Apropriações da cidade

Sobre Humboldt

A Humboldt é uma revista cultural que promove e acompanha o intercâmbio cultural entre a Alemanha e a América Latina, Espanha e Portugal. Para além de outras opiniões internacionais, a revista também contém artigos de autores oriundos de regiões de expressão ibérica e germânica. A Humboldt dedica-se a debates da atualidade sobre temas da vida intelectual e cultural de ambos os lados do Atlântico.

Felicidade a meio caminho entre o campo e a cidade. Pequenos jardins particulares na Alemanha.

Copyright: Anja Neuefeind & Lucie Persch

Hecken und Kanten - Schrebergartenkultur (2003)
Pequenos jardins particulares
É contraditório o debate público sobre os pequenos jardins particulares, em especial sobre sua versão especificamente alemã, as colônias de jardins que se alinham lado a lado e são conhecidos por Schrebergärten. Ele oscila entre o louvor ao paraíso verde e a aversão à pieguice pequeno-burguesa. O símbolo predileto da felicidade fabulosa imanente ao jardim, a figura do anão de barro, continua vendendo muito bem - mesmo que como caricatura de si própria em lojas chiques de decoração.

A idéia do Schrebergarten nasceu em meados do século XIX de uma carência concreta. Como os espaços verdes nas cida-des estivessem desaparecendo a olhos vistos, em conseqüência da industrialização, o diretor escolar Ernst Hauschild, de Leip-zig, recomendou aos preocupados pais que se juntassem em associações e arrendassem terrenos baldios, a fim de assegurar espaços de lazer para seus filhos. Um ímpeto pedagógico também estava por trás da idéia de cultivar legumes para o consu-mo próprio, que ainda hoje está consolidada na lei federal que regulamenta essa prática na Alemanha. Só que o interesse das crianças pela jardinagem logo diminuiu, e assim o cultivo se tornou um hobby dos pais. Foi assim que começou o loteamento das áreas livres em pequenos terrenos. Tesouros ajardinados, interligados por caminhos arrumados e delimitados por cercas aprumadas.

Os jardins encontram-se no ponto de conexão entre a cultura e a natureza, entre a cidade e o campo. São lugares do reco-lhimento ao privado pautado pela estética. Seu princípio é o limite, o muro, a cerca. São lugares do sossego e da sociabilidade íntima. Mas o que torna o idílio dos pequeno-burgueses tão suspeito? Segundo o antropólogo da cultura Heinz Schilling, a peque-na-burguesia se caracteriza por uma relação ambivalente com a proximidade. Aquilo que está perto oferece por um lado pro-teção e orientação, e por outro estreiteza e comprometimento - a fiscalização recíproca de um lado e outro da sebe. Como o pequeno-burguês não suporta o estranho, transforma-se em adversário da cidade moderna.

Mas, a despeito de toda crítica, os pequenos jardins voltaram a ser chiques. Hoje as vovós e os vovôs não ficam mais sen-tados sozinhos nas casinhas que existem em cada um desses jardins: a idade média dos arrendatários baixou para 47 anos. Políticos e urbanistas também redescobriram o potencial das áreas verdes situadas entre trilhos de trens e anéis rodoviários. Elas fomentam a satisfação das pessoas que vivem nas cidades e contribuem para um "desenvolvimento urbano sustenta-do". Projetos mais recentes reavivam a origem pedagógica da idéia do jardim. A Stiftung Interkultur, por exemplo, mantém desde 2002 em quase todas as cidades de maior porte na Alemanha, mas também no campo, "jardins interculturais". Os pro-jetos têm por meta proporcionar aos migrantes, por meio da jardinagem e com o apoio de assistentes sociais, a possibilidade de "criar raízes" em sua nova pátria e quem sabe até de superar experiências traumatizantes. Ali se encontram pessoas das mais diferentes proveniências, muitas vezes ligadas por um destino semelhante. O jardim transforma-se novamente em espa-ço intermediário, em lugar do encontro e - resta esperar - da integração.

Ulrike Prinz

Copyright: Goethe-Institut, Humboldt

Tradução do alemão: Laís Helena Kalka

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