Junho 28. 2017 Filhos de Bach: entrevista com Ansgar Ahlers

Cena do filme Filhos de Bach
Divulgação

No dia 26 de maio de 2017, o filme Filhos de Bach, coprodução entre o Brasil e a Alemanha, foi apresentado no espaço da Biblioteca do Goethe-Institut Rio de Janeiro. A sessão especial gratuita e exclusiva para o projeto Goethe Kino aconteceu anteriormente à estreia do filme nas salas de cinemas do Brasil. 

Filhos de Bach conta a história de Marten Brückling, um ex-professor de música desiludido com a vida e que se vê surpreendido com a notícia de que seu grande amigo da adolescência havia deixado para ele uma partitura original de Johann Sebastian Bach. Ele hesita com a notícia ao saber que para receber a herança terá que fazer as malas correndo e recebe-la pessoalmente no Brasil. Após vencer suas inseguranças e chegar na cidade de Ouro Preto, Minas Gerais, uma série de infortúnios acabam prolongando sua estada, fazendo-o conviver e conhecer de forma mais profunda a cultura brasileira, tão diferente da alemã. Para conseguir retornar ao seu país, Marten terá que contar com a ajuda dos seus novos amigos e alunos de uma instituição para jovens que o pediram para que ele os ensinasse música.

O filme trata de encontros entre diferentes culturas e mundos e as transformações que estes desencadeiam em cada um. Seu diretor, produtor, roteirista e supervisor musical, Ansgar Ahlers, esteve no Brasil por ocasião do lançamento do filme e conversou com Julia Levy no Goethe-Institut Rio de Janeiro sobre os detalhes da produção e suas expectativas sobre a recepção do filme pelo público brasileiro.           
 
Imagino que você já tenha respondido a essa pergunta muitas vezes, mas gostaria de começar do começo: como nasceu sua relação com o Brasil? Porque você conheceu e visitou o país?

Meus filmes de curta-metragem fizeram um certo sucesso no Brasil. Fiquei me perguntando o porquê disso e falei para mim mesmo que eu precisava ir lá e entender esse porquê. Então eu vim [durante o Festival Internacional de Curtas de São Paulo] e já no meu primeiro dia, num país e num continente que eu nunca havia estado antes, encontrei um grupo de cinema que me mostrou um projeto numa favela que me levou a dizer a eles: vamos fazer um projeto juntos(!). Nós fizemos esse projeto e eu voltei um ano depois para realizar em Cuiabá um documentário para a Associação Alemã de Leprosos. Durante as gravações, eles me mostraram um coral de crianças e eu me deparei com uma frase: “música pode mudar muita coisa”. Essa frase ficou na minha cabeça, pensei nela por muito tempo e foi o início da história de Filhos de Bach. A partir daí comecei a fazer muitas pesquisas, visitar instituições socioeducativas, entrevistar políticos e crianças, conversar com pessoas que trabalhavam com projetos sociais. Descobri que Bach realmente influenciou a música brasileira. Conversei com historiadores de música no Brasil e pessoas do Arquivo de Bach na Alemanha e assim comecei a desenvolver a história baseada em fatos reais, mas tentando adicionar uma história emocional também.
 
Podemos dizer que a forma como a produção desse filme se deu acabou influenciando a sua relação com o país?

Desde o começou, eu me senti conectado com o Brasil. Sou casado com uma brasileira há 9 anos – isso aconteceu no meio do caminho (risos!). Desde o meu primeiro dia no Brasil, o que adorei foi essa forma aberta de pensamento de que “tudo é possível”, sempre se tentando ver o lado positivo das coisas, o que sinto falta muitas vezes na Alemanha. Tentei capturar esse sentimento e colocá-lo no filme.
 
Embora você tenha uma trajetória com filmes de curta-metragem exibidos em festivais importantes e projetos desenvolvidos em outros países, a produção de Filhos de Bach me parece um projeto ambicioso para um primeiro longa-metragem de ficção: é uma coprodução internacional; possui parceiros investidores multinacionais; elenco formado por atores profissionais reconhecidos internacionalmente e não atores; equipe formada por profissionais de diferentes origens, duas línguas distintas, diversas locações etc. Essa produção foi um grande desafio para você como diretor?

As coisas mais difíceis que você pode fazer num filme são: uma coprodução, trabalhar com crianças, trabalhar com números musicais, trabalhar com locações originais e todos esses elementos estão nesse filme! É claro que foi um período difícil para mim. Primeiramente, passamos muitos anos tentando realizar a coprodução em si visto que não existem muitas coproduções entre os países (Alemanha e Brasil) e essa é uma coprodução verdadeira, ou seja, cada lado conta cinquenta por cento do projeto, tanto do lado do financiamento do filme, do elenco, da equipe. É sempre muito complicado realizar esse tipo de projeto e isso nos rendeu muito tempo para ficar pronto.

Por outro lado, quando estávamos filmando e tínhamos diferentes culturas, crianças no elenco que não falavam alemão, atores alemães que não falavam português e a comunicação no set era feita em três línguas, claro que isso era complexo, mas às vezes aconteciam coisas engraçadas nas filmagens e sempre achei que isso era importante de ser feito. O mundo tem muitos problemas que às vezes parecem aumentar, mas o mundo também está ficando menor, é mais fácil viajar, a internet aproximou as pessoas, e para coloca-las juntas e trabalhar num ambiente como esse, acho que a coisa mais importante foi aproximar as culturas e tentar mostrar as coisas positivas que podem acontecer com esses encontros, o que é possível aprender com cada parte envolvida, com essa troca de experiências.
 
Como você se preparou para enfrentar essa produção; como foi a preparação com a equipe, com o elenco, duração dos ensaios?

Filmar é uma coisa muito estruturada. Onde quer que você vá filmar no mundo, essa estrutura é mais ou menos a mesma, guardadas, obviamente, as mentalidades típicas de cada local. Mas eu comecei a me preparar em 2006 quando a ideia nasceu e até as filmagens em 2014 aconteceram muitos encontros, reuniões, diversas visitas de pesquisa de locações, fizemos muitos ensaios para as crianças, mas você nunca está preparado exatamente para o que pode acontecer no set, então você também precisa ter experiência. Felizmente eu trabalhei muitos anos como assistente de direção e fiz diversos projetos em diferentes países. Mas você precisa mergulhar no projeto. Claro que estava tudo muito bem preparado, tinha tudo planejado, mas, no set, você ainda precisa estar aberto, porque mudanças podem acontecer e podem ser para melhor e você precisa saber compreender esses momentos.
 
Você contou com um bom apoio dos seus coprodutores brasileiros para a parte que dizia respeito ao Brasil?

Claro! Eu sempre quis fazer um filme de ficção e tentei fazê-lo por muitos anos na Alemanha, mas minha forma de contar histórias é mais voltada para o humor, mesmo com personagens dramáticos. Mas essa forma de se contar uma história é mais difícil de ser aceita na Alemanha e, no Brasil, as pessoas adoraram a ideia desde o início(!). O produtor Leonardo Monteiro de Barros foi um dos principais entusiastas do filme. Ele próprio tem uma relação forte com a música clássica, já foi executivo de um selo alemão de música clássica, e ficou muito tocado com o projeto desde o início. Então posso dizer que foi aqui, no Brasil, onde a produção começou e depois os alemães foram entrando cada vez mais. A Disney por ser um importante parceiro aqui, entrou no filme com a maior parte do dinheiro,  fazendo com a produção tivesse que andar para a frente.
 
Em relação à preparação do elenco, visto que a música era um elemento intrínseco à narrativa e aos personagens, e que você também tem formação musical e assina a supervisão musical do filme, como foi o preparo musical do elenco; como foram os ensaios para que os atores a interpretassem da forma mais natural possível?

Na verdade, tínhamos uma composição bastante heterogênea do elenco infantil. Alguns tinham experiência e se formaram com o Grupo Nós do Morro (Vidigal, Rio de Janeiro), mas tínhamos algumas crianças sem experiência. Um dos meninos, por exemplo, ficava correndo pelos arredores do set, veio até mim e eu pensei que esse era exatamente um dos personagens que descrevi no roteiro, então porque não o aproveitar no elenco? Claro que existiam diferenças de trabalho, mas eu tinha experiência com crianças e nós sempre apoiávamos muito elas, não apenas durante a agenda de trabalho, mas para que elas pudessem estar nos seus personagens o máximo de tempo possível e pudessem se ver como um grupo e isso funcionou muito bem, no final eles eram como irmãos e foi muito bom vê-los trabalhando realmente juntos.
 
E qual foi o período de preparação, quantas semanas?

Foram quatro semanas de filmagem no Brasil e sete dias na Alemanha. As preparações variaram de tempo, alguns dois meses, outros três meses. Eles tiveram um preparador exclusivo para as cenas e também tiveram aulas de música. Mas também foi importante escolher alguns músicos profissionais para o elenco, porque se você quer que o público acredite realmente que as crianças de uma instituição socioeducativa estão tendo uma oportunidade e podem formar uma boa orquestra, a música precisava passar isso de forma realista.
 
E você também é o supervisor musical do filme?

Sim, eu procurei as músicas, durante a escrita do roteiro escolhi as faixas das músicas, mas nós fizemos todas as versões especialmente para o filme. Todas (as músicas) são novas e versões especiais para termos o Brasil e a Alemanha juntos em novas harmonias. Mas voltando ao elenco jovem, Julia é realmente violinista e toca muito bem, Pedro é perfeito com o violão. Já Pablo Vinícius, que interpretou o Fernando, ele não sabia tocar cavaquinho mas aprendeu em cinco semanas(!). Nós fizemos uma preparação especial com ele, e ele realmente se empenhou. Mas eu nunca tive receio de que elas (as crianças) não fossem conseguir porque o Brasil é muito musical e elas tem muita ligação com a música e isso funcionou bem.

E a propósito, eu tenho uma excelente história sobre o Pablo (Vinícius). Quando eu estava selecionando as fotografias da pesquisa do elenco, quando vi a foto do Pablo, enxerguei algo trágico em seu olhar. E ele é, realmente, órfão de mãe. Quando ele era criança, ele a perdeu de forma trágica e veio morar com a tia no Rio de Janeiro. Então, de forma intuitiva, eu o escolhi para o papel do Fernando. Acredito que por isso o filme para ele tem uma conexão tão forte – o personagem de Fernando também perdeu a mãe – ele entendeu que esse era o “seu” filme e acho que por isso ele aprendeu a tocar cavaquinho em cinco semanas. E o que há de interessante sobre o ator principal, o alemão Edgar Selge, é que seu pai era diretor de uma instituição socioeducativa para jovens. Então, durante as filmagens na Alemanha, ele convidou as crianças para sua casa e para oferecer uma apresentação de piano e socializar e aproximar a todos o que realmente aconteceu. No filme, você sente esse entrosamento entre eles e uma conexão realmente verdadeira entre os dois principais protagonistas, Marten e Fernando.

Além da música, podemos ver um trabalho cuidadoso com a fotografia do filme. E você escolheu um diretor de fotografia bastante experiente e conhecido internacionalmente. Como vocês se aproximaram e ele entrou no seu filme? Como vocês chegaram nesse conceito fotográfico?

Eu procurei as locações do filme por muito tempo. Por muitos anos, voltei à cidade de Ouro Preto e tentei encontrar os melhores ângulos para fotografá-la e acabei por encontrar alguns especialmente bons como o ângulo onde está o orelhão do filme que na verdade não existe ali, mas que é uma das melhores visões da cidade (e que não sei porque não é utilizado no marketing da cidade) e eu só tive que colocar um telefone falso naquele lugar. A outra questão é que Jörg (Widmer) é maravilhoso e tem uma experiência incrível, trabalhou com Wim Wenders em Buena Vista social Club e Pina e seu trabalho é muito reconhecido internacionalmente. Ele foi um dos últimos membros da equipe a entrar no projeto, o que me deixou muito feliz. Ele é um grande amigo de outro profissional com quem já trabalhei e foi assim que o conheci. Mas, o principal é que tínhamos um entendimento semelhante sobre o que seria o filme e como queríamos fazê-lo. Obviamente, queríamos captar a luz da cidade e seu cenário, tínhamos um excelente desenho de produção que combinou as imagens, as cenas, as locações com a fotografia, mas tudo deveria estar focado em fotografar a história como um “conto de fadas”.

Eu não pretendia realizar um “favela-movie” porque existem filmes maravilhosos no Brasil feitos sobre os problemas nas favelas, mas a maioria desses filmes são trágicos, tristes e realistas. Eu queria fazer um filme otimista, com uma visão positiva, então o filmamos como um conto de fadas, misturando um tom realístico, até porque a história está baseada em fatos reais, mas com elementos fantasiosos. Queríamos dizer que o filme não era exatamente a realidade, mas seria bom se fosse. E temos uma sequência, que é uma cena não realística das crianças indo para a Alemanha de trem, fazendo um trajeto não relista, mas essa era uma homenagem ao Brasil, às “Bachianas” de Villa Lobos. Nela usamos uma suíte e interpretação de violoncelo semelhantes aos utilizados em “O Trem Caipira”, porque nós queríamos mostrar que Bach estava retornando à Alemanha e mostrando a conexão dele com Villa Lobos. E essa sequência foi feita para os brasileiros, porque na Alemanha todos perguntam o porquê do trem e eu respondo: é uma homenagem aos brasileiros(!).
 
O Goethe-Institut realizou uma pré-estreia especial do seu filme dias atrás que suscitou no público um debate sobre a visão que a obra passa: para alguns, o filme apresenta muitos elementos caricatos e uma visão ingênua (naif). Ao mesmo tempo, algumas pessoas oriundas de projetos musicais relataram que se identificaram muito com os personagens do filme e se viram em diversas situações. Como você avalia essas reações e espera as críticas do seu filme?

O filme foi feito para crianças. Vou começar pela Alemanha, onde o filme já foi lançado. No início, os críticos tiveram problemas em aceita-lo, mas depois a crítica pareceu aceitar o filme. Mais ou menos oitenta por cento das críticas foram positivas, tivemos várias críticas boas. Mas no início um dos críticos escreveu que este era um drama realístico. No entanto, outro escreveu que “o diretor nunca tentou ser realista, ele conta a história como um conto de fadas, não afirma ser a realidade”, mas esta história seria uma boa possibilidade. Como falei, sei que existem muito bons filmes brasileiros sobre a realidade, mas esse era para ser um filme otimista sobre o que acontece quando duas partes diferentes do mundo se aproximam.

A mensagem do filme é que se você está aberto a diferentes culturas, diferentes gerações uma nova perspectiva se abrirá para sua vida que talvez nunca tenha sido esperada. E se você quer falar disso, você precisa ser positivo, não dá para ser negativo. É claro que temos um happy ending, um sentimento bom, e foi isso o que eu fiz, não estou mostrando a realidade como ela é. Mas alguns músicos se conectam mais intimamente com o filme e entendem melhor a mensagem por estarem conectados com esses fatos. Pessoas de projetos sociais também enxergam essas conexões em suas vidas reais mais do que pessoas que não tem nenhuma relação com projetos sociais.

Mas a principal resposta do público é positiva principalmente quando eles sentem que este é um filme que te faz sentir bem quando essas diferenças se encontram. Mas é um “filme família”, é um filme para a família, para as crianças com um enredo não muito complicado e que quer fazer você se sentir bem e pensar o que pode acontecer, ou não pode acontecer, se você está aberto a diferente culturas e mundos. Você nunca fará um filme que todos gostam, independente do que você faça sempre vão existir pessoas que gostam e não gostam, mas eu estou feliz que este filme tenha sido feito para o público e não ser aclamado pela crítica. Se o filme tiver tocado o público para que pensem de forma positiva sobre essas diferenças.
 
Quais são seus projetos futuros? Algum que tenha relação com o Brasil?

Adoraria fazer um trabalho no Brasil novamente, mas a situação é um pouco complexa agora. Mas por outro lado, tenho um projeto de muitos anos também com a Índia que será outra coprodução. É meio óbvio, depois do Brasil, fazer um projeto com a Índia. Vou colocar diferentes famílias e mundos, ocidental e Bollywood, novamente em contato numa perspectiva positiva. Irei tocar no ponto de que se você tem tudo na vida e não possui mais desejos, você perde seus sonhos. É uma história que fala de um menino ocidental que perdeu suas expectativas e sonhos e uma garota indiana que luta pelos seus sonhos, embora não tenha o poder para vê-los realizados. O filme já está com o roteiro financiado e já estou realizando diversos encontros com parceiros, mas essa também é uma produção que vai levar tempo, como foi a brasileira, que levou 10 anos para ficar pronta, vai levar tempo para colocar todos os parceiros juntos.
 
Filhos de Bach 

Filhos de Bach entrou em cartaz no Brasil no dia 8 de junho em 8 cidades brasileiras, em 27 salas de cinema diferentes. O filme percorreu diversos festivais de cinema internacionais como Festival de Havana em Cuba, Festival de Xangai na China, Festival Jovem da Coreia do Sul, entre festivais europeus tendo recebido os prêmios de diretor revelação e melhor filme no Festival Emden na Alemanha. O filme traz em seu elenco um grupo heterogêneo, como disse Ahlers, com atores reconhecidos internacionalmente como o alemão Edgar Selge (protagonista), Aldri Anunciação, ator baiano autor e diretor de peças teatrais, Stepan Nercessian e Marília Gabriela, Thais Garayp, Peter Lohmeyer, Hans-Peter Korff, Franziska Walser e jovens atores como Pablo Vinícius, Dhonata Augusto entre outros.
 
Coprodução Alemanha-Brasil | 2015 | 91 minutos
Direção: Ansgar Ahlers; Roteiro: Ansgar Ahlers, Soern Menning; Produção: Leonardo Monteiro de Barros, Eliana Soárez, Alexander Thies, Clemens Schaeffer; Fotografia: Jörg Widmer; Montagem: Barbara Hennings; Música: Jan Doddema, Henrique Cazes, David Christiansen, Gilvan De Oliveira; Empresa Produtoras: Conspiração Filmes, Miravista, Forseesense, NPF.