A imagem autêntica

O que é uma imagem autêntica? Esta pergunta não se coloca apenas desde que existe a fotografia. Mas a fotografia prometia uma resposta, garantida por uma técnica objetiva. É até mesmo sintomático o fato de nós exigirmos uma imagem autêntica. Se tiver que haver imagens, elas que mostrem a verdade. Somos rápidos em criticar as imagens porque elas mentem, algo que nós não lhes perdoamos. Porque nelas procuramos provas daquilo que queremos ver com os nossos próprios olhos. Quando isso não é possível, exigimos imagens, para podermos nos fazer uma idéia de algo. Com isso, chegamos rapidamente à imagem autêntica, algo que não é mais do que um conceito diferente para uma imagem que reproduz a realidade tal como ela é. As imagens são usadas como janelas para a realidade. Porém, como o nosso conceito de realidade muda constantemente, muda também a nossa expectativa diante das imagens. É provável que o fato de nós querermos ter fé nas imagens esteja relacionado com essa expectativa, mas as imagens têm que justificá-la.
Os conceitos de realidade e de fé já nos conduzem para a esfera da religião, dentro da qual essa expectativa diante das imagens alguma vez teve o seu lugar na vida. Representava uma espécie de realidade absoluta, por trás da fachada das coisas. Como essa realidade não estava disponível, nem empírica nem sensivelmente, os guardiões da fé a tornavam visível através de imagens, sobre as quais exerciam controle, ou eles emitiam uma proibição das imagens, a qual, embora não anulasse totalmente as imagens, apenas as subtraía aos olhos, deslocando-as para a imaginação interior. Nos conceitos de imagens sobrevivem conceitos de fé, e as práticas das imagens alguma vez começaram como práticas de fé. Embora ainda saibamos pouco de sua história, a religião cristã ainda está presente na mentalidade ocidental, mesmo depois da secularização. Por seu lado, ela não foi um prelúdio ingênuo da complexidade moderna, mas se emancipou de outras religiões num processo dramático. Os conceitos de mídia, a respeito dos quais se discute hoje nos debates especializados, ainda carregam o peso da fé cristã, dentro da qual eles se confrontaram outrora entre si. Raramente entraram em campo simultaneamente. Em geral, testemunhavam uns contra os outros, a palavra na escritura assim como os signos contra as imagens. E essa mútua incompatibilidade, junto com a reivindicação de autoridade absoluta, pôs em marcha infinitas tentativas de definição, cuja história nós interiorizamos, sem que saibamos muito a seu respeito. A mídia alguma vez foi ferramenta da religião e ainda é tema de disputa de uma fé prepotente que se estabelece lá onde nós inventamos constantemente novas mídias, mas nunca conseguimos dar conta delas.
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é professor jubilado de Ciência da Arte e Teoria da Mídia, é desde 2004 diretor do Centro Internacional de Pesquisa em Ciências Culturais (IFK), de Viena. Autor de inúmeras publicações. Dentre as mais recentes, destacam-se: "Bild-Anthropologie" (2000) e "Quel corps? Eine Frage der Repräsentation" (org. com Martin Schulz e Dietmar Kamper) (2002). Em 2005 foi lançado seu livro "Das echte Bild" (2005).
Maio 2006
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