documenta 14 Aprendendo com o Sul

Quinn Latimer, editora-chefe das publicações da documenta 14, fala sobre o Sul como processo de aprendizagem, sobre a programação pública da documenta em Atenas e sobre a linguagem como ato de libertação.

O que se quer dizer com “South as a State of Mind” (Sul como estado de espírito) na revista da documenta? A documenta 14 vai se concentrar nos abismos entre Norte e Sul, ou também nas relações Sul-Sul?
 
A South as a State of Mind
, ou simplesmente D14 South, foi fundada em 2012 por Marina Fokidis em Atenas. Desde 2015, é provisoriamente a revista da documenta 14, editada por mim e por Adam Szymczyk, o diretor artístico da documenta 14. Até agora, publicamos três edições e uma quarta está em andamento. Com certeza que o significado do título é um pouco diferente para a Marina, mas sempre vi nele muitas possibilidades de leitura. É possível entendê-lo como um cenário geopolítico de narrativas contemporâneas de poder, o que vem sendo comumente tratado como “Sul Global” e “Norte Global” – ou seja, aquilo que antes era chamado de “Leste” e “Oeste”. Mas ele pode ser também lido como um espaço para imaginação, resistência e como uma certa forma de subjetividade induzida pelo clima, seja ela radical ou não. Embora a documenta aborde hoje aspectos das interseções históricas entre a Grécia e a Alemanha, nem a exposição nem a revista pretedem assumir ou incentivar dicotomias como a dos abismos entre Norte e Sul.

MARIANA CASTILLO DEBALL | MARIANA CASTILLO DEBALL | "NEWSPAPER WORKS" Em: SUL COMO UM ESTADO DE ESPÍRITO #7 [DOCUMENTA 14 #2] 2016, pp. 76-77. | Cortesia Mariana Castillo Deball (detalhe) Na primeira edição de D14 South, nós nos debruçamos sobre formas e figuras de deslocamento e desapropriação, e as formas de resistência ali existentes. A contribuição mais decisiva neste sentido é, a meu ver, o ensaio da cientista política feminista Françoise Vergès. Continuo refletindo sobre esse texto. Ela relata a respeito de sua infância e juventude no ambiente dos movimentos de resistência na Ilha de Reunião, ex-colônia francesa no Oceano Índico, e depois na Argélia. Vergès narra a longa história das relações Sul-Sul, frequentemente ausentes das narrativas históricas hegemônicas de centro e periferia. Vergès descreve um mundo de intenso intercâmbio entre a África e a Ásia, um mundo, segundo ela, “de rotas de solidariedade entre os movimentos anti-imperialistas dos diversos Suis, o mundo meridional da música, da literatura, das imagens. Do ponto de vista dela, a Europa estava geográfica e culturalmente situada na periferia.
 
Seu ensaio Like a Riot: The Politics of Forgetfulness, Relearning the South, and the Island of Dr. Moreau evoca Audre Lorde’s (Como uma insurreção: as políticas do esquecimento, reaprendendo o Sul e a Ilha do Dr. Moreau) evoca a máxima mais conhecida de Audre Lorde: “O processo de aprendizagem é algo que se pode incitar, literalmente incitar, como uma insurreição”. Inspiradas pelo ensaio de Françoise, tentamos nos desvencilhar do centralismo da Europa em nosso pensamento e em nosso trabalho o máximo que conseguimos. Não viemos para Atenas há três anos para fazer especificamente uma revista sobre o Sul, mas estando aqui o trabalho foi se modificando,  nosso pensamento foi mudando.

A Grécia é o ponto de partida desta edição da documenta. A programação estabelece uma relação entre a ditadura militar grega e outras ditaduras do mundo (entre elas a chilena, a argentina, a espanhola). Esse é um contraponto a Atenas como berço da democracia? Quais são as razões para se falar disso
 
As programações públicas da documenta 14, que acontecem em Atenas desde setembro de 2016 sob o título O parlamento dos corpos (The Parliament of Bodies), concentraram-se ocasionalmente na ditadura grega, é verdade. Trata-se de um espisódio que não aconteceu há tanto tempo (de 1967 a 1974) e, como de praxe em períodos violentos de domínio fascista em todo o mundo, a história desses anos foi sistematicamente reprimida por uma série de governos, tenham sido eles democráticos ou não.

O Fridericianum em Kassel depois dos ataques aéreos dos Aliados nos dias 8 e 9 de setembro de 1941, SUL COMO UM ESTADO DE ESPÍRITO #6 [documenta 14 #1] (2015), pp. 12–13. | O Fridericianum em Kassel depois dos ataques aéreos dos Aliados nos dias 8 e 9 de setembro de 1941, SUL COMO UM ESTADO DE ESPÍRITO #6 [documenta 14 #1] (2015), pp. 12–13. | | Cortesia SUL COMO UM ESTADO DE ESPÍRITO O Parlamento dos Corpos acontece num edifício do Parque Eleftherias (Parque da Liberdade) que serviu de base militar no século 19. Atrás do Centro Municipal de Arte de Atenas, onde acontece a programação pública da documenta 14, fica o Museu da Resistência Democrática contra a Ditadura. Ambos os prédios foram usados pela junta da ditadura militar: um como sede do governo, outro como dependência para torturar. O Ministério grego da Defesa continua sendo o proprietário de ambos os edifícios: tanto da galeria de arte quanto do Museu da Memória, o que parece consideravelmente emblemático da progressão institucional no mundo contemporâneo. Quando lugares que serviram de cenário para crimes praticados pelo governo se transformam em centros culturais e galerias de arte contemporânea, quando antigas fábricas se tornam nossos museus de hoje, por que tipo de transformação a instituição passará em seguida?
 
O que quero dizer com isso: os conceitos e as formas de democracia e liberdade sempre estiveram aliados à sua rejeição. O fato de Atenas ser apontada como local de nascimento e às vezes também como berço da democracia soa como se isso fosse um estado natural, quase biológico. E não há nada de natural aí. Estamos vendo isso talvez com maior clareza agora, quando a democracia – com todas as suas formas não democráticas – parece estar trocando de pele em todo o Ocidente, que adotou tanto de seu imaginário político-democrático e visões de supremacia do macho branco dos seus ancestrais eleitos na Grécia Antiga. Todas essas são razões para falar sobre isso. Não para somente “musealizar” ou institucionalizar o passado, mas para refletir sobre como esse autoritarismo se perpetua até hoje.
 
Paralelamente à documenta 14, a cidade de Atenas apresenta também a Bienal de Atenas 2015-2017, “Omonoia” (concordância/acordo). Uma de suas programações, a seção sinapse “Repensando a crítica institucional – Uma visão do Sul”, também se volta para o Sul. Esse evento tem ligação com a documenta 14? Se sim, de que forma ambos os eventos estão relacionados?
 
Acredito que a linguagem flutua, os termos migram. E às vezes eles batem no chão. Há anos que as ideias e implicações do “Sul Global” têm sido foco tanto da pesquisa quanto da política e  a Bienal de Atenas com certeza está dando continuidade a isso. O fato de Atenas ter tido durante anos uma revista chamada Sul é provavelmente outra referência. Afora isso, a programação da Bienal de Atenas não tem nada a ver com a documenta em termos de colaboração. Mas os escritórios da Bienal ficam no mesmo prédio, um andar acima. Respiramos o mesmo ar, por assim dizer.

Naeem Mohaiemen, Naeem Mohaiemen, "Volume Eleven (A Flaw in the Algorithm of Cosmopolitanism)", SUL COMO UM ESTADO DE ESPÍRITO #6 [documenta 14 #1] (2015), pp. 150–151. | Cortesia SUL COMO UM ESTADO DE ESPÍRITO Outro tema importante da documenta 14 é a linguagem. De que forma a revista entende esse assunto e como ele é incluído na programação da documenta?
 
A linguagem estrutura a forma como vemos o mundo e como nos movimentamos dentro dele. A linguagem é também uma forma de controle. Mas, liberta de seus clichês vazios e de suas operações fascistas, ela pode também ser muito libertária. Ela é a mídia na qual pensamos. E frequentemente também a mídia com a qual nos relacionamos com os outros. Tenho pensado muito a respeito do ato fundacional da linguagem: como ela vem sendo usada e abusada, e sobre seus afetos, seja na retórica pública ou na produção literária privada. Neste sentido, as publicações da documenta 14 exploram a linguagem em si, elas não a usam só a serviço de diversos sistemas estéticos, políticos e discursivos.
 
Nós concebemos as publicações da documenta 14, por um lado, como meio de ler o poder através da resistência a ele. A revista é também um espaço no qual os artistas da documenta 14 podem testar suas ideias, tentando articular ou gerar algo novo. Alguns artistas criaram trabalhos para a revista que refletem a respeito dos trabalhos que eles estão criando para as exposições da documenta 14 em Atenas ou Kassel. A documenta 14 não é, contudo, uma exposição primariamente acompanhada por publicações e por programações públicas. A revista Sul como estado de espírito, a programação pública O parlamento do corpo, as exposições em Atenas e Kassel – tudo isso junto faz o que conhecemos hoje como documenta 14

Perfil: Quinn Latimer Perfil: Quinn Latimer | Foto: Natasha Papadopoulou Quinn Latimer nascida na Califórnia, é poeta, crítica e editora. Em breve, será publicado seu livro Like a Woman: Essays, Readings, Poems (Sternberg Press, 2017). Além desse volume, publicou: Sarah Lucas: Describe This Distance (Mousse Publishing, 2013) e Rumored Animals (Dream Horse Press, 2012). Latimer escreveu regularmente para a publicação Artforum e foi colaboradora da Frieze, além de editar a coletânea Paul Sietsema: Interviews on Films and Works (2012). É coeditora de Stories, Myths, Ironies, and Other Songs: Conceived, Directed, Edited, and Produced by M. Auder (Sternberg Press, 2014), bem como de No Core: Pamela Rosenkranz (JRP-Ringier, 2012). Latimer é editora-chefe das publicações da documenta 14.