A cidade na selva, a selva na cidade

A cidade na selva, a selva na cidade. Os índios amazônicos têm seu
lugar entre os sonhadores da cidade futura. A experiência urbana vivida, contudo, é mais prosaica.
Lembro do desassossego com que, 15 anos atrás, contemplava eu as viagens dos yamina-wa à cidade. Eram viagens sem sentido, sem perspectivas de lá se fixar, sem meios para desfrutá-la. Eram, ainda, viagens que me faziam perder o tempo. Eu tinha ido, como et-nógrafo, estudar a vida dos yaminawa, e isso era algo que deveria acontecer na aldeia. Um índio amazônico na cidade era como um livro privado dos seus signos, sem a sombra de um Cuzco ou duma Tenochtitlan a incluir a urbe no repertório da sua tradição. Eram viagens penosas, miseráveis, empreendidas com os pretextos mais variados, nunca sufi-cientes para dar conta do seu alto preço. Os yaminawa iam à cidade receber uma aposentadoria, o salário de um professor da escola indígena; acompa-nhar um parente internado no hospital, um chefe que fora negociar com as autoridades. Faziam uma trouxa de roupas, carregavam de banana e mandioca recém-colhidas até uma ou duas canoas, e partiam rio abaixo: homens, mulheres, crianças, velhos, sempre gente demais para os fins pretendidos. Outras vezes, um, dois ou três jovens saíam a pé, se-guindo o rio, caminhando pelas águas rasas infestadas de arraias ou cruzando os varadou-ros da selva.
Ainda hoje os yaminawa continuam encontrando na cidade essa vida difícil em que tudo deve se pagar com dinheiro. É difícil que alguém os convide para comer, mas é bem fácil que alguém convide para beber: o álcool abunda na cidade. Esmola-se nas ruas, as mulheres catam comida no lixo infecto que rodeia o mercado municipal, ou se prosti-tuem. Antes ou depois, os viajantes cansam e decidem voltar, ou a autoridade competen-te se irrita com o espetáculo dos índios mendigos e os repatria de volta à sua reserva. Ouvem sermões e recriminações: por que saem de sua aldeia, onde têm terra, roçados, caça e pesca, e vão para a cidade expor-se a doenças, fome, frio e agressões? Concordam de bom grado, porém, a quem podem falar em confiança, eles confessam sua vontade de ver mundo, falam da solidão da aldeia, e da beleza dessas ruas cheias de gente, essa roda-viva de rostos e objetos. Não são caipiras embasbacados, faz tempo que conhecem como ninguém a sarjeta, e sua absorta contemplação dessas ruas, que qualquer viajante euro-peu olharia com desânimo, não é concebível sem uma estética peculiar.
Algo pode se aventurar a respeito dessa estética. Na aldeia, tomando ayahuasca, a be-beragem visionária, esse paradigma dos mistérios amazônicos, os yaminawa vêem exata-mente cidades. Luzes, multidões, milhares de rostos diferentes. Cidades semelhantes à selva, que a ayahuasca também permite ver como uma proliferação de espíritos, de bri-lhos e poderes. Não é uma peculiaridade dos yaminawa, nem sequer é uma visão recém-chegada a um xamanismo reinventado. No prefácio do livro em que apresenta as obras de um pintor da Amazônia peruana - Pablo Amaringo -, Luis Eduardo Luna cita uma co-leção de testemunhos semelhantes, e alguns remontam a meados do século XIX. Visões de cidades é o que prometem a William Burroughs os índios colombianos quando lhe ofe-recem yagé. Os iniciados visitam cidades xamânicas, centros de conhecimento ocultos sob as águas ou em algum sertão celestial. Tais são as cidades que aparecem constante-mente nas pinturas visionárias de Amaringo: altos prédios, cúpulas, agulhas, torres, aero-portos visitados por aviões ou por naves espaciais, urbes fantásticas que lembram fanta-sias ao estilo de La Défense de Paris ou, ainda mais - o próprio Luna sugere essa compa-ração -, as cidades que Hyeronimus Bosch situou no horizonte do seu Jardim das Delí-cias. Os traços brancos sobre um fundo escuro sugerem o brilho noturno das metrópoles e uma arquitetura de aço e cristal. Os índios amazônicos têm seu lugar entre os sonhado-res da cidade futura.
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