Documenta 14 Mais política que nunca

A documenta 14 chegou a Kassel. Algumas semanas depois de seu início em Atenas, a exposição internacional de arte volta então a seu lugar de origem: a Alemanha. E com efeitos políticos como nunca, como se pode ver neste percurso por ela.

Estudantes de Artes transformaram 20 canos de esgoto gigantes, empilhados com o auxílio de uma grua em frente ao Museu Fridericianum, em Kassel, em cômodos de uma casa: ora servindo de banheiros, ora de quartos, ora de canil. Mas, ao se deparar com a instalação de metros de altura de Hiwa K, o riso do observador desaparece com rapidez, pois, com sua obra, o artista curdo-iraquiano, embora afirme o contrário, coloca um ponto de exclamação: seu hotel de tubos lembra os refugiados que, como ele, foram parar no porto de Atenas em busca de proteção contra o vento e o tempo. Igualmente eloquente é a obra de Guillermo Galindi, que pendurou as carcaças destroçadas de dois barcos  que balançam no teto do andar térreo do espaço Documenta Halle. Rapidamente vai ficando claro do que o artista mexicano quer falar: ele denuncia a fuga e a expulsão, o êxodo de milhares de pessoas que por fim acabam se afogando cruelmente no mar.

Tudo isso é o que pretende o diretor artístico da documenta, Adam Szymczyk, quando ele convoca a um desvinculamento das certezas em tempos de fuga e insegurança. “Acreditamos que precisamos desaprender aquilo que parece sabermos”, dita Szymczyk para que os jornalistas anotem em seus blocos. “O aprendizado precisa ser o princípio de trabalho desta documenta”, completa. E o curador Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, depois de anunciar que “vivemos em uma era de insegurança, e a insegurança leva com frequência à violência”, conclama os artistas a serem “rebeldes”.

Arte para um mundo fora dos eixos

E o que a arte tem a dizer, quando o mundo sai dos eixos? Quando o neoliberalismo prolifera, o nacionalismo grassa, novas guerras eclodem, quando políticos como Trump, Erdogan ou Putin governam sem levar nada e ninguém em consideração, isso sem falar no risco de terrorismo? Que questões propõe a arte? E quais respostas ela dá? Certo é: mais de 160 artistas empenham-se em Kassel, em aproximadamente 30 espaços de exposição, espalhados por toda a cidade. Quem quer descobrir tudo precisa, como ponto de partida, de bons sapatos.

Partindo do centro da cidade, do Museu Fridericianum, onde no momento está sendo apresentada a Coleção do Museu Nacional de Arte Contemporânea de Atenas (EMST), a mostra internacional de arte se estende por diversos museus, praças e parques. Um cinema, uma passagem subterrânea e saguões do campus universitário também foram transformados em espaços de arte, isso sem esquecer a antiga sede dos Correios na região norte da cidade, considerada problemática.

“Being safe is scary”

Acima do portal do Fridericianum, a artista turca Banu Cennetoglu colocou uma nova inscrição: no lugar de “Museu Fridericianum”, lê-se agora “being safe is scary”, ou seja, “estar seguro é amedrontador” – frase que remete à falecida jornalista e guerrilheira curda Gurbetelli Ersöz.

E a reconstrução monumental do templo da Acrópole, que fica ao lado, alude a livros proibidos. Mas as estruturas de aço do Parthenon of books não são revestidas de tijolos e sim de milhares de livros. Com a obra, a argentina Marta Minujín conquistou o coração do público de Kassel. Sua obra tornou-se a mais fotografada de toda a cidade.

Fumaça em obra e moradores de Kassel preocupados chamam bombeiros

Enquanto isso, uma intervenção vem irritando parte dos moradores: desde o início da documenta em Atenas, o artista romeno Daniel Knorr produz uma fumaça branca que sobe da venerável torre Zwehrenturm do Fridericianum. São cinco máquinas de produzir fumaça, usadas normalmente apenas pelo corpo de bombeiros, que formam agora o Expiration Movement. A fumaça, de acordo com Knorr, é um meio de comunicação – seja para anunciar a escolha de um novo papa ou para sinalizar a queima de livros pelos nazistas. O número de moradores de Kassel chamando preocupados os bombeiros vem diminuindo, segundo consta.

Mas nem sempre as mensagens são tão evidentes. Algumas obras narram histórias longas e complexas. A artista islandesa Britta Marakatt-Labba, por exemplo, tricotou em lã um panorama histórico do grupo étnico dos lapões. A expulsão do paraíso em forma de uma obra poética e também artesanalmente impressionante. Uma obra muito diferente da do australiano Gordon Hookey, embora ele, que pertence à etnia dos Waanyi, também proteste contra a opressão e a exploração do colonialismo. Entretanto, Hookey se posiciona de maneira clara e ruidosa com seu clamoroso painel Murriland, altíssimo e cheio de cores, exposto na antiga sede dos Correios na região norte da cidade.

Performance e audiovisual em alta

O que salta aos olhos: pinturas e esculturas tornaram-se mais escassas na documenta. No lugar delas, há muitas performances e intervenções e cada vez mais formatos que transitam entre o cinema, a instalação e material documental, arrebatando olhos e ouvidos. Um exemplo é o da artista romena Geta Bratescu, de 91 anos. Sua sequência de filme Automatism mostra um homem que corta repetidamente uma tela com uma faca. Quando, no lugar da tela, aparece subitamente outro homem em sua frente, ele o esfaqueia.

Já as fotografias da palestina Ahlam Shibli atingem o cerne da sociedade que recebe migrantes. A obra Heimat mostra a vida de alemães que foram expulsos do Leste Europeu, ao lado de trabalhadores dos países mediterrâneos migrados para a Alemanha. São imagens de partida e chegada, com fim incerto. O mesmo acontece com os protagonistas de And then there were none, do tailandês Arin Rungjang, quando percorrem Berlim em missão de reconhecimento histórico.

O cineasta norte-americano Ben Russell, por sua vez, convida o visitante da documenta para adentrar as sombrias catacumbas do Museu Fridericianum, onde propicia aos espectadores de sua instalação de documentários Good Luck uma visão do universo de trabalho árduo de uma mina de cobre na Sérvia e de uma mina de ouro no Suriname. Um astuto é quem, neste caso, nutre ideias de fuga ou pensa no obelisco do norte-americano Olu Oguibe: com mais de 16 metros de altura, ele se eleva sobre a praça Königsplatz. Em letras douradas, está escrito: I was a stranger – and you took me in (Eu era um estranho e vocês me acolheram).

O volume de visitantes da documenta 14 poderá quebrar o recorde de todas as mostras anteriores, acredita o prefeito Bertram Hilgen. Dois meses depois do início em Atenas, mais de dois mil jornalistas viajaram a Kassel para a abertura da mostra. A documenta anterior a esta havia registrado um total de 860 mil visitantes com entradas pagas. Desta vez, é possível que se chegue à marca de um milhão de pessoas. E isso com uma mostra mais política do que nunca. “A exposição mostra uma rebelião na granja do museu”, diz o curador Paul B. Preciado em alusão ao livro de Georg Orwell A revolução dos bichos.