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Monumentos controversos
Feridas abertas

O polêmico monumento aos bandeirantes em São Paulo. Imagem do dia 10 de junho de 2010.
O polêmico monumento aos bandeirantes em São Paulo. Imagem do dia 10 de junho de 2010. | Foto (detalhe): Amanda Perobelli © picture alliance / REUTERS

No Brasil, estátuas no espaço público costumam insistir na ideia de um país branco, patriarcal e racista, silenciando mulheres e povos não hegemônicos. Polêmica envolvendo monumento ao sertanista Borba Gato, recém-incendiado em São Paulo, gera longa e acirrada discussão.

Por Ana Paula Orlandi

No final de julho de 2021, a imagem de uma estátua gigantesca em chamas, na cidade de São Paulo, viralizou nas redes sociais e ganhou repercussão não apenas no Brasil, como mundo afora. Segundo o coletivo Revolução Periférica, responsável pela ação, a ideia era provocar o debate sobre figuras controversas homenageadas em espaços públicos do país, a exemplo do bandeirante Borba Gato. “Foi um ato muito bem-sucedido, porque despertou reações de todos os lados, de apoio e repúdio. A polêmica chamou a atenção da sociedade brasileira para a necessidade de se refletir sobre os monumentos presentes em nossas cidades”, opina o escritor Abílio Ferreira, ativista do Movimento Negro desde a década de 1980.


Não vem de hoje a polêmica em torno da estátua inaugurada em 1963 em homenagem a Manuel de Borba Gato, sertanista paulista que teria vivido entre 1649 e 1718. Em 2015, por exemplo, a estátua, com cerca de 13 metros de altura, foi coberta com tinta vermelha e seu pedestal ganhou a frase “bandeirante ruralista assassino”, cunhada por um grupo de ativistas não identificado. “A imagem idealizada do bandeirante como herói intrépido, que a partir do século 16 desbravou as fronteiras para levar civilização aos rincões do Brasil, ganhou força na primeira metade do século 20”, conta a historiadora Ana Rita Uhle, professora da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) e autora da tese de doutorado Monumentos celebrativos: aproximações entre arte e história (1925-1963). Segundo Uhle, a elite paulista da época elegeu os antigos sertanistas, rebatizados de bandeirantes, para simbolizar o afã desenvolvimentista do estado. “Essa imagem romantizada começou a entrar em declínio no final do século 20, com o surgimento de novos olhares sobre o período colonial. Foi quando os bandeirantes passaram a ser responsabilizados por, entre outras coisas, aprisionar indígenas e perseguir escravizados negros”.

Falta de representatividade

Instalação do Coletivo Coletores sobre a estátuda de Borba Gato em São Paulo, que nessas alturas já foi incendiada. Instalação do Coletivo Coletores sobre a estátuda de Borba Gato em São Paulo, que nessas alturas já foi incendiada. | Foto (detalhe): © Toni Bapstiste / Coletivo Coletores O incêndio da estátua de Borba Gato insere-se em um contexto mais amplo que recentemente ganhou visibilidade com o assassinato de George Floyd, em 2020, nos Estados Unidos. A onda de manifestações antirracistas que se espalhou pelo mundo questionou a violência policial e monumentos controversos. 

“Contudo, não se trata de um fenômeno novo. Para ficar apenas na história recente, basta lembrar que, em 1992, um grupo de indígenas derrubou e decapitou a estátua do colonizador espanhol Diego de Mazariegos, no México”, prossegue Uhle.

Borba Gato não é a única personalidade controversa a merecer estátua na cidade de São Paulo. Um levantamento da Secretaria Municipal de Cultura sinaliza a existência de cerca de 40 monumentos que celebram partidários da escravidão, que durou mais de 300 anos no Brasil, ou da ditadura militar (1964-1985).

No contexto do projeto “Vozes contra o racismo: outras narrativas sobre o território paulista”, organizado pelo prefeitura de São Paulo em 2020, o duo de artistas do Coletivo Coletores e o artista indígena Denilson Baniwa apresentaram “Brasil Terra Indígena”: projeção sobre o “Monumento às Bandeiras” do modernista Victor Brecheret – uma homenagem controversa do ano de 1921 à submissão dos indígenas praticada pelos bandeirantes. No contexto do projeto “Vozes contra o racismo: outras narrativas sobre o território paulista”, organizado pelo prefeitura de São Paulo em 2020, o duo de artistas do Coletivo Coletores e o artista indígena Denilson Baniwa apresentaram “Brasil Terra Indígena”: projeção sobre o “Monumento às Bandeiras” do modernista Victor Brecheret – uma homenagem controversa do ano de 1921 à submissão dos indígenas praticada pelos bandeirantes. | © Toni Bapstiste / Coletivo Coletores Além disso, há grande desigualdade em termos de representatividade nessas homenagens, como mostra o estudo A presença negra nos espaços públicos de São Paulo. Em uma primeira fase, finalizada em 2020, a pesquisa localizou 200 monumentos que representam figuras humanas, sendo que 169 deles retratam homens – e 137, brancos. Dentre as 24 mulheres homenageadas, 18 são brancas e apenas uma é negra.

“A escravidão é uma ferida que continua aberta em nossa sociedade. Essas estátuas controversas deveriam ser removidas e levadas para esses espaços de memória, onde seriam contextualizadas, evitando o apagamento de determinado período histórico”.

Historiador Carlos da Silva Jr. da Universidade Estadual Feira de Santana na Bahia

Menos de um mês após o incêndio da estátua de Borba Gato, a prefeitura paulistana anunciou que pretende inaugurar, até o início de 2022, estátuas de cinco personalidades negras – a exemplo da escritora Carolina Maria de Jesus e do atleta e campeão olímpico Adhemar Ferreira da Silva. Caso essas sejam finalizadas, as estátuas em homenagem a pessoas negras vão corresponder a 5% dos monumentos da cidade.

“Essa desigualdade denota que o projeto de memória pública de São Paulo estabeleceu a ideia de uma cidade branca, patriarcal, racista e colonizadora, marcando os lugares sociais e impondo silenciamentos a mulheres e povos não hegemônicos”, afirma Cássia Caneco, uma das coordenadoras da pesquisa. “Considero o incêndio do Borba Gato como um grito. Há muito tempo afrodescendentes e indígenas, que se sentem incomodados com a estátua, vêm tentando diálogo com o poder público, mas pouco aconteceu desde então”.

Ferida aberta

A situação não é diferente em outras cidades brasileiras, segundo aponta o historiador Carlos da Silva Jr., professor da Universidade Estadual de Feira de Santana, na Bahia, e presidente da Associação Brasileira de Estudos Africanos. Em 2020 ele criou, com um grupo de pesquisadores, o projeto Salvador Escravista, que mapeia estátuas controversas ou reparadoras na capital baiana.

Monumento inaugurado no ano de 2020 em homenagem a Joaquim Pinto de Oliveira, conhecido como Tebas, em São Paulo. Tebas (1721–1811) foi um engenheiro, arquiteto e artesão brasileiro, escravavizado até provavelmente os 58 anos de idade por portugueses no Brasil e possivelmente mantido em regime de escravidão também pela Igreja Católica. Monumento inaugurado no ano de 2020 em homenagem a Joaquim Pinto de Oliveira, conhecido como Tebas, em São Paulo. Tebas (1721–1811) foi um engenheiro, arquiteto e artesão brasileiro, escravavizado até provavelmente os 58 anos de idade por portugueses no Brasil e possivelmente mantido em regime de escravidão também pela Igreja Católica. | © Marcel Farias ​“Apesar de ser uma cidade de população majoritariamente negra, Salvador infelizmente ainda cultua em seus espaços públicos pessoas como o português Joaquim Pereira Marinho, que traficou escravizados para o Brasil no século 19”, diz Silva. 

De acordo com o historiador, já passou da hora de o Brasil criar museus sobre o período escravagista: “A escravidão é uma ferida que continua aberta em nossa sociedade. Essas estátuas controversas deveriam ser removidas e levadas para esses espaços de memória, onde seriam contextualizadas, evitando o apagamento de determinado período histórico”.“As remoções de estátuas controversas ou a instalação de estátuas reparadoras precisam vir acompanhadas de uma conscientização da população acerca dos motivos da decisão. Do contrário, a discussão não avança”, defende Abílio Ferreira, organizador do livro Tebas: um negro arquiteto na São Paulo escravocrata (2019), sobre Joaquim Pinto de Oliveira. Autor de várias construções no século 18, ele só ganhou uma estátua em 2020, situada no centro paulistano.

Indignação seletiva

Em 2020, a estátua de Borba Gato foi alvo do projeto Monumento pra quem?, dentro da Jornada do Patrimônio, evento da prefeitura de São Paulo, que teve participações da artista visual Kelly Carvalho, do artista indígena Denilson Baniwa e do Coletivo Coletores, composto pelos multiartistas Toni Baptiste e Flávio Camargo. Com a obra Pujança Editada, o duo buscou ressignificar a escultura com a projeção de uma série de imagens, que vão do período colonial até os dias de hoje, usando retratos de vítimas da ditadura e da violência policial. 

“A arte tem essa potência transformadora, mas não vemos o recente incêndio da estátua como algo mais radical do que está acontecendo hoje no Brasil, onde a população sofre com desemprego e fome”, diz Baptiste. “Sem contar os quase 600 mil mortos pela Covid-19 em função do descaso do poder público. Há indignações seletivas em nosso país, onde temos uma mobilização maior por causa do incêndio da estátua de uma figura controversa do que pelo recente incêndio na Cinemateca Brasileira”, completa Camargo.

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