Barcelona: o mito do espaço público.

A desigualdade, a exclusão,
a anomia e, inclusive, a violência continuam sendo ingredientes
consubstanciais da existência de uma grande cidade capitalista e
em crescimento.
Barcelona está se tornando o paradigma de um estilo de construção da vida urbana que aparece marcada pela reapropriação capitalista da cidade, numa dinâmica em que os ele-mentos fundamentais e recorrentes são a transformação do espaço urbano em um par-que temático, a gentrificação dos centros urbanos - após a devida expulsão da história -, a terceirização - o que implica a reconversão de bairros industriais inteiros -, a dissemi-nação de uma miséria crescente que não se consegue ocultar, o controle sobre um espa-ço público cada vez menos público, quer dizer, acessível a todos etc. Este processo - de fato já com dimensões globais - requer dos agentes públicos o abandono de sua hipotéti-ca missão de garantir direitos democráticos fundamentais - o de desfrutar das ruas em li-berdade, o da moradia digna e para todos etc. - e a desarticulação do resto daquilo que um dia se presumiu ser o Estado de bem-estar. Num aparente paradoxo, a negligência por parte das instituições políticas em relação ao que se supunha serem suas responsabi-lidades principais em matéria de bem comum foi compatível com um notável autoritaris-mo em outras áreas. Assim, as mesmas autoridades que se revelavam submissas ou ine-xistentes diante do liberalismo urbanístico e seus desmandos podiam despender toda a sua energia para assegurar o controle sobre um espaço público concebido como mero acompanhamento das grandes operações imobiliárias.
No caso de Barcelona, a constatação de que converter a cidade em puro produto de marketing exigia que ruas e praças estivessem sob permanente observação criou a neces-sidade de eliminar ou ocultar qualquer elemento que pudesse contestar a imagem que se pretendia oferecer de um espaço público isento de qualquer ingrediente de conflituosi-dade. De fato, todas as prospectivas acerca do futuro da cidade feitas pelas instâncias po-líticas e urbanísticas que conceberam e empreenderam o "modelo Barcelona" trabalha-vam a partir da suposição de que a intervenção em matéria de desenho urbano e as siste-máticas campanhas em prol do novo patriotismo cidadão, previstas como sua base ideoló-gica, bastariam para que, como num passe de mágica, a cidade inteira se entregasse com entusiasmo à tarefa de sua reconstrução simbólica e morfológica. Mas não foi assim. Como não podia deixar de ser, nem a promoção publicitária e nem a disposição de "espa-ços de qualidade" significaram a pacificação de algumas ruas que não tinham outro remé-dio senão ser testemunho e cenário das novas e velhas formas de miséria urbana, nem a inclinação ao desacato, crônica na história de Barcelona, nem as inevitáveis expressões de desordem que a vida urbana não pode deixar de produzir. E foi assim que, em lugar da amável arcádia de civilidade e civismo em que, segundo os planos, a cidade deveria ter-se convertido, o que continuou flutuando na superfície, à vista de todos, foram as provas de que a desigualdade, a exclusão, a anomia e, inclusive, a violência continuavam sendo ingredientes consubstanciais da existência de uma grande cidade capitalista e em crescimento. A decepção quanto às expectativas de criar uma cidade em que se encenas-se o triunfo final da classe média, o espetáculo de um desastre social que nada fazia se-não intensificar-se, era o que escandalizava as classes altas, que viam o seu sonho de re-cuperar Barcelona para sua utopia civil se desvanecer, tornando-se mesmo inalcançável, ao mesmo tempo em que corriam perigo as perspectivas abertas para a promoção imobi-liária, comercial e turística da cidade.
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