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Sul como crítica
Será que o Sul Global pode ser uma categoria que produz uma crítica da política econômica de produção e circulação de conhecimento?

A categoria do Sul Global só surgiu após o fim da Guerra Fria, em meados dos anos 1990, quando o mundo começou a ser concebido como único, como uma totalidade mais ou menos homogênea.

Gostaria de sugerir que a Globalização e o mundo globalizado são termos militares, categorias geopolíticas originadas nas vitórias e derrotas em guerras transnacionais. Essas categorias também são financeiras, já que seu crescimento acompanhou a hegemonização progressiva da economia e da sociedade através do capital financeiro transnacional. “Sul Global”, uma categoria que se tornou possível devido a essa nova condição globalizada, refere-se a várias regiões dispersas, que ocupam um espaço periférico nessa nova ordem geopolítica e militarizada, cujas temporalidades são calibradas pela velocidade dos mercados financeiros.

O Sul é um território sem fronteiras definidas. Ele pode ser concebido como uma série de histórias paralelas, comparáveis. O Sul foi basicamente moldado por processos de violência, repressão, segmentação política colonial e neocolonial, e por trajetórias interconectadas de imperialismos políticos e econômicos, colonialismos externos e internos, interrupções dos projetos de nação-Estado e nacional-populares. Hoje, o Sul Global também pode ser concebido como uma série de espaços que emergem de processos pós-totalitaristas.

Os conflitos internos e as crises do Sul foram vastamente originados pelos sistemas transnacionais que conectaram diferentes regiões do mundo. Na verdade, uma das tarefas críticas da universidade hoje é promover estudos comparativos Sul-Sul. As diversas regiões do Sul Global deveriam ser abordadas num plano político e epistemológico comparativo.

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O estudo das transições democráticas na América Latina nos anos 1980 ilumina processos similares que ocorreram posteriormente na África. Definições estatais de raça, etnia e indigenismo derivadas do colonialismo e herdadas pelos Estados pós-coloniais da África e Ásia são terreno fértil para se repensar de uma maneira diferente as estruturas sociais predominantes na América Latina.

Mecanismos coloniais de âmbito global, tais como planos de ajuste estrutural e a crise do débito soberano, assim como técnicas de ocupação militar e de contrainsurgência, articulam histórias políticas, temporalidades econômicas e espaços transregionais díspares. Hoje a dinâmica do capitalismo extrativista, com seus métodos, agentes e efeitos que se repetem através das regiões e subcontinentes, também pavimentam o caminho para o trabalho epistemológico comparativo dentro de perspectivas Sul-Sul.

Universidades sediadas tanto no Norte quanto no Sul estão firmemente inseridas nesse contexto geopolítico de financialização e militarização, embora em graus e de maneiras diferentes. Desenvolvimentos relativos à segurança, defesa, finanças e imóveis estão por trás das transformações cruciais pelas quais as universidades estão passando em termos de financiamento, da privatização dos cortes de orçamento da educação superior pública, realocação de recursos, encerramento de programas, promoção da engenharia e da ciência aplicada e o crescimento exponencial das estruturas administrativas burocráticas. Uma tarefa corrente de uma universidade crítica também é pesquisar a lógica governamental, militar e financeira por trás da transformação, redução e terceirização aparentemente inevitáveis da universidade.

Como o Sul Global ocupa esse espaço fronteiriço nos processos de globalização, talvez o termo possa ser utilizado, em toda a sua ambiguidade, como fármaco (veneno e remédio ao mesmo tempo), como uma estrutura crítica para repensar a produção de conhecimento global e as interações dos centros acadêmicos de várias regiões na globalização. Talvez o próprio Sul possa ser postulado como crítica.

A categoria do Sul Global pode funcionar como catalisador para repensar as tarefas críticas da universidade. Pensar o Sul significa suspender as hipóteses gerais sobre a universidade defendidas no Norte que atualmente vêm sendo exportadas como um novo paradigma universal. Questões sobre a composição dos corpos docente e discente, linguagem, financiamento, relações entre pesquisa acadêmica, política e movimentos sociais e a esfera pública geralmente adquirem contornos diferentes no Sul.

Ao se refletir sobre o projeto e a promessa do Sul Global, podemos utilizar a expressão “Sul pensante” para nos referir à produção de conhecimento social situada nas regiões do mundo periféricas em relação aos processos de globalização. Considerando que as definições territoriais do Sul são imprecisas, talvez ele possa ser pensado como um evento, como a materialidade de uma certa experiência e como a produção de um pensamento autônomo sobre essa experiência.

Embora Norte e Sul sejam termos extremamente gerais e o modelo financeiro de acumulação chamado de globalização não seja teleológico e implique que enclaves de “Sul” se localizem no Norte e vice-versa, ainda há algumas características que podem ser apontadas.

Ao contrário da maior parte do Norte, o Sul pode ser definido, de maneira geral, como um mundo econômico e social marcado pela precariedade e instabilidade. O Sul é uma série de territórios em que a maioria dos efeitos negativos socioeconômicos, ambientais e de violência da globalização são vivenciados e sofridos em alto grau, dada a natureza frágil e instável das texturas sociais, infraestruturas e instituições locais.

Pode-se argumentar que o Sul frequentemente se situa na vanguarda dos processos políticos e econômicos globais, como foi o caso das políticas neoliberais implementadas pela primeira vez na ditadura militar da América Latina, sob a recomendação de economistas da Escola de Chicago nos meados dos anos 1970, e apenas mais tarde reimportadas pelos Estados Unidos e pela Europa nas administrações de Reagan, Thatcher e Giscard d’Estaing. Algo semelhante pode ser dito sobre os efeitos do endividamento massivo causado pelos ajustes estruturais dos anos 1980, ou o impacto das indústrias extrativistas a partir dos anos 1990.

Evidentemente, o termo Sul vem desempenhando um trabalho epistêmico e político muito concreto e crucial no discurso sobre os potenciais de um mundo globalizado que tornou necessária sua emergência forte e repentina.

Uma hipótese de trabalho poderia postular o Sul, ao mesmo tempo, como um território geográfico (áreas periféricas para além dos Estados Unidos e da Europa Ocidental) e um espaço de relações econômicas determinado por dívídas, desenvolvimento heterogêneo e um modelo extremamente desigual e extrativista de acumulação determinado pelo sistema econômico capitalista e estratégias políticas que vigoram desde 1945. Essas são dinâmicas que reproduzem estratégias globais de poder e dominação que estabelecem pontos nodais tanto no Norte quanto no Sul.

É crucial não pensar no Sul em termos territoriais, como uma questão de espaço ou escala, mas, antes, como uma forma-de-vida, explorando emaranhamentos e mediações entre campos que a modernidade ocidental apresentou como diferentes e separados, e que aparecem no Sul em diversas temporalidades e conexões interconectadas, produzindo formas institucionais singulares, texturas de vida cotidiana e subjetividades não-humanistas.

O Sul é um conjunto de formas-de-vida singulares que gerou sua própria maneira de pensar sobre as texturas que elas habitam. A teoria do Sul recombina de diversas maneiras as relações metafísicas clássicas entre sujeito e objeto, e a metafísica de presença e dominação estabelecida entre o sujeito e o mundo que foi herdada e organiza os epistemas ocidentais modernos.

O “Sul” pode ser pensado como um imaginário, uma perspectiva epistêmica integrada em relações socioeconômicas e um modelo de desenvolvimento que gera uma perspectiva diferenciada sobre o social. Pode-se argumentar que, ultimamente, algumas das teorias mais avançadas sobre o social e suas crises recentes foram criadas no “Sul”, na esteira da perda de centralidade e progresso do pensamento do Norte.

No Sul, normalmente as fronteiras rígidas entre a universidade e a esfera pública, o político, o Estado, movimentos sociais, ativismo e mídia são porosas. Isso pode estar mudando devido à recente expansão da globalização financeira, à globalização dos sistemas americanos de avaliação métrica da produção do conhecimento, e à predominância de certos periódicos e editoras do Norte.

A teorização do social criada no Sul não é produzida apenas por acadêmicos, mas também por intelectuais públicos e movimentos sociais e políticos em reposta à demanda da esfera pública, das estruturas sociais e da política. Esse contexto de produção de conhecimento, vagamente determinado pelas fronteiras difusas entre as áreas e gêneros e inclinado fortemente pelas transformações sociais, posiciona o pensamento do Sul num plano muito diferente, se comparado às teorizações produzidas no relativo isolamento da universidade do Norte ou ao conhecimento técnico especializado dos centros de pesquisa privados.

Hoje, a teoria do Sul também é produzida por movimentos sociais de base que teorizam suas próprias práticas de organização e ação, assim como as condições socioeconômicas locais e o impacto do fluxo global de capital, tecnologia e informação.

Pode-se argumentar que, da mesma forma como em termos políticos e econômicos o local produz inflexões e tensões que mediam e refratam o global modificando-o, a teoria do Sul produz uma inflexão no próprio pensamento. Isso gera uma modulação ou nuance na maneira como o pensamento vem sendo concebido a partir da modernidade clássica ocidental. Essa percepção implica em considerar o pensamento do Sul como uma perspectiva singular sobre o mundo dos imaginários sociais, para além de todo nativismo ou chauvinismo, ou tentativa fútil de recuperação de cosmogonias supostamente intocadas ou de cosmovisões ancestrais.

A teoria do Sul cria suas próprias estruturas conceituais e institucionais. Sua meta é destronar as dicotomias clássicas entre o universal e o particular. Seu objetivo é reorientar os parâmetros de pensamento gerados no Norte (antigamente, a Europa, hoje, também, os Estados Unidos) e o mandato para adaptá-los aos processos regionais definidos como meros casos etnográficos e histórias locais.

Longe de meramente adotar e reproduzir conceitos gerados no Norte, a teoria do Sul retoma suas formas e ideias, reelaborando-as profundamente, traduzindo-as para versões locais que as modificam profundamente, em resposta a condições socioeconômicas locais.

A globalização econômica não gerou uma padronização do conhecimento, mas, antes, tornou possível que os teóricos do Sul tivessem acesso a toda uma série de teorias que ainda não havia circulado globalmente. A disseminação e hibridização dessas teorias sofreu modificações imprevisíveis que relativizaram a hegemonia absoluta desses conceitos ocidentais, tornando possíveis práticas de bricolagem intelectual no âmbito da teoria social, política e estética. Essa ordem material e institucional também provoca o surgimento de epistemologias e metodologias adequadas para o Sul, que, mesmo permeadas pela falta de infraestrutura e recursos financeiros, criam respostas para problemas exclusivamente locais.

Esse panorama de conceitualização epistêmica e metodológica inovativa, normalmente materializada sob a forma do ensaio, contrasta com o restante da produção de conhecimento social no Sul, que apresenta sobretudo uma vertente tecnocrática, determinada principalmente pela pressão e orientação ideológica de agências financeiras multilaterais e da indústria do desenvolvimento. Esse tipo de conhecimento social circula sob a forma das publicações acadêmicas secas, padronizadas e indexadas, do levantamento taxonômico e do relatório de consultoria. Em meio à crise econômica da universidade em economias empobrecidas e endividadas, agências de desenvolvimento tornam-se as instituições que mais encomendam pesquisas sociais voltadas à busca de soluções para problemas técnicos e à redução do político a um cálculo utilitário e a práticas de “boa governança” “aberta”.

Para medir a dimensão e a relevância das teorias produzidas no Sul, é necessário discutir o contexto institucional vigente e o financiamento da produção de conhecimento social no Sul. Quais elites sociopolíticas são legítimas criadoras de teorias? Elas podem coexistir com o surgimento de novos agentes epistêmicos que também teorizam o social? Como o fluxo de capital possibilita a teorização do social hoje? Quais são as batalhas estratégicas atuais a respeito das decisões sobre que áreas e objetos de pesquisa serão privilegiados?

A criatividade da teoria do Sul instiga o debate sobre a economia política global do conhecimento. Qual é o valor agregado fornecido pela teoria produzida no Sul para os mercados do capitalismo cognitivo contemporâneo e a sociedade da informação, para a qual o conhecimento é a principal força da produção? Quem teoriza o Sul? Quem tem acesso aos conceitos e informações importados do exterior, que podem então ser modificados, preparando o terreno para a criação de conceitos novos e regionais?

Teoria: a questão do Sul

Em seguida, precisamos dissecar as estruturas da hierarquia e a dinâmica da acumulação e circulação da teoria. As críticas recentes são bem conhecidas e apontam o fato de que, enquanto o Sul é visto como um repositório de dados e evidência bruta para ilustrar fatos empíricos, o Norte constitui o lugar onde os dados são extraídos para serem processados e transladados em teoria.

A teoria do Sul questiona esse status quo internacional e a imagem do Sul como um arquivo de catálogos, taxonomias e bases de dados, conceitualizando e produzindo novos discursos abstratos e imagens e constelações de pensamento originadas em histórias regionais, conhecimentos locais e experiências subjetivas e comunitárias, muitas vezes sem sincronização com as temporalidades e lógicas prevalecentes no Norte.

Desde as filosofias do Iluminismo até a teoria da modernização dos programas de desenvolvimento, a modernidade ocidental foi tomada como modelo verdadeiro e original e parâmetro do progresso. Todos os outros processos modernistas no Sul foram normalmente vistos como meras cópias degradadas ou imitações imperfeitas e inacabadas. Nas teleologias lineares da razão, o Sul (o Oriente, o Terceiro Mundo, o mundo não-alinhado, em suma, o Outro) sempre foi representado como se fosse atrasado. Seu melhor futuro é geralmente retratado como o eterno retorno do mesmo, e suas mudanças históricas são compreendidas como chegadas tardias.

Críticos no Norte Global geralmente esperam que a produção estética do Sul só venha a representar histórias locais e “alegorias nacionais”. A produção estética ou intelectual do Sul Global aparentemente precisa ser apresentada como um simulacro, uma cópia mais ou menos exótica do universalismo liberal do Ocidente.

Em contraste com esse estado de coisas, o Sul emerge hoje como espaço de profunda experimentação que, recombinando as ricas linguagens artísticas, intelectuais e políticas e as tradições do passado, pode estar prevendo o futuro próximo do próprio Oeste. Enquanto as colônias sempre foram o laboratório inicial da modernidade, hoje há um estranho sentimento ampliado a respeito das formas em que o desenvolvimento político, econômico e cultural no Sul pode antecipar os contornos do futuro euro-americano.

As conexões vigentes entre conjuntos de produção e mecanismos de memória e informação, a própria teoria, podem ser equiparadas ao capital. Assim, as matérias brutas de um mundo colonial mais antigo, ou do Sul de hoje, que se transformam em produtos com valor agregado no Norte, podem ser equiparadas aqui com os dados brutos, não processados, da pós-colônia atual, ou do “Sul Global”, que se transformam em teoria depois de serem processados analiticamente por autores do Norte.

A categoria do Sul Global é uma ferramenta heurística com grande potencial, mas também é um termo problemático que abrange tudo, que pode excluir diferenças profundas entre regiões como a Ásia e a África, ou a localização e o papel ambíguos de um poder econômico e militar como a China.

Na ordem global de hoje, que é um sistema de entradas múltiplas, uma tela diversificada e texturizada, os termos “global”, “regional” e “local” não se referem a escalas, mas a ritmos e temporalidades, assim como a várias dobras e dimensões emaranhadas.

O termo “Sul” alude ao conjunto de relações que sinalizam as múltiplas causalidades e o direcionamento não linear dos fluxos globais. Ele constitui um conjunto de linhas de fuga e de intensidades, formações e informações materializadas, que dá nova orientação ao debate sobre os universais e os particulares, e os centros e as periferias da modernidade.

É necessário ativar o contexto histórico do passado colonial das estruturas globais vigentes, a fim de reverter as formas prévias (e hoje globais/(neo)liberais) de produção e distribuição do conhecimento e de produção da linguagem e seu raciocínio teleológico excludente. Para compreender a natureza aporética do momento global contemporâneo, podemos deixar para trás o projeto de “provincializar a Europa” e, em vez disso, aspirar à “universalização do Sul” e demonstrar como regiões como o Sahel, os Andes, Bengala, o Oceano Índico e o Mediterrâneo não são meros locais específicos a serem submetidos à racionalidade ocidental, mas constituem polos de potencialidade posicionada na vanguarda de empreitadas intelectuais baseadas em séculos de texturas históricas e formações culturais.

Para concluir

Se a universidade for realizar sua função de intervir em prol do desenvolvimento, inclusão e justiça social, então outra tarefa crítica atual da universidade é sua função de abordar e reparar as desigualdades entre as universidades do Norte e do Sul. Isso implica encorajar mais colaborações e intercâmbios num plano comum, imaginar novas formas de triangulação entre regiões, assim como promover uma circulação de conhecimento internacional mais horizontal.

As questões em jogo são: quem está legitimado a ter uma perspectiva comparativa global?; quem pode postular sua própria imaginação local e particular como uma imaginação nova e universal?; quem ocupa uma posição vantajosa que permita escrever a história global?; podemos pensar o mundo a partir da África, da América Latina ou da China?

Atualmente, há novas articulações e desarticulações entre a universidade do Norte Global e a do Sul Global, ocasionadas pelos fluxos globais e pelo projeto recente de internacionalização da educação superior.


Juan Obarrio é professor de Antropologia na Universidade Johns Hopkins (EUA) e trabalha nas áreas de Teoria Crítica e Antropologia Política, com enfoque em temas como Estado, democracia, Direito, violência, tendo conduzido diversas pesquisas no Sul da África e na América do Sul.

Tradução: Renata Ribeiro da Silva