Corpo de política O poder dos músculos

Yanis Varoufakis, ministro grego das Finanças;
Yanis Varoufakis, ministro grego das Finanças; | © dpa/Andy Rain

A política funciona segundo as leis do poder. E poder tem aquele que irradia poder – de preferência com o próprio corpo: malhado, belo e forte.

Ele usa jaqueta de couro no lugar de paletó e sua mão quase sempre está no bolso. A camisa em geral está com os botões superiores desabotoados e nunca totalmente para dentro da calça. Suas pastas e papéis ficam guardados numa mochila amassada e não nos fichários chiques de couro. E ele anda de moto. Nada, mas nada mesmo nas aparições públicas do ministro grego das Finanças, Yanis Varoufakis, corresponde à imagem típica do político de uniforme, ou seja, de terno. E é exatamente aí que está a mensagem dessa encenação do corpo: Yanis Varoufakis quer sinalizar a ruptura. Sua demonstração de modéstia simboliza tanto a necessária austeridade do orçamento público grego quanto a precária realidade de muitos habitantes do país, ou seja, do eleitorado. “Esse é um posicionamento político, antes mesmo que Varoufakis fale qualquer palavra”, acredita York Kautt, sociólogo da Universidade Justus Liebig, da cidade de Giessen. Um dos focos da pesquisa de Kautt é exatamente a questão da imagem.

Mensagem aos eleitores

A aparição estilizada como mensagem ao eleitorado é um princípio já conhecido desde a época em que o político Joschka Fischer e o ex-premiê Gerhard Schröder estavam no poder na Alemanha. Fischer usou um par de tênis quando assumiu, em 1985, uma secretaria no estado de Hessen, na condição de primeiro político de um partido ambientalista (Aliança 90/Verdes) a ocupar um cargo dessa envergadura. “Com esse ícone da Modernidade, ele mostrou ao eleitorado: venho da contracultura”, analisa York Kautt. Já o social-democrata Gerhard Schröder aparecia, depois de eleito no ano de 1998, usando ternos caros e com um charuto em punho. A cientista política Paula Diehl, que pesquisa há anos a imagem do corpo na política, diz: “O gesto remetia à ideia do 'eu consegui'. Uma área de projeção maravilhosa para a classe média, que leva ao pensamento: 'Se ele conseguiu, vou conseguir também'”.

Faz parte da nossa era eminentemente imagética ver políticos fazendo política com seus próprios corpos, sem a necessidade de discursos, debates ou papéis estratégicos. “O público é o meio básico de comunicação para os políticos”, comenta York Kautt. O filósofo francês Michael Foucault já havia escrito sobre o corpo em Vigiar e punir: as “relações de poder se apossam do corpo”, ou seja, “elas o revestem, colocam suas marcas nele, forçam esse corpo ao trabalho, obrigam-no a participar de cerimônias e exigem dele sinais”.

Físico bem treinado como demonstração de poder

Com seus corpos, os políticos representam os cargos que ocupam – e com isso o estado do país que governam. Na melhor das hipóteses, representam a própria capacidade de atuação desses países. Não importa se a condição física do presidente norte-americano Barack Obama, do ex-primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, do chefe russo de Estado Vladimir Putin ou do ex-presidente francês Nicolas Sarkozy – fato é que todos já mostraram seus dorsos nus em situações de caça, pesca ou cavalgando. Mesmo que a nudez seja um dos últimos tabus entre políticos, esses senhores quiseram demonstrar dessa forma sua virilidade e, com isso, o poder de seus países.

Uma aparência jovial é também, nesse setor dos políticos profissionais, símbolo de status. Pense-se em Silvio Berlusconi, que escondeu seus cabelos recém-transplantados sob uma bandana. Ou nos cabelos tingidos do político alemão Michael Glos. Ou na cabeleira recém-transplantada de Christian Lindner, líder da bancada do Partido Democrata Liberal (FDP) na Alemanha. Já houve até mesmo um processo judicial cujo cerne era a aparência de um político do país. O motivo: a afirmação supostamente errônea de que o então premiê Gerhard Schröder tingiria o cabelo.

Reflexo da sociedade da meritocracia

Por outro lado, corpos que não irradiam o máximo da capacidade de desempenho não são necessariamente um mal. Imagens de políticos como as do ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, na cadeira de rodas; ou da premiê alemã Angela Merkel de muletas; ou mesmo de Malu Dreyer, governadora do estado da Renânia do Norte-Palatinado, que sofre de esclerose múltipla, transportam outro tipo de mensagem, a serviço da moral do trabalho: “É possível lidar com a doença e com a deficiência de tal forma que surja daí uma pose de vencedor”, analisa a cientista política Paula Diehl. “A mensagem é: somos disciplinados”, acrescenta a especialista. E o sociólogo York Kautt complementa: “Eles emanam, dessa forma, uma ética protestante, ou pelo menos um objetivismo sóbrio”. Uma lógica semelhante é seguida também por aqueles políticos que emagrecem muito, como foi o caso de Joschka Fischer, por exemplo, em 1998; ou do ministro alemão dos Transportes Alexander Dobrindt: o emagrecimento serve aqui para mostrar que o político em questão tem controle sobre seu físico. “Isso irradia poder”, fala York Kautt, para quem “a otimização do eu é expressão da nossa sociedade meritocrática”.

O “corpo do Estado” é, como já havia detectado o político romano Menênio Agripa 500 anos antes de Cristo, um sistema de interdependências similar ao dos órgãos do corpo humano. Esse princípio é essencial para a democracia – e por isso o impulso contínuo dos políticos em assegurar sua legitimação perante seus soberanos, ou seja, os eleitores. A fim de parecer autêntico, é preciso “literalmente andar com a espinha ereta”, acredita Kautt. Mas mesmo assim, a atuação pública de um político hoje é também sempre parte de uma ficção: “Temos a ver com uma geração que se autoencena no Facebook. Aí é uma questão de ter imagens convincentes e não de autenticidade”, conclui Paula Diehl.