Presença da morte

Sobre Humboldt

A Humboldt é uma revista cultural que promove e acompanha o intercâmbio cultural entre a Alemanha e a América Latina, Espanha e Portugal. Para além de outras opiniões internacionais, a revista também contém artigos de autores oriundos de regiões de expressão ibérica e germânica. A Humboldt dedica-se a debates da atualidade sobre temas da vida intelectual e cultural de ambos os lados do Atlântico.

Ninguém poderá recompensar nem reparar a orfandade em que ficamos

Onde estao os desaparecidos? Fundación Dos Mundos (Concurso de Fotografía 'Sin Rastro'); Foto: Luis H. AgudeloQuase ao mesmo tempo em que Ingrid Betancourt foi libertada, realizou-se em Bogotá um seminário internacional sobre o desaparecimento forçado: são muitos os reféns que continuam no cativeiro na Colômbia.


“Como meus irmãos desapareceram, espero esta noite na margem do rio que chegue um cadáver para fazer dele meu defunto. A todas nós no porto tiraram alguém, um dos nossos desapareceu, foi assassinado, somos órfãs, viúvas. Por isso, esperamos diariamente os mortos que vêm nas águas turvas, entre as paliçadas, para fazer deles nossos irmãos, pais, esposos ou filhos.” Este é um trecho do conto Sin nombres, sin rostros ni rastros, do escritor colombiano Jorge Eliécer Pardo, vencedor em junho de 2008 do Concurso Nacional de Contos sobre desaparecimento forçado “Sin Rastro”, organizado pela Fundação Dois Mundos, da Colômbia.

“Quando descem sem cabeça, também os adotamos e lhes damos olhos azuis ou cor de esmeralda, de café ou negros, boca grande e cabelos castanhos. Quando vêm sem braços nem pernas, lhes damos uns fortes e ágeis para que nos ajudem a cultivar e pescar. Todos temos nossos anônimos [N.N.] no cemitério, lhes ofertamos orações e flores silvestres para que nos ajudem a continuar vivos, porque os de uniforme chegam arrombando portas, levando nossos jovens e jogando-os despedaçados mais abaixo para que aqueles dos outros portos os tomem por seus defuntos, em lugar de seus familiares. Milhares de esquartejados seguem pelo rio e os pescadores os arrastam para a praia, a fim de recompô-los. Nunca sepultamos uma cabeça somente, mas a unimos a um corpo solitário, com agulhas rombudas e cânhamo, com pontos pequenos para que não os notem aqueles que os encontrando queiram matá-los de novo”, prossegue o vencedor.

Ler os 427 contos inscritos no concurso “foi como abrir a caixa de Pandora“, disse o jurado Guillermo González, diretor da revista cultural Número, de Bogotá. Ele acredita que muitos eram testemunhos reais. Tinha que parar a leitura às 8 horas da noite, “porque senão não conseguia dormir”. Em nenhum dos textos havia denúncias fáceis ou descrições mórbidas. “Surpreendentemente, naquela grande quantidade de relatos havia respeito quanto às palavras e aos acontecimentos, o que é muito mais contundente que a descrição crua dos fatos”.

“Esta noite, fomos para as praias à espera de que desçam outros. Nos disseram que são os massacrados de algumas semanas atrás, os que levaram para a praça principal e assassinaram na frente de todos. Quero que venha um homem trabalhador e bom como os pescadores e agricultores lá de cima, e que eu possa lhe prestar as homenagens que não fizeram quando o fuzilaram. Minhas irmãs vão lançar as tarrafas e as redes para não deixá-los passar, não se sabe se o que lhe cabe é o sacrificado que, com sua morte, acabará a guerra. Aqui, todas nós acreditamos que os defuntos emprestados são os últimos da guerra, mas nas orações nos damos conta de que é uma ilusão.”[…]

“Nos disseram que não somos os únicos no porto, que na Colômbia os rios são as tumbas dos miseráveis da guerra. Os antigos nos disseram que os rios grandes e pequenos sempre abrigaram as vítimas, desde a violência entre liberais e conservadores nos séculos passados, quando elas vinham infladas, flutuando, com um urubu em cima.”

Na Colômbia “a violência dos anos 40 e 50 voltou a surgir, porque essa ferida não foi bem tratada”, disse González sobre a guerra fratricida iniciada em 1946, com uma breve trégua. E o trabalho de artistas, pesquisadores, intelectuais, cientistas, juristas e jornalistas “é fechar esta ferida, que está presente e é muito profunda na alma de todo nós e da Colômbia.”

“O futuro se compõe do presente e do passado, e não se pode construir o futuro sobre milhões de cadáveres. Primeiro, é preciso limpar a ferida e suturá-la. Sem se estar resguardado, não se pode olhar adiante“, concordou o juiz espanhol Baltasar Garzón, que participou de 24 a 27 de junho em Bogotá do seminário internacional sobre o desaparecimento forçado “Sin Rastro”, que reuniu peritos de dez países.

Sob o princípio da jurisdição universal, o juiz Garzón conduziu processos contra crimes de lesa-humanidade cometidos na América Latina. Ele define o desaparecimento forçado como “a humilhação do ser humano até o fim”.

“Quando os olhos estão abertos, nós os fechamos, porque é triste ver o olhar de terror, como se os assassinos estivessem refletidos nas pupilas vidradas. Esses homens armados que ficam no fundo dos olhos dos mortos nos dão medo, parecem dispostos a nos matar também. No porto dizem que muitas pálpebras não querem se fechar para que não esqueçamos dos sanguinários. Nós os enterramos assim, com a marca da dor e da impunidade olhando agora a escuridão dos túmulos”, continua o relato de Jorge Eliécer Pardo.

A cada três dias desaparecem duas pessoas na Colômbia, segundo a Comissão Colombiana de Juristas (CCJ), ONG humanitária com estatuto consultivo junto à ONU. De julho de 2002 até meados de 2007, desapareceram à força 1.259 pessoas. Segundo Gustavo Gallón, diretor da CCJ, a situação é “desastrosa”.

A CCJ interrogou a Procuradoria Geral da República acerca do andamento dos processos de 452 casos de desaparecimentos forçados entre dezembro de 2002 e novembro de 2007.

Um está na etapa de juízo, outro em etapa de instrução e três em investigação prévia. Sobre 51 casos existe “algum tipo de investigação”, 125 não estão sendo investigados e sobre o restante a Procuradoria “não respondeu os direitos de petição”, disse Gallón. Ninguém sabe o total dos desaparecidos. Já desde meados do século, era possível escrever um conto idêntico ao que ganhou o concurso em 2008.

Considera-se que houve uma trégua no desaparecimento forçado entre 1957 e 1977. A prática ressurgiu ainda antes de os narcotraficantes terem criado os grupos paramilitares de ultradireita em 1983, à imagem e semelhança dos bandos armados que trabalhavam com o poder público nos anos 40 e 50.

A Comisión Nacional de Reparación y Reconciliación, criada em 2005 de acordo com a Lei de Justiça e Paz, que regulamenta a desmobilização paramilitar, calcula em 20 mil o número de desaparecidos.

Três por cento dos casos são atribuídos a grupos guerrilheiros de esquerda. “Cerca de 97 por cento desses desaparecimentos comprometem funcionários do Estado. Por participação direta de agentes estatais, 28 por cento. E por tolerância ou apoio a desaparecimentos comandados por grupos paramilitares, 69 por cento”, segundo o advogado Gallón. A autoria atribuída diretamente ao poder público se quadruplicou nos últimos cinco anos.

O governo esperava “um tanto de verdade, um tanto de justiça, um tanto de reparação”, como disse em seu discurso no plenário Luis Carlos Restrepo, Alto Comissário para a Paz, negociador da desmobilização paramilitar, o que conseguiu parcialmente.

Mas a Lei de Justiça e Paz teve outro efeito, pois a Corte Constitucional exigiu da ultradireita a “verdade total”como condição para o acesso a benefícios judiciais que prevêem o máximo de oito anos de prisão por delitos atrozes. Muitos optaram por confessar.

Embora em regiões como San Onofre, município do departamento de Sucre no noroeste do país, as mães dos desaparecidos ainda baixem a voz para falar sobre seus filhos com a jornalista, porque acham que os “desaparecedores” fazem parte do poder institucional.

Ou em La Dorada, no departamento meridional de Putumayo, onde os paramilitares advertiram uma mulher humilde, que falou tremendo com esta jornalista em junho de 2007, dizendo que matariam seus cinco filhos, se ela contasse que em sua propriedade havia um cemitério clandestino.

Participaram também do seminário “Sem Rastro”, organizado também pela Fundação Dois Mundos, famílias de desaparecidos do Chile, da Argentina e Guatemala. A diferença entre esses países e a Colômbia é que eles procuram por seus desaparecidos, depois do fim das ditaduras ou da guerra. O mesmo ocorre na Espanha.

A Unidade de Justiça e Paz da Procuradoria Geral tem destacamentos forenses que trabalham com garra, abrindo túmulos anônimos em cemitérios de povoados ou entrando em territórios de guerra para procurar cemitérios clandestinos.

Todas as equipes judiciárias que estão procurando valas comuns foram declaradas alvos militares. Muitas vezes, encontram a terra revolvida, as covas vazias. Outras vezes, troam rajadas de balas e explosões. Mesmo assim não se dão por vencidos. “Entregar os mortos a seus familiares” é o objetivo mais importante de um trabalho que todos eles fazem por convicção, disse o antropólogo forense Jaime Castro no programa de televisão Contravía, comandado pelo jornalista Hollman Morris e financiado pela União Européia.

Em busca da verdade perdida; Fundación Dos Mundos (Concurso de Fotografía 'Sin Rastro'); Foto: Jaime Pérez MunévarJá foram mais de mil exumações e um terço dos corpos foram identificados. Mas não aparecem os desaparecidos dos anos 79, 80 e 90. “Estão retirando apenas os mais recentes”, segundo Glória Gómez, presidente da Associação Colombiana de Familiares de Presos Desaparecidos, que já tem “25 anos de buscas intermináveis”. Dentre os identificados e entregues às suas famílias, a Procuradoria Geral não informa quantos, na realidade, eram paramilitares cujos restos foram localizados por seus próprios ex-companheiros para receber os benefícios legais.

O Movimento das Vítimas de Crimes de Estado ainda não sabe como consolar as viúvas errantes que procuram seus mortos que foram jogados nos rios. Em março de 2008, houve uma grande manifestação em memória das vítimas. Para lembrar dos milhares que tiveram uma mortalha de algas, a homenagem teve início com o lançamento de outros tantos milhares de flores no porto central de Flandes, no rio Magdalena, que atravessa a Colômbia de sul a norte e desemboca no mar do Caribe.

“Meu esposo foi, com certeza, redimido por outra mãe desconsolada, mais abaixo daqui, porque soubemos que o arremessaram nu e retalhado, acusaram-no de ligação com os grupos armados. Ele terá outras mãos e outra cabeça, mas não deixará de ser o homem que amarei para sempre, mesmo que o tenham arrancado de mim, envolto em minhas lágrimas. Secou a água dos meus olhos, mas não o ódio. O perdão, o esquecimento e a reparação foram para mim uma ofensa. Ninguém poderá pagar nem reparar a orfandade em que ficamos. Ninguém. Nem mesmo o rio que nos devolve as migalhas, nos dá comida para viver e nos entrega os mortos para que não percamos a esperança.”

“Neste círculo de degradação humana, a parte mais necessitada de proteção são as vítimas”, mas por sua vez “se não for com o apoio delas, a Justiça não pode exercer o seu papel”, advertiu o juiz Baltasar Garzón.

As fotografias que acompanham este artigo fazem parte das 70 selecionadas no Concurso de Fotografia “Sem Rastro”, realizado pela Fundação Dois Mundos, junto com outras entidades.
Constanza Vieira
(Colômbia), jornalista. É correspondente de Inter Press Service (IPS). Prêmio de rádio em 1996 da Associação de Imprensa Estrangeira na Colômbia por uma reportagem na emissora de rádio Deutschlandfunk. Prêmio Richard De Zoysa de Excelência em Jornalismo Independente em 2005, categoria Coberturas Perigosas. Bolsista da Avina em 2006–2007 em Pesquisa Jornalística para o Desenvolvimento Sustentável da América Latina.

Tradução do espanhol: Maria José de Almeida Müller
Copyright: Goethe-Institut e. V., Humboldt Redaktion
Dezembro 2008

    Encomendar já

    Encomendar já

    Os leitores interessados podem encomendar agora a Humboldt através da loja Goethe online.
    8,50 € sem custos de envio
    Ir para a loja Goethe online ...

    Formulário de requisição

    Destinatários institucionais ou pessoas do espaço linguístico ibero-americano, oriundas da área da comunicação social ou cultural, podem solicitar uma assinatura gratuita.
    Ir para o formulário de requisição ...