Cultura da tradução – Tradução da cultura

Sobre Humboldt

A Humboldt é uma revista cultural que promove e acompanha o intercâmbio cultural entre a Alemanha e a América Latina, Espanha e Portugal. Para além de outras opiniões internacionais, a revista também contém artigos de autores oriundos de regiões de expressão ibérica e germânica. A Humboldt dedica-se a debates da atualidade sobre temas da vida intelectual e cultural de ambos os lados do Atlântico.

As pontes da tradução em risco de ruir

A perspectiva da tradução se torna cada vez mais uma perspectiva que expressa as diferenças, assimetrias e desigualdades globais.


Tradução, para além do confronto ou da mescla

O mundo globalizado é marcado por disputas interculturais, por conflitos entre religiões e acirramentos bélicos, assim como por mesclas culturais. Seria, portanto, enganoso querer interpretar o mundo obedecendo apenas a um padrão de confrontação, como “choque de civilizações” (Samuel Huntington) entre culturas aparentemente isoladas. Da mesma forma seria miopia buscar apenas padrões de hibridização, entrelaçamentos culturais ou mesmo fusões, em vez de confrontos. É verdade que, em vastas regiões, a sociedade mundial se distingue pelo fato de que processos globais se sobrepõem às tradições locais, apagando-as e transformando-as. O artista contemporâneo chinês Ai Weiwei, entre outros, mostrou esse fenômeno em termos visuais, ao aplicar a logomarca global da Coca-Cola a uma urna milenar da dinastia Han, numa expressão simbólica das assimetrias temporais de uma China em plena prosperidade econômica.

O artista colombiano Nadín Ospina fornece impulsos semelhantes à reflexão sobre a constância das tradições culturais. Assim, a sua figura de um guerreiro antigo travestido de Mickey Mouse é um estranhamento deliberado de tradições formais antigas – nesse caso, pré-colombianas – com ajuda de ícones da cultura de massas. No entanto, nos dois casos citados não houve “choques” nem simples “misturas”. O que se torna evidente é outro padrão, a “tradução” cultural.

É com esta perspectiva de tradução cultural que, nos tempos atuais, não apenas as artes, mas principalmente as ciências culturais e sociais pretendem oferecer novas interpretações tanto para os entrelaçamentos como para as fragmentações do mundo globalizado: a partir da complexa dinâmica do processo de sua formação. Pois “tradução” contém muito mais camadas do que confronto, é mais provocador do que uma simples mescla. De fato, a lente da tradução está focada priorita­riamente na possibilidade de processos de mediação culturais recíprocos, no “empréstimo” cultural. Mas também investiga desvios e a produtividade de diferenças, não apenas a sua superação. De forma provocadora, transpõem-se, assim, as representações conhecidas, porém muito mais estreitas, das traduções linguística e textual: a tradução, num sentido cultural mais amplo, significa muito mais do que uma simples relação de transposição entre textos ou línguas. Designa também uma prática de negociação social ou mesmo uma “técnica cultural” com a qual se pode manejar as assimetrias temporais e as contradições entre diferentes mundos da vida.

Traduções sem original

A regra geral é: não existe tradução sem original. Uma primeira transgressão está precisamente aqui: na descoberta de traduções sem original. Pois precisamente por causa de seus entrelaçamentos, os fenômenos culturais em si já se encontram traduzidos, misturados, reformados, transformados. A ideia indestrutível de “autenticidade” cultural, pelo jeito, já não serve mais. Nem mesmo o tango pode ser visto como “original” argentino, conforme disse Gabriele Klein em seu livro Tango in Translation. Pois o tango só se torna vivo por causa de seus movimentos de transposição e migração, no “interstício” entre dança, ideias dançadas, uma autocompreensão cultural, uma forma de expressão que transpõe fronteiras – “tradução” corporificada entre as esferas de arte, cultura, política. Mas esta provocação, este desvio e liberação do original vão muito além. Ultrapassam a esfera da arte.

Seja como for, durante séculos, a Europa – enquanto continente e conceito – foi vista como “original”, ponto de partida de conhecimento e ciência, de uma linguagem científica com pretensão universalista, de mode los de sociedade e modernização. Esta compreensão europeia hegemônica foi maciçamente posta em questão, até mesmo “provincializada” (Dipesh Chakrabarty), o mais tardar com a perspectiva pós-colonial. Também as civilizações latino-americanas cristalizaram deliberadamente, a partir do seu sincretismo, da sua “mestiçagem”, uma autocompreensão translacional. Neste caso, a tradução se liberta da camisa de força do “original” espanhol ou português para, sem qualquer respeito, devorá-lo, incorporando-o. Estamos falando do movimento antropofágico, a acepção canibalesca de tradução que teve sua fase pioneira no Brasil dos anos 1920. A partir dali a “tradução”, na América Latina, tornou-se uma estratégia de autoafirmação política baseada na perspectiva de uma rebeldia regional que cria seus próprios pontos de referência. E é precisamente esta prática de tradução “infiel”, não assimilativa, que oferece espaço para criações próprias de significados e possibilidades de intervenção política – nas artes, na literatura e bem além disso. Esta dimensão política da tradução do “encontro cultural” mostra que mesmo as transcrições e traduções na área estética não são tão ingênuas assim.

Tradução como ilustração das diferenças culturais

Mais do que nunca, hoje em dia tenta-se sondar as situações do “encontro cultural” na emergente sociedade globalizada para descobrir sua “tradução” e traduzibilidade. Afinal, ainda é necessário traduzir num McWorld com uma McLanguage – todos falando inglês – e outros Big Macs all over the place? Naturalmente, há muito tempo o mito de uma globalização enquanto homogeneização deixou de existir, como mostram os novos regionalismos e separatismos, assim como o poder das transformações locais autônomas. Neste horizonte, mais do que nunca é preciso atentar para os processos de tradução cultural, a fim de trazer à luz problemas, obstáculos e perturbações no contato entre as culturas e torná-los manuseáveis. Cada vez mais, a tradução se torna uma perspectiva que se refere expressamente a diferenças, assimetrias e desigualdades globais. Até por isso, ela é mais adequada aos desafios da globalização do que um entendimento de tradução que ainda se encontra fortemente disseminado na comunicação intercultural e na política cultural, mas que ainda se agarra rigidamente a ideais de êxito: a possibilidade de construir pontes, a compreensão cultural e a disposição para o diálogo. Mas esses objetivos interculturais indubitavelmente importantes deveriam ser investigados primeiro no que tange às suas bases realistas. Neste sentido, a perspectiva da tradução atualmente é empregada pela ciência para áreas de problemas agudos e carregados de tensão como “guerra e tradução”, “violência e tradução”, “translação e conflito”, terrorismo e Al-Qaeda enquanto problemas de tradução etc.

A abordagem tradicionalmente harmonista de tradução não nos leva muito longe. De antemão, é preciso levar em conta os aspectos de poder, desigualdade de poder, assimetrias no contato entre culturas que em grande parte têm suas raízes no colonialismo. Segundo Walter Mignolo, especialista em América Latina, a tradução deveria sempre ser pensada através do filtro da diferença colonialista. Isso detona uma forma de pensar limítrofe que não parte dos centros e sim das periferias, das margens. Detona ainda o aproveitamento autônomo de “espaços intersticiais” contra as correntes estabelecidas de tradução hegemônicas. Assim, o movimento zapatista mexicano do final do século XX colocou em marcha explicitamente processos tradutórios que fazem a mediação entre ideias marxistas e a cosmologia ameríndia, a fim de poder enraizar a resistência anticolonial também na maneira de os indígenas verem a si mesmos.

Um olhar através da lupa sobre cenários de tradução culturais

Estes espaços intersticiais e zonas de contato entre culturas, conceitos e grupos sociais só se tornam mais concretamente palpáveis quando são observados como “espaços de tradução”: como espaços de criação de relações, situações e interações. Assim, mesmo os conflitos culturais ainda fortemente polarizados devem ser investigados no que se refere à sua traduzibilidade. Em primeiro lugar, seria preciso trazer à luz passos isolados da tradução e liberar pontos articuladores concretos para apropriações, negociações ou atividades de mediação. Só assim – tentando ganhar acessos mais próximos da ação – seria possível vencer o discurso metafórico excessivamente vago de tradução cultural ou até mesmo “cultura enquanto tradução” (Homi Bhabha). No lugar de ingressar pelos grandes arcos de comunicação intercultural, contato ou diálogo cultural, é mais próximo da realidade expor-se aos processos comunicativos menos ágeis no nível de unidades de comunicação e de interação menores: em regiões, situações, passagens e limites, em tentativas concretas de tradução, mal-entendidos e perturbações, pontos de intercessão entre esferas diversas e níveis alternados, mas também em atores determinados e agentes culturais. O tão discutido entrelaçamento das culturas só pode se tornar palpável à luz de um contexto de tradução estratificado. As primeiras abordagens nesta direção se configuram, por exemplo, quando Jürgen Habermas reivindica que as comunidades religiosas em sociedades pós-seculares se “traduzam” para uma linguagem publicamente acessível, quando o sociólogo Joachim Renn investiga a integração social no que tange às “condições da tradução”, ou quando a pesquisa sobre migrações ultimamente considera essenciais as questões de autotradução entre os diversos pertencimentos culturais.

Somente com ajuda da lente da tradução, a comunicação intercultural, ou “encontro cultural”, pode se tornar transparente, revelando a tradução como um evento social que ocorre no nível das formas de vida. A tradução entre textos e línguas, que continua importante, é assim enriquecida de forma decisiva através da tradução de pessoas, ideias e práticas.

Desta nova contextualização do problema poderão possivelmente ser extraídas abordagens para retrabalhar os conceitos-guia da política cultural acerca do diálogo entre as culturas e do intercâmbio intercultural. Estes já são minados há muito tempo pelas estruturas hegemônicas da desigualdade de línguas e culturas. No entanto, a tradução continua sendo considerada a base para uma ponte entre as culturas, não por último na Alemanha, país dos poetas e pensadores. Mas a velha metáfora da construção de pontes que une os povos, usada para a tradução, está seriamente ameaçada de ruir. Fundamentos mais promissores para o relacionamento deveriam ser desenvolvidos a partir de uma compreensão translacional de cultura, como se discute atualmente nas ciências da cultura. De acordo com este enfoque, as culturas não são mundos da vida e de tradições “originais”, fechados em si mesmos e separados uns dos outros, que precisam ser unidos entre si através de pontes. Antes pelo contrário, as culturas consistem sempre em camadas de vivências “híbridas”, poluídas e misturadas. São contraditórias em si, poliglotas, tendo já sido traduzidas e misturadas com coisas estrangeiras. A grande relevância político-cultural que a categoria da tradução pode ter para a emergente sociedade globalizada é atentar de perto para estes campos de tensão também dentro das culturas – suas “costuras”, suas transições, mas também os escolhos e as linhas de ruptura – a fim de detectar cenários de tradução produtivos.
Doris Bachmann-Medick
é especialista em Literatura e Estudos Culturais e Permanent Senior Research Fellow no International Graduate Centre for the Study of Culture (GCSC) da Universidade de Gießen. Tem várias publicações no campo de estudos científico-culturais da tradução.

Tradução do alemão: Kristina Michahelles
Copyright: Goethe-Institut e. V., Humboldt Redaktion
Maio 2010
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Especial: A outra Língua

Este especial de literatura para a revista Humboldt passa a palavra a escritores alemães e latino-americanos, sobretudo brasileiros, que – ao longo de sua obra ou em livros recentes – têm revelado um interesse especial em renovar sua dicção e estranhar a própria língua por meio da incorporação de outros idiomas ou da permeabilização radical do texto a referências intertextuais e mídias extra-literárias