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O feminismo hoje: as cinco questões mais importantes

Quais são os temas  de maior urgência para as mulheres hoje na Alemanha? O que as preocupa? E o que precisa ser feito ainda nesse sentido? Apresentamos algumas personalidades da vida cultural do país que se voltam para os temas e debates feministas mais controversos hoje em dia.

Feminismus Prinzessin EmpowermentFoto: irina_levitskaya © fotolia.com
Empowerment, Gleichberechtigung, Feminismus, Frauenbild mit MaskeFoto: skypicsstudio © Fotolia.com
Empowerment, Gleichberechtigung, Feminismus, BusinessfrauFoto: skypicsstudio © Fotolia.com

Belo mundo novo: como gostaríamos de conviver?

Como conciliar relacionamentos, filhos e trabalho? Ainda hoje, atividades de cuidar de filhos ou parentes continua sendo atribuída às mulheres, seguindo um modelo clássico de divisão de tarefas entre os gêneros. Na sociedade alemã, contudo, há muitas mulheres que criam sozinhas seus filhos. E também comuns são as famílias patchwork, formadas por filhos de relacionamentos anteriores, bem como relações queer, trans ou poliamorosas. Quais formas de convivência são adequadas aos tempos atuais?

QUEM SOU EU? E QUEM QUERO SER?

Homem, mulher – e mais nada? Quem não se sente confortável em nenhuma dessas categorias gera perplexidade.  O feminismo de hoje aposta na diversidade e pergunta: a diferença entre homens e mulheres precisa ser tão rígida assim? Essas categorizações de gênero não acabam por nos oprimir?

Crianças: a quem pertence minha barriga?

“Se queremos ter filhos ou não, decidimos nós mesmas”: a soberania com relação ao próprio corpo foi, durante muito tempo, uma das reivindicações feministas mais importantes. E continua sendo, embora em meio a outras circunstâncias. Hoje podem ter filhos pessoas que teriam sido privadas disso antigamente. Ao mesmo tempo, é possível detectar, bem no início de uma gestação, a existência de anomalias genéticas. Qual é a relação entre a ética da reprodução e o progresso tecnológico? Seis personalidades da vida cultural alemã dão suas opiniões pessoais a respeito.

  • Frl. Wunder AG Foto (detalhe): © Frl. Wunder AG

    Frl. Wunder AG: “Resistir às divergências e abrir caminhos”

    Aborto, inseminação artificial, clones, não importa do que se trata, quanto mais possibilidades médicas e técnicas existem, mais complicado torna-se assumir um posicionamento claro – também sob a perspectiva feminista. Esses debates, frequentemente carregados de emoção, levantam questões éticas complicadas que vão além de demandas importantes, como o direito à autonomia com relação ao corpo feminino em plano tanto subjetivo quanto social. Com o teatro e a performance, podemos criar novos acessos, revelar estruturas normativas e torná-las negociáveis. Eles podem ser pessoais, tocantes, provocadores e, ao mesmo tempo, fazer rir. Surge então um espaço utópico, em que, para além das clarezas, desenvolvemos em conjunto com o público algo que resiste às divergências e abre caminhos.

    O coletivo teatral e performático Frl. Wunder AG, é constituído por sete pessoas de diferentes gêneros, passou por abortos e problemas de infertilidade e hoje tem sete filhos (não apenas biológicos).
  • Ninia Binias Foto (detalhe): © Nina Binias

    Ninia LaGrande: “Muito pequena para ter um filho”

    “Não tenha medo, não vai ser como você”, diz o médico responsável pelo diagnóstico pré-natal e sorri para mim, contente. Não como eu. Não tão errada. Não tão pequena. Não tão diferente.
    “Também vai ficar tão pequena?”, pergunta o homem desconhecido na rua. Tão pequena quanto eu. Tão pequena. Pequena demais. Para ficar assim tão pequena, vai precisar crescer primeiro. “O pai é de que tamanho?” Será que a criança ainda tem uma chance? Talvez ela fique normal? Talvez cresça? “É seu filho?”, exclama a mulher, surpresa. “Você ainda é uma criança”, ela completa. Com 34 anos, muito criança para ter uma criança. Muito pequena para ter um filho. “Nenhuma anormalidade”, diz a geneticista. Nenhuma anormalidade. Nenhum motivo para tomar alguma providência. Um motivo para ficar calma. Tudo conforme o planejado. Tudo em ordem?!
  • Sookee Foto (detalhe): © Sookee

    Sookee: “Estou trabalhando para criar conscientização sobre o problema”

    Sou muito ligada a perspectivas queer dentro do campo temático dos direitos sexuais e de reprodução; elas também exercem um papel fundamental na minha música. Como mulher pan e cis, fico contente que a possibilidade de ficar grávida e viver como uma família tenha sido descomplicada para mim. [nota da redação: pan designa uma pessoa que deseja as pessoas independentemente de seu gênero, cis, uma pessoa em conformidade com o gênero que lhe é atribuído]. É insuportável que as vias para a formação de uma família sejam massivamente dificultadas para pessoas não-binárias, homossexuais e transgêneros. Uso o símbolo do cavalo marinho para gravidezes (masculinas trans) e funções parentais transgênero na música Queere Tiere (Animais queer) e trato desse tema constantemente, inclusive para além da minha música, em entrevistas, por exemplo. Isso funciona bem: em muitas conversas, ouvi quando a ficha caiu. Não disponho de soluções políticas reais imediatas, mas estou trabalhando para criar conscientização sobre o problema.

    Sookee é cantora de rap e feminista radicada em Berlim e, a partir dali, dissemina seu idealismo e análise crítica em palcos, pódios e na biografia de muitas pessoas.
  • Milo Rau Foto (detalhe): © IIPM/Thomas Müller

    Milo Rau: “Excluído na gravidez, festejado na arte”

    Para a peça Die 120 Tage von Sodom (Os 120 dias de Sodoma), que encenei com atrizes e atores do Teatro HORA no teatro Schauspielhaus de Zurique, quase todos pessoas que vivem com trissomia 21, pesquisei sobre diagnósticos pré-natais, ou seja, a possibilidade de examinar o estado de um feto. Em si, uma coisa boa (como tudo que aumenta a liberdade de escolha de mulheres grávidas e casais), isso acaba levando na Suíça ao aborto de nove entre dez fetos portadores de trissomia 21. Um diagnóstico paradoxal: o duramente conquistado direito ao aborto, na prática, vira seleção. Esse paradoxo é agravado pelo fato de o HORA ser contemplado com os maiores prêmios do teatro europeu. Excluído na gravidez, festejado na arte. Fizemos dessa contradição – ou dessa dialética da liberdade – nosso tema em Die 120 Tage von Sodom.

    Milo Rau é escritor, diretor de cinema e teatro e diretor artístico do IIPM – International Institute of Political Murder.
  • Anne Zohra Berrached Foto (detalhe): © Anne Zohra Berrached

    Anne Zohra Berrached: “Muitas pessoas envolvidas têm vergonha e se calam”

    Aborto tardio, barriga de aluguel, doação de óvulos: a medicina reprodutiva foi um dos setores médicos que se desenvolveu com a maior velocidade nos últimos anos. Hoje é possível “terceirizar” gravidezes e que o óvulo fertilizado de uma mulher seja gestado por outra. Mulheres podem dar à luz filhos que não têm parentesco biológico com elas. Assim como no caso de abortos tardios, esses temas quase não são discutidos publicamente na Alemanha. Muitas pessoas envolvidas têm vergonha e se calam. Eu gostaria que a sociedade examinasse conjuntamente esses temas, sem preconceitos e em vez disso com um questionamento sobre que medos, preocupações e desejos estão por trás deles. Em meus próprios trabalhos, tento despertar uma sensibilidade em relação a pessoas e suas histórias, evitando uma postura de acusação.

    Anne Zohra Berrached é diretora e roteirista dos filmes „24 Wochen“ (“24 semanas”) e „Zwei Mütter“ (“Duas mães”)
  • Moira Zoitl Foto (detalhe): © Moira Zoitl

    Moira Zoitl: “O olhar sobre o feto se modificou”

    O título de meu trabalho Misplaced Concreteness (Concretude deslocada) quer dizer a “concretude em um lugar errado, deslocado”, como expressou a historiadora da medicina Barbara Duden, e é uma alusão às fotografias de Lennart Nilsson sobre o surgimento da vida. As imagens do feto no útero publicadas em 1965 na revista Life: não foi possível retratar o feto através de meios fotográficos, então ele criou uma representação interpretativa da realidade através da montagem. Assim, já na fase pré-natal, o feto “retratado” tornou-se um ser vivo digno de proteção. Esse olhar modificado em relação ao feto legitimou que gravidezes fossem controladas cada vez mais pelo Estado. Assim, a responsabilidade própria e a autopercepção de cada mulher sobre os processos em seu corpo se perderam progressivamente.

    Moira Zoitl é artista plástica. Em suas instalações de vídeo, ela trata de objetos rituais, imagens e representações da fertilidade. Estabelece uma relação entre eles e a forma de se lidar com o corpo dentro do sistema público de saúde.

Princesa “para levar” – Como vocês me veem?

Sou gorda demais, velha demais, não sou suficientemente bonita? Imagens de uma feminilidade idealizada pululam diariamente à nossa frente, nos deixando inseguras e confirmando modelos tradicionais que reduzem as mulheres à aparência. Debates feministas contrapõem a essas imagens estratégias de empoderamento e autoafirmação da mulher.

Black and the City: uma questão de pele

Numa época em que correntes populistas de direita vão se tornando aceitáveis na sociedade, o feminismo empenha-se cada vez mais pelo antirracismo e em prol da integração das pessoas não-brancas. Não apenas porque as mulheres cuja cor da pele não é branca ou aquelas que usam lenços muçulmanos são atingidas de outra forma pelo sexismo que as brancas ocidentais, mas também porque o clichê racista do “estranho perigoso de pele escura” vem sendo cada vez mais instrumentalizado.