Apropriações da cidade

Sobre Humboldt

A Humboldt promove e acompanha o intercâmbio cultural entre a Alemanha e a América Latina, Espanha e Portugal. Para além de outras opiniões internacionais, a revista também contém artigos de autores oriundos de regiões de expressão ibérica e germânica. A Humboldt dedica-se a debates da atualidade sobre temas da vida intelectual e cultural de ambos os lados do Atlântico.

A revolução urbana

Copyright: Gary Leggett

Sobre a história das cidades

Manchay, Lima, Peru
A história das cidades foi escrita basicamente por pesquisadores ocidentais que trataram sobretudo as culturas clássicas européias. Essa perspectiva eurocentrada deixa de lado, de certa forma, as culturas não-européias e não leva em conta que, na história dos assen-tamentos urbanos, a Europa chegou atrasada. Em algumas regiões, as cidades surgiram cerca de dois mil anos antes do que na Europa greco-romana e quase quatro mil anos an-tes do que na Europa do Norte não colonizada pelos romanos.
Existiam culturas urbanas na Mesopotâmia, no Egito, na Pérsia, na Índia, na China, na América Central e do Sul. O tamanho das cidades antigas geralmente é subestimado por-que a arqueologia trata prioritariamente dos templos e palácios monumentais, enquanto as choças simples de barro, que serviam de moradia para a massa da população, desapa-receram sem deixar rastros. Em 1800 a.C., a Babilônia contava cerca de 300 mil habitan-tes. As populações de Bagdá e da cidade imperial chinesa Changan, em 850, superavam um milhão, assim como Edo - hoje Tóquio - e Istambul por volta de 1700. A história das cidades e das metrópoles não nasceu na Europa, onde apenas por volta do ano de 1800 a cidade de Londres atingiu a marca de um milhão de habitantes.

Colonização

A ascensão da Europa, por volta de 1500, teve como conseqüência a destruição de nume-rosas culturas não-européias. A subjugação de outros povos não constituiu nenhuma no-vidade em si, mas com a colonização atingiu dimensões mundiais. Em um primeiro mo-mento, a dominância européia vestiu a forma de um colonialismo tradicional, ao qual se seguiu, na era da Revolução Industrial, o colonialismo moderno. No século XVI, a coloni-zação européia se concentrou principalmente na América Latina. A capital do reino aste-ca, Tenochtitlan, foi arrasada em 1521 pelos espanhóis que, no mesmo local, fundaram a Cidade do México. A civilização inca também foi devastada, e a população indígena, dizi-mada por guerras, exploração e doenças.
A urbanização colonial dos espanhóis, no entanto, foi única em seu gênero. Por volta de 1700 já existiam no novo continente centenas de cidades e assentamentos, quase to-dos projetados segundo o modelo das Leyes de las Indias (1571), um precoce conjunto de regras de planejamento urbano que continha instruções precisas para a fundação das ci-dades coloniais espanholas. A base era o "tabuleiro de xadrez", herança da cidade colo-nial greco-romana que ressurgiu na Renascença na esteira dos projetos de cidades ideais. Um elemento importante da cidade colonial hispano-americana era a plaza mayor, a praça central como centro da cidade e cenário da dominação colonial. As culturas nativas tinham sido destruídas a tal ponto que não era preciso temer o risco de um contra-ata-que. Geralmente, as cidades coloniais não eram fortificadas e podiam crescer rapidamen-te, mas de forma ordenada - razão essencial para o êxito deste modelo urbano.
O colonialismo moderno começou por volta de 1800, voltado principalmente para a Ásia e a África, onde até então só existiam algumas bases de apoio européias que tinham por objetivo controlar o comércio com escravos, ouro e especiarias. As jovens nações in-dustrializadas buscavam matérias-primas e mercados para a sua produção de mercadorias que não parava de crescer, e neste processo destruíam sistematicamente não apenas o artesanato tradicional dos países subjugados, como também a sua cultura urbana...

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De Eckhart Ribbeck

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