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Setembro 2. 2020
Incêndio e pandemia: o desafio de reabrir um museu

Alexander Kellner, diretor do Museu Nacional
© Bira Soares

Dois anos atrás, o mais importante museu de história natural do Brasil foi consumido pelas chamas. O incêndio destruiu cerca de 20 milhões de itens - a maior parte de um acervo que reunia fósseis, múmias e registros históricos de todo o mundo -, além do palacete que foi residência da família real brasileira durante o Império. Desde então, Alexander Kellner, diretor do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, busca mobilizar recursos e a comunidade científica e cultural do mundo todo para reconstruir a instituição. O desafio se torna ainda mais complexo no contexto atual de pandemia, como o paleontólogo analisa no encontro “Reopening Museums: European and South American Perspectives”, realizado pelo Goethe-Institut e parceiros.

Em quanto o trabalho de recuperação e reconstrução do museu avançou ao longo desses dois anos?

Estamos trabalhando de forma rápida para devolver o museu, o quanto antes, para a sociedade, e devolver uma instituição que possa servir de referência para outras instituições culturais do país e da América do Sul. Já conseguimos levar a infraestrutura necessária para que o trabalho, do ponto de vista acadêmico, volte a acontecer no local e avançamos em questões relativas à reforma do palácio. Houve um atraso na concepção do projeto de reconstrução, mas ele ficou pronto, e agora já sabemos quanto demandará de investimento: 20% do que vai custar a Notre Dame. Ainda precisaremos de R$ 200 milhões, fora o acervo, que é um dos maiores desafios e para o qual dependemos intensamente de ajuda internacional.

De que tipo de apoio o museu precisa hoje?

É absolutamente fundamental que a gente consiga despertar a sensibilidade de instituições científicas e culturais internacionais, para que doem material original e ajudem na recuperação de nosso acervo. Esse é nosso principal gargalo. E nós, do Brasil, temos que merecer essas novas peças, reconstruindo o palácio que abriga o museu segundo as melhores normas de segurança para pessoas e também para as coleções. Vamos mostrar ao mundo que aprendemos e que uma tragédia como essa não vai acontecer de novo na nossa instituição. Também dependemos da ajuda técnica internacional. O Brasil, nesse momento, não tem grandes especialistas em taxidermia. Se um animal grande, como um elefante, vier a óbito, precisaremos de uma agilidade tremenda. Também buscamos fundações internacionais para apoio financeiro.

O incêndio chamou a atenção internacional. A ajuda chegou?

A ajuda oferecida pelo governo alemão foi um diferencial, tanto em relação ao compartilhamento de conhecimento técnico quanto com recursos financeiros. Recentemente, mais de 26 instituições científico-culturais da Alemanha manifestaram em carta aberta a disposição em auxiliar inclusive no que envolve as coleções. São tantas as ações que o Goethe-Institut, representando a Alemanha, foi convidado para integrar um dos comitês do projeto de governança "Museu Nacional Vive”, ao qual está atrelado todo o trabalho de reconstrução. Só conseguiremos cumprir essa missão com o apoio efetivo de outros países.

O que podemos esperar do novo Museu Nacional? O que permanece e o que muda em relação à antiga instituição.

Nossa alma, nossa missão continua a mesma. O Museu Nacional tem uma característica que é muito diferente de outros museus e até dos museus de história natural de fora do país. Reunimos um acervo que é importante para o entendimento da nossa cultura, da história e da diversidade do nosso planeta, mas não só isso. Produzimos conhecimento a partir da realização de pesquisas, formando gerações de novos cientistas nas áreas da história natural e da antropologia. E ainda realizamos atividades de educação científica. Isso permanece. A maneira como vamos fazer isso é que muda um pouco. Nosso grande desafio é como vamos atuar dentro do palácio para maravilhar o público e despertar o espírito crítico nele. Queremos mostrar a evolução da ciência ao longo do tempo e como culturas diferentes a enxergam de formas diferentes, de forma acessível. O museu depende das mais modernas técnicas de exposição para conseguir atender desde uma criança até um estudioso no tema, trabalhando as diferentes camadas de aprofundamento de cada área do saber. Podemos construir um dos mais interessantes do mundo, se tivermos apoio.

Vista aérea do Museu Nacional, no Rio de Janeiro

Existe hoje um cenário sem precedentes, em que uma pandemia lança desafios a todo o setor. Como o senhor vê o futuro do Museu Nacional e das demais instituições nesse novo contexto?

Na minha visão, os museus continuarão com uma relevância enorme, talvez ainda maior do que no passado. Através de nossos acervos, temos a possibilidade de maravilhar as pessoas e provocar reflexões sobre a ciência, sobre erro e acerto e como os rumos são modificados a partir dessas experiências. Temas que tocam em questões como o surgimento de vírus, sobre prevenção e ação. Com certeza, a dinâmica de visitação a museus terá que ser modificada e precisaremos investir muito no digital. Mas não acredito que o virtual possa substituir a magia de ver uma peça contextualizada dentro de uma exposição. Os museus deverão adotar horários estendidos de funcionamento, porque não poderemos ter mais filas. Não há uma solução neste momento. Ainda teremos que refletir, mas estaremos atentos às experiências de todo o setor. Como museu de grande porte em construção durante e após a pandemia, iremos incorporar o que for positivo às nossas exposições.

Sobre a pessoa

Alexander Kellner é diretor do Museu Nacional/UFRJ desde 2018 e Membro Titular da Academia Brasileira de Ciências. Membro Honorário da New York Paleontological Society, Pesquisador Associado do American Museum of Natural History e do Institute of Vertebrate Paleontology and Paleoanthropology (IVPP, China). Em sua trajetória acadêmica, já descreveu 70 espécies novas e organizou expedições para os mais diferentes pontos do planeta. Ocupa o cargo de editor-chefe dos Anais da Academia Brasileira de Ciências (única revista multidisciplinar lato sensu editada no Brasil) e pertence a classe Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico.

Sobre o projeto

O Goethe-Institut, o Ministério Federal das Relações Exteriornas da Alemanha e o Museu Nacional/UFRJ promoveram em 2 de setembro de 2020 o evento virtual “Reopening Museums: European and South American Perspectives”. Com o objetivo de debater estratégias para a reabertura de espaços culturais após a quarentena provocada pela pandemia de Covid-19, o painel contou com as participações de Johannes Vogel, Diretor Museu de História Natural de Berlim; Barbara Plankensteiner, Diretora do Museum am Rothenbaum -  Kulturen und Künste der Welt (MARKK); Gabriela Rangel, Diretora do Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (MALBA); e Alexander Kellner, Diretor do Museu Nacional/UFRJ. O debate foi mediado pela diretora do ICOM Brasil, Marília Bonas e transmitido pelo canal do Goethe-Institut Central no YouTube.

Assista ao vídeo criado para o projeto:
 

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