documenta 14 É POSSÍVEL ROMPER AS ESTRUTURAS DA ARTE?

O escritor e curador peruano Carlo Trivelli visitou a documenta 14 em Atenas e Kassel. Aqui, ele relata suas experiências por entre as fronteiras da arte e da cultura.

Oferecer uma visão ampla da documenta 14 é algo destinado ao fracasso. Não apenas pela quantidade de obras e locais de exposição – espalhados por Kassel e Atenas – ou pelo tempo necessário para visitá-los e compreendê-los. Além disso, devido a seu próprio formato, é impossível reduzir a documenta 14 a uma descrição organizada.

O diretor artístico, Adam Szymczyk, escreveu que o desejo da equipe de curadores era dificultar a possibilidade de uma descrição, e inclusive da organicidade, desta edição da documenta. Para tanto, decidiram romper a unidade de espaço, tempo e ações próprias da forma como normalmente se concebem as exposições de arte e, assim, dissolver as fronteiras – reais ou imaginadas – que separam a arte e suas formas de exibição e recepção. Por isso é necessário compreender tanto a participação dos artistas e organizadores, como a experiência dos visitantes e o ambiente social, cultural e político em que se insere um acontecimento como a documenta.

BUSCA DE UMA NOVA COERÊNCIA PARA A ARTE

Tudo isso implica em uma perda de clareza desconcertante. Porém, ao meditar sobre o tema, percebe-se nesse ato a busca de um novo tipo de coerência para o mundo da arte, que rompa com o modelo de recepção e compreensão da arte que foi se modelando a partir da ideia do consumo – na medida em que este está vinculado ao mercado e ao espetáculo – e que tende, portanto, a domesticar e controlar, em vez de libertar.

Talvez o aspecto mais visível dessa atitude se manifeste na decisão de descentralizar a exposição e levar parte dela a Atenas. Mas há muito mais que isso. Em Atenas, a documenta começou muito antes dos espaços de exibição abrirem suas portas. Isso aconteceu através de publicações, programas de televisão e discussões que aconteceram na capital grega durante mais de um ano antes da abertura.

A busca de um novo tipo de coerência pode ser vista também no modo como a ideia de contemporaneidade é tratada na documenta. Longe de apostar no “mais recente” em termos de produção artística, essa documenta parece desdenhar da noção do “mais atual”. Ela faz isso dando lugar a um grande número de artistas já falecidos ou a obras com décadas de idade. Creio que isso deva ser entendido não apenas como uma recusa ao valor – suposto ou real – da novidade, mas também como um postulado mais profundo sobre como devemos entender o “contemporâneo”. Szymczyk e sua equipe parecem querer nos dizer não apenas que devemos incorporar a essa noção um período maior de tempo, mas também que, ao fazer isso, abrimos espaço para o modo através do qual o sentido é produzido na prática artística: como uma grande sedimentação de ações pontuais, porém transcendentes, e, portanto, inseparáveis dos contextos históricos em que nasceram, mas, por sua vez, portadoras de sentidos que ainda reverberam, dando forma, portanto, à experiência atual, apesar do passar do tempo.

Uma outra forma através da qual esta documenta dilui as fronteiras estabelecidas para o campo artístico é a atenção que confere ao material de arquivo e a uma noção ampliada de partitura. Nesta documenta, há uma grande quantidade de peças sonoras e de performances que estão presentes não apenas a partir dos resultados, mas dos planos e dos processos que lhes deram origem. Assim como uma peça musical existe na partitura ainda antes de sua execução – e podemos dizer que, ao estar em frente à partitura, estamos em frente à obra –, assim são apresentados nesta documenta muitos projetos artísticos: documentação de processos criativos, planos de realização ou execução que constituem uma nova dimensão, na qual a fronteira entre artes visuais e cultura material e/ou visual se dissipa.

É DIFÍCIL APAGAR AS RELAÇÕES DE PODER COLONIAIS

Por último, podemos agregar a essa lista de fronteiras que se buscou diluir a fronteira que separa o Ocidente de outras culturas, através da ênfase que foi colocada em incluir obras provenientes de coordenadas geográficas e culturais distintas, de modo que, em certo sentido, todo o planeta esteja representado.

Entretanto, é justamente nesse âmbito que as estruturas existentes parecem haver resistido ao intuito de dissolução dos organizadores. É difícil apagar as relações de poder coloniais, e os contextos verdadeiramente multiculturais talvez sejam uma ficção inalcançável. O contexto da documenta continua sendo o de um formato de produção cultural muito particular do Ocidente globalizado, aquele que chamamos de “arte contemporânea”. Nesse contexto, para dar pelo menos um exemplo, a produção ritual de outras culturas ou perde parte de seu sentido, ou não chega a ser assimilável no âmbito da arte contemporânea.

Talvez esta não seja a documenta que muitos tenham desejado ver. Mas me atrevo a dizer que tem toda a aparência de ser uma prévia de muitas coisas que veremos, inevitavelmente, no futuro.