Marcelo Brodsky PARA QUE MEMÓRIA?

O fotógrafo e ativista argentino Marcelo Brodsky reflete sobre o papel e a importância da memória, bem como sobre sua relação com o mundo das imagens.

A memória é cada um de nós. Somos o que lembramos, o que pensamos que somos e o que temos sido capazes de construir como pessoas. Esta construção está baseada em uma cultura, na transmissão das ideias, nas formas de ver o mundo e nas experiências que passam de geração a geração.

Desde que existe a fotografia, a relação entre imagem e memória se intensificou. Sabemos como eram nossos avós ou nossos pais. Quando observamos fotos deles, vemos como se vestiam, como eram seus olhares e como se colocavam perante o mundo. Podemos saber qual era nosso aspecto quando éramos crianças, jovens ou adultos, como eram nossos amores, que paisagens atravessamos ou nos atravessaram. Somos o que vivenciamos e as imagens testemunham isso. Esta relação se intensificou cada vez mais, e as imagens adquiriram um peso dominante na nossa linguagem.

Em permanente tensão e troca, a memória e o esquecimento jogam uma partida de xadrez dentro de nós mesmos. No entanto, o tabuleiro não é neutro, já que existem as imagens e estas acentuam a memória, dando a ela ferramentas para elaborar sua narrativa e para construir-nos como pessoas e pensamento. O tabuleiro, graças às imagens, está inclinado a favor da memória.

No terreno coletivo, as imagens permitem entender o que se passou de maneira ampla, aberta e mutável. As imagens da Shoá foram em sua maioria feitas pelos exércitos vencedores, mas restaram algumas poucas feitas pelos que resistiam. É a elas que o filósofo francês Georges Didi-Huberman dedica seu livro Imagens apesar de tudo, ao lembrar que as quatro fotografias dos crematórios de Auschwitz feitas ao ar livre pela resistência polonesa provam que a imagem tem um poder narrativo insubstituível.

A imagem, portanto, ajuda a dar uma resposta à pergunta: “Para que memória?”. Em momentos em que não prestamos atenção a uma mensagem sem imagens é que a imagem surge como uma aliada na possibilidade de lembrar e de reconstruir fatos, de transmitir experiências e aprendizado, de educar as novas gerações com uma base prática.

Em se tratando de experiência familiar ou política e coletiva, a aquisição de uma educação visual permite-nos “entender”, segundo muitas leituras possíveis, o que aconteceu antes e o que sucedeu conosco. Cada vez que olhamos a imagem que se relaciona com nossa memória, fazemos uma leitura diferente, condicionada pelo que estamos vivendo. Apesar disso, a essência da imagem vive em um conjunto de signos, símbolos e relações que orientam o olhar e se dirigem às nossas entranhas, que movem o intuitivo e disparam a emoção. A conexão entre memória, imagem e reação sensível constitui um poderoso conjunto de elementos entrelaçados, que contribuem para definir a identidade, as preferências e o modo de pensar de cada um.

Da mesma forma que a imagem, a memória vive também em uma reformulação fluida e permanente. A memória do que fomos, explícita em imagens fixas e sonhadas, influencia constantemente o que somos e o que fazemos. A subjetividade profunda da memória choca-se com a objetividade ambígua e mutável da imagem e suas leituras. Uma memória em movimento permite-nos sustentar nossa própria transformação em um conjunto de referências visuais, textuais e de linguagem, dando sustentação a nosso olhar sobre o mundo. A combinação de narrações, imagens, experiências e desejos pode dar suporte a nossa capacidade e decisão de transformar o mundo.

A memória e seu componente visual ocupam um lugar central na compreensão de nós mesmos e da história, convertendo-nos em pessoas capazes de aprender a partir do que foi vivenciado e de transmitir nossa experiência pessoal e política às novas gerações.
 

Marcelo Brodsky é artista visual e ativista de direitos humanos. Sua obra aborda a relação entre memória, imagem e palavra como recursos para comunicar ideias e transmitir emoções e conhecimento. É membro fundador do Conselho de Gestão do Parque da Memória de Buenos Aires. Sua obra faz parte de algumas das principais coleções de arte do mundo.
Para mais informações e imagens:
www.marcelobrodsky.com