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JULHO 7. 2020
Blues em Preto e Branco. A poesia de May Ayim

May Ayim e a luta antirracista foram tema de live do Goethe-Institut
© Goethe-Institut Rio de Janeiro

A poeta, escritora, pedagoga e ativista afro-alemã May Ayim celebraria, em 2020, 60 anos. Nascida em Hamburgo, foi uma referência importante nas lutas antirracistas no país nos anos 1980 e 1990. Participou ativamente dos primeiros grupos do movimento afro na Alemanha, que continua até hoje. Uma personalidade e uma história que devem ser lembradas - e foram tema da live "Blues em Preto e Branco. A poesia de May Ayim”, realizada pelo Goethe-Institut Rio de Janeiro no YouTube.

Foi um encontro de mulheres. Esteve presente Jess Oliveira, tradutora, crítica literária e poeta, que estudou para sua dissertação de mestrado a produção de May Ayim, o surgimento do movimento negro alemão e o processo tradutório dessa poética no Brasil. Jess traduziu para o português brasileiro “Memórias da Plantação, de Grada Kilomba, e outros textos de intelectuais negras. A artista Tatiana Henrique desenvolveu um trabalho performático especialmente para a live, que pode ser visto no vídeo em 9’12”. Também participou do debate Astrid Kusser Ferreira, doutora em história e coordenadora da programação cultural do Goethe-Institut Rio de Janeiro. Moderou o debate Cleydia Esteves, historiadora e geógrafa, com longa carreira de professora e pesquisadora na área de planejamento urbano, e que também estuda língua e cultura alemãs, com foco nas literaturas afro-alemãs.

Assista à performance de Tatiana Henrique.
 



A história de May Ayim

O pai de May Ayim era de Ghana, na África Ocidental. Ainda estudante, queria levá-la para seu país, quando a mãe alemã não pôde mais cuidar dela. Ambos acabaram perdendo a guarda da filha, e May, depois de um período num orfanato, foi adotada por uma família branca alemã, que mudou seu nome. May Ayim demorou décadas para resgatar o nome do pai, "Ayim", e se chamou, por vontade própria, "May". Em sua poesia, analisa, ridiculariza e lamenta profundamente as condições nas quais cresceu.

O movimento afro-alemão surgiu do encontro com a escritora norte-americana Audre Lorde, em Berlim. Como uma rede de amizade, apoio e estudo, as mulheres não só descobriram a própria história, como também reescreveram a história do país. Destacaram o colonialismo alemão do fim do século XIX, quando a recém-formada nação ocupou territórios na África, na China e na Oceania, oprimindo as populações locais que muitas vezes se revoltavam contra as políticas da colonização. O movimento analisou formações raciais rígidas que depois foram integradas ao Nazismo e sua politica de extermínio generalizado.

Essa história era conhecida nas universidades, mas tinha pouco reconhecimento na República Federal da Alemanha, um país que se imaginava livre de racismo depois da reeducação democrática pós-guerra e que propagou a crença de que “raça não existe”. Limitando o problema do racismo a um preconceito individual e superável, as instituições deixavam as pessoas negras sozinhas com o peso do racismo cotidiano, que continuou, apesar ou por causa dessas declarações de progresso e boas intenções. Assim, as poucas crianças negras que cresceram nessa sociedade branca pós-fascista ficavam sem lugar, sem história, sem reconhecimento.

Era preciso acabar com o velho discurso sobre “o Negro” e suas narrativas violentas que disfarçavam agressão como piada. O movimento criou novos conceitos, novas palavras de autodefinição. Afro-Deutsche. Schwarze Deutsche. Palavras inventadas para se referir pejorativamente a pessoas negras não serviam mais, a não ser como ponto de referência para uma história de racismo.

Uma narrativa de progresso, no entanto, não dá conta da trajetória de May Ayim. Hoje podemos traduzir sua poesia e recontar sua luta no movimento negro na Alemanha. Desde 1996, May Ayim não pode mais contar essa história por si mesma. Naquele ano, ela se suicidou, sofrendo de uma depressão severa, que não se curou apesar das conquistas intelectuais, do amor construído entre iguais e da arte que ela desenvolveu e cultivou.

A Alemanha continua lutando com as forças fascistas e racistas, como mostram ataques a imigrantes e pessoas negras. Em Hanau, no dia 19 de fevereiro de 2020, um homem alemão matou 11 pessoas, na sua maioria filhos de imigrantes.

O aniversário de May Ayim foi também lembrado na Alemanha. Assista à leitura performática feita por um grupo de 25 artistas e ativistas afro-alemães da poesia da May Ayim, em alemão.  

Black Germany M(a)y Sister #5 
 
 
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