem, e aqui esse foi um aspecto que não ouvi em nenhuma crítica”, frisou. Agora elas estão se preparando para ir a Buenos Aires, assim como ao Equador e à Colômbia e, em princípios de 2013, à Europa. Antígona viaja, em várias mulheres, e quer continuar gritando seu desejo. Um pedido que foi pouco escutado pelas autoridades de esquerda, que fizeram ouvidos de mercador a essa voz. Uma só, mas de várias.
Mariangela Giaimo
(1975, Montevidéu) é licenciada em Comunicação Social, docente de Teorias da Comunicação, jornalista freelance e colaboradora assídua do semanário uruguaio Brecha. Atualmente faz o doutorado em Ciências Sociais na Universidade General Sarmiento–IDES (Argentina).

Tradução do alemão: Maria José de Almeida Müller
Copyright: Goethe-Institut e. V., Humboldt Redaktion
Dezembro 2012
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