Informalidade Relações perigosas

Formas coloquiais no Brasil
Formas coloquiais no Brasil | Foto: Colourbox

Ronaldinho, Juninho, Guga, Maguila. Dilma, Lula, Jango, FHC, JK. A informalidade brasileira ao tratar figuras reconhecidas, de atletas a presidentes da República, costuma provocar estranhamento em boa parte do Velho Mundo, onde os cidadãos tratam-se pelo sobrenome e quase sempre por um senhor/senhora. Mas o uso de apelidos, prenomes e iniciais indica que, além de uma afetividade maior nas relações, há no Brasil menos hierarquia social?

Chamar de “você” um colega de trabalho ou se referir à presidente da República pelo prenome revelam que a informalidade é mesmo um traço nacional. No entanto, ser mais afetivo no trato social pode não significar necessariamente que se está deixando de lado o hierarquismo, ou seja, o respeito exagerado às hierarquias. Um fenômeno que, para alguns especialistas, grassa no Brasil com mais força do que em países do Velho Mundo, onde impera uma excessiva formalidade nas relações interpessoais.

“Chamar pelo prenome ou apelido é uma manifestação de uma forma específica de lidar com a hierarquização”, considera o historiador social Luís Augusto Farinatti, professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). O uso de apelidos ou prenomes é mais comum nas camadas socialmente inferiorizadas da sociedade brasileira, onde a invisibilidade social é significativa. Já entre os membros da elite, ainda há interesse em mostrar o sobrenome como veículo de prestígio em uma cultura hierárquica marcada pela pessoalidade, que descende de práticas e valores do mundo colonial, escravista e do Antigo Regime. “É uma recriação adaptada ao mundo contemporâneo”, explica.

“Inclusão hierarquizada”

Segundo o professor de História da Universidade Federal do Paraná, Carlos Alberto Medeiros Lima, muitas vezes a informalidade (tratamentos afetuosos) pode camuflar a desigualdade social em países como o Brasil, onde, apesar dos avanços recentes, ainda há um enorme abismo entre ricos e pobres. Como exemplo, Farinatti lembra dos “ataques de raiva social, às raias da histeria”, de parte de uma população mais rica, quando percebeu que camadas mais baixas passaram a ter acesso a bens e serviços que antes serviam como símbolo de distinção social, como as viagens de avião.

O historiador aponta que a “inclusão hierarquizada”, ou seja, a capacidade de construir proximidade sem deixar de marcar fortemente um desejo de distinção social, é uma característica de muitas relações interpessoais no Brasil. Basta pensar na forma como as empregadas domésticas são tratadas pelas famílias de classe média e alta. “Com isso, não estou afirmando que a proximidade e a afetividade sejam falsas, construídas maquiavelicamente pelos que se acham superiores. Na maioria das vezes, elas são reais, porém, podem se combinar com um senso de distinção, de superioridade, que se expressa, por exemplo, no paternalismo”, explica. É revelador, neste sentido, o documentário Doméstica (2012), do pernambucano Gabriel Mascaro, realizado com filmagens feitas por sete adolescentes da rotina das empregadas domésticas que trabalham em seus lares – registros que deixam entrever as relações de afeto, mas também de poder, por trás de uma aparente harmonia.
 

Presidentes e presidentes

Nomear presidentes pelo apelido ou pelo prenome pode estar relacionado a vários fatores que revelam forte hierarquia social. O apelido “Lula”, por exemplo, incorporado ao próprio nome do ex-presidente, revela inclusive coerência com o projeto de se colocar ao lado de processos de mobilidade social. Por outro lado, presidentes originários de camadas mais abastadas são conhecidos por seus sobrenomes – é o caso de Collor, Sarney, Figueiredo, Castello Branco. Já chefes de Estado intelectuais têm direito a ser chamados pelo nome completo ou sigla correspondente, como Fernando Henrique Cardoso. “É nome de autor de livros lidos por muita gente”, diz Lima.

Naturalização das diferenças

São exemplos que levam a crer que, mesmo trocando beijos e abraços afetuosos com quem mal conhecemos, podemos não ser menos hierárquicos. “O rito demarca o começo da interação, mas esta, iniciada, pode ter várias formas, das mais igualitárias às mais hierárquicas”, explica Lima.

Em 2013, houve uma tentativa de aprovar o projeto de lei 5241/13, de autoria do parlamentar Nazareno Fonteles (PT-PI), proibindo o uso de pronomes de tratamento que exprimam hierarquia funcional ou social. Arquivado, o projeto parece não ter chamado atenção, talvez por ser difícil acreditar que a simples omissão de pronomes de tratamento contribua para reduzir o hierarquismo no Brasil e, consequentemente, para promover igualdade social. Embora saiba-se que nomear indivíduos como “capitão”, “coronel” ou “doutor”, fora do desempenho de suas funções, é uma herança dos tempos coloniais e monárquicos que ainda persiste, como acentua Farinatti.

A afetividade e a proximidade de contato são traços do brasileiro que devem, sem dúvida, ser celebrados como virtudes. “O problema é quando isso passa para as instituições e afeta a forma como lidamos com o que é público”, explica o professor da UFSM, para quem a hierarquia no Brasil aparece, muitas vezes, ligada à naturalização das diferenças e, como consequência, à busca por privilégios.