Teatro da Memória Sensação histórica

Milo Rau
© Daniel Seiffert

Como mídia presencial, o teatro é mais adequado que a maioria das outras formas de arte para o trabalho com a memória. O palco pode fazer do ontem presente, sem ser obrigado a se comprometer com os fatos até no último detalhe.

“Criar é lembrar”, constata o ator Joachim Meyerhoff em um de seus romances de memórias, baseados em sua performance de leitura autobiográfica Alle Toten fliegen hoch (Todos os mortos voam para o alto) no Burgtheater de Viena. Em uma interpretação muito livre de fatos comprovados, Meyerhoff vai fabulando sua vida. O interessante é que o resultado coincide com as memórias de seu irmão, que confirma o relato do ator: as coisas teriam realmente acontecido exatamente como o descrito. Evidentemente existe algo como uma sensação de verdade, pelo menos na lembrança particular, que, na melhor das hipóteses, é até compartilhada por pessoas do ambiente pessoal. Mas o que acontece no caso das memórias coletivas?

Memória histórica e coletiva

Em seus trabalhos, o diretor de teatro Milo Rau sempre abre espaços para a memória histórica. Na verdade, Rau também fala de uma “sensação histórica” e relata a respeito de uma “vivência do ah sim, já vi isso”. Em sua peça Hate Radio (Rádio ódio, 2011), Rau abordou o genocídio de 1994 em Ruanda. O diretor concentrou-se no papel da emissora de rádio Hutu RTLM, através da qual os locutores conclamavam à exterminação da minoria Tutsi. Rau reproduziu uma hora de emissão repleta de músicas de sucesso e campanha difamatória. Os textos dos atores representando a equipe de locutores baseavam-se em material de pesquisa, embora bastante condensado. Para não apresentar nenhuma forma de exotismo ao público europeu, Rau também integrou nesse “reenactment” faixas do grupo Nirvana e de outras bandas de sucesso na Europa dos anos 1990 – embora a RTLM, na verdade, tenha tocado músicas africanas.

“Hate Radio” também foi encenada em Kigali, capital de Ruanda. O impressionante foi o seguinte: apesar de partes dos fatos históricos terem sido alteradas, nesse caso as testemunhas da época também confirmaram: em 1994, tudo teria sido exatamente como retratado na peça. Milo Rau está convencido de que o teatro pode captar uma “tonalidade da memória coletiva”, justamente a tal sensação histórica, sem estar comprometido com “a verdade dos detalhes”.

Espaços de memória na música

Como portadora de emoções, a música tem um papel importante nesse processo. Isso também acontece no trabalho de Christoph Marthaler, embora suas obras teatrais não pudessem ser mais diferentes das de Milo Rau. “Para mim, teatro é trabalho com a memória”, esclarece Marthaler, em cujas peças há muito canto, especialmente corais. Segundo ele, a música abre a possibilidade para que nos lembremos de coisas. Mais ainda: é possível até “se lembrar de uma época que você nunca viveu”.
 
É essa a ideia por trás de Murx den Europäer! (Acabem com o europeu!), a primeira encenação de Marthaler no teatro berlinense Volksbühne, em 1993, na qual o diretor rastreou a atmosfera da vida nos últimos anos de Alemanha Oriental. E também sua última peça no mesmo teatro, Bekannte Gefühle, gemischte Gesichter (Sentimentos conhecidos, rostos misturados, 2016), na qual o diretor transforma, entre outros, a própria peça de teatro em objeto de trabalho com a memória.
 
"Sentimentos conhecidos, rostos misturados", de Cristoph Marthaler, no Teatro Volksbühne de Berlim


A dramaturgista predileta de Marthaler, Stefanie Carp, esclarece que, no teatro, o presente sempre é um tempo preenchido também “pelo passado, pela memória”. O coro, diz ela, é a “incorporação de um lugar da memória coletiva”. E as canções abrem espaços associativos.

Melancolia deliberada

Que as memórias provocadas pela música sejam, não raramente, de natureza sentimental, não chega a surpreender. Marthaler usa essa melancolia deliberadamente como tema de suas peças. O trabalho com a memória é realizado em suas obras, entre outros, para tornar perceptíveis o passar do tempo e a transitoriedade. E o diretor toca, assim, o existencial. Já quando o teatro se concentra em questões sociais ou políticas, a melancolia pode rapidamente passar a perturbar a clareza do olhar em relação ao passado. Passa-se a correr o perigo da glorificação e, na pior das hipóteses, de distorção da história. O melhor exemplo: a visão da Alemanha Oriental sob a égide da nostalgia.
 
Claudia Bauer Claudia Bauer "89/90" | © Rolf Arnold
Claudia Bauer conseguiu escapar desse perigo no teatro Schauspiel Leipzig. Com sua adaptação para o palco do romance ambientado na época da Queda do Muro de Berlim, 89/90, de Peter Richter, a diretora teve sucesso ao lançar um olhar sóbrio sobre esse capítulo da história alemã. E isso num ofício que já na produção de arte se utiliza da lembrança como truque psicológico. "Lembre-se de alguma coisa triste": essa é uma frase muito ouvida por atores e atrizes quando precisam chorar no palco.

Contra esse teatro da empatia, Bauer usa o velho e bom efeito do estranhamento. Também em sua encenção, o coro canta muito. Canções tradicionais, mas também músicas punks da Alemanha Oriental, porém nunca semelhantes aos originais, mas sempre em arranjos idiossincráticos ou novas versões melódicas do textos. Assim, Bauer não pinta a história nem em cores alegres nem sombrias do passado, mas apenas delineia um ontem, no qual os contornos de nossa atual sociedade de transição podem ser reconhecidos com clareza até maior. Tornar presente o passado serve aqui para aguçar a consciência em relação ao presente.
 
É aí que reside a força do teatro como mídia presencial na função de espaço para a memória. Diferentemente do cinema e da televisão, que mantêm o público (tecnologicamene) à distância, no teatro o passado torna-se presente, a memória transforma-se em experiência ao vivo.

Para Milo Rau, de qualquer forma, isso faz parte da essência dessa forma de arte: “No teatro, a memória flui através de nós como algo que não morreu, presente, real”. Embora ela seja apenas uma invenção.
 

Milo Rau é citado a partir de uma conversa que teve com Christoph Leibold em meados de 2017.
 
Fonte das citações de Marthaler e Carp:
Christoph Hetzenecker, “Funktion und Arrangement von Musik im Theater Christoph Marthalers“” Diplomica Verlag 2015.