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Selene Wendt
Ouvindo os ecos do Atlântico Sul

Nyugen E. Smith, Bundle House: Where Do We Begin?, detalhe (2019)
Foto (detalhe) © Nyugen E. Smith

Dame ‘e bebé, que tengo sed
Dame ‘e bebé, que tengo sed 
Y he bebido pero aún estoy sedienta
Que fue de su amor en su corazón
Por eso no hay ná pa’ calmá tu sed

Dá-me de beber, que tenho sede
Dá-me de beber, que tenho sede
E já bebi, mas ainda estou sedenta
O que foi feito de seu amor em seu coração
Por isso não há nada para acalmar tua sede

– Canção de The Sea in Its Thirst is Trembling (O mar, em sua sede, treme), de Dawit Petros

Em Ouvindo os ecos do Atlântico Sul, apresentado no Oslo Kunstforening (de 6 de fevereiro a 4 de junho de 2020), a curadora Selene Wendt reuniu uma gama espetacular de artistas para responder à profunda interconectividade entre música e história em relação ao “Atlântico como um sistema de intercâmbios culturais” (Paul Gilroy). A exposição reativou as histórias emaranhadas do Atlântico Sul compartilhadas entre África, Caribe e Américas por meio de vídeos, instalações, esculturas e performances, todos baseadas na música como linguagem de resistência e solidariedade.

“Apesar de esta ser apenas uma pequena amostra do todo, as obras de arte e poemas selecionados ressoam claramente com o conceito curatorial predominante do Carnaval em construção. As implicações inquietantes das canções, músicas e poesias que encontramos ao longo do caminho lembram-nos das iniquidades provocadas pelo colonialismo e suas contínuas consequências. Cada uma das obras expressa a importância da política sonora em uma jornada compartilhada, que envolve o enfrentamento do passado para que se possa compreender melhor o presente.” 
– Selene Wendt

Em resposta à proposta do Carnaval em construção, Selene Wendt destaca três dentre estas obras de arte: o filme de Dawit L. Petros The Sea in its Thirst is Trembling (O mar, em sua sede, treme), o vídeo de Jeannette Ehlers Black Magic at the White House (Magia negra na casa branca) e a série Bundlehouse, de Nyugen E. Smith, apresentada junto com os poemas The Cartographer Tries to Map a Way to Zion (O cartógrafo tenta mapear um caminho para Sião), de Kei Miller, e The Ark by “Scratch” (A arca por “Scratch”), de Ishion Hutchinson.

Abaixo, Selene Wendt apresenta e comentas estas obras.

Black Magic at the White House

O vídeo de Jeannette Ehlers, Black Magic at the White House (Magia negra na casa branca, 2009), envolve uma intervenção decolonial radical, que ilumina a história colonial da Dinamarca/Noruega.

Até muito recentemente, a narrativa amplamente aceita era de que a Noruega não possuía história colonial em relação à África e ao Caribe. Até 2017, o aniversário de 100 anos da venda das Ilhas Virgens pela Dinamarca aos Estados Unidos por 25 milhões de dólares em ouro, a Dinamarca realmente ainda não havia começado a reconhecer seu próprio passado colonial. O fato de a Noruega ter transportado pessoas escravizadas em navios e lucrado com seu comércio transatlântico era normalmente descartado sob a desculpa de que a Noruega estava sob o domínio da Dinamarca durante o período colonial. 
Black Magic at the White House – Jeannette Ehlers (2009 Black Magic at the White House – Jeannette Ehlers (2009 | © Jeannette Ehlers Na verdade, muitos comerciantes, investidores e proprietários de navios noruegueses estiveram diretamente envolvidos no tráfico de pessoas africanas escravizadas para o Caribe, como parte de um comércio triangular entre a Dinamarca/Noruega, a Costa do Ouro (Gana) e as Índias Ocidentais (Ilhas de Santa Cruz, São Tomás e São João). Apesar do número exato variar, a maioria das estimativas indica que aproximadamente 120 mil pessoas africanas escravizadas foram traficadas sob a bandeira dinamarquesa da Guiné para as antigas Índias Ocidentais Dinamarquesas. Mesmo depois de 1803, quando foi abolido o tráfico naval sob a bandeira dinamarquesa de pessoas escravizadas da África para o Caribe, dinamarqueses e noruegueses continuaram a lucrar com a propriedade de pessoas escravizadas e a economia de plantação ao longo da Costa do Ouro e nas Índias Ocidentais.

 

 
Neste vídeo, Ehlers performa uma dança Vodu na Mansão Marienborg, casa que tem uma forte conexão com o comérico triangular, uma vez que pertenceu a vários mercadores e comerciantes de pessoas escravizadas desde que foi construída em 1744. É interessante considerar as implicações do fato da performance de Jeannette Ehlers ser essencialmente uma dança invisível.

Nós a vemos dançar, mas ela é invisível. Vemos o contorno de seu corpo, mas não a vemos. Ela está camuflada diretamente no antigo papel de parede e no assoalho de madeira nobre. 
 
Nessa invisibilidade, essencialmente um apagamento, ela criou uma obra ousada e radical. O pulso rítmico e insistente da percussão é igualmente crucial para o impacto da obra. Imagens de um vevê sendo desenhado sugerem que ela está realizando um ritual Vodu. Ocupando espaço colonial, como ela faz, posicionando seu corpo neste espaço, a obra funciona como um ato poderoso de resistência por meio de sua própria invisibilidade, enquanto ela exorciza os demônios coloniais para fora da mansão.
 Black Magic at the White House – Jeannette Ehlers (2009) Black Magic at the White House – Jeannette Ehlers (2009) | © Jeannette Ehlers Em última instância, a obra trata das histórias invisíveis e não-ditas da Dinamarca/Noruega, transferindo-as para o centro da narrativa, bem ali na residência do primeiro-ministro da Dinamarca (desde 1962). Assim, parafraseando Fred Moten, a obra é uma encenação contundente da insistência penetrante de quem é excluído. (Fred Moten: In the Break: The Aesthetics of the Black Radical Tradition, 2003, p. 223.)

The Sea in Its Thirst Is Trembling

Dawit L. Petros
Dawit L. Petros, The Sea in Its Thirst is Trembling, performance ao vivo com membros do grupo Ashé Oloron para Ríos Intermitentes (Intermittent Rivers), parte da 13ª Bienal de Havana (2019) Dawit L. Petros, The Sea in Its Thirst is Trembling, performance ao vivo com membros do grupo Ashé Oloron para Ríos Intermitentes (Intermittent Rivers), parte da 13ª Bienal de Havana (2019) | © Dawit L. Petros Música e migrações musicais, tão evidentes em todo o Ouvindo os ecos do Atlântico Sul, talvez sejam mais aparentes na obra de Dawit L. Petros, The Sea in its Thirst is Trembling (O mar, em sua sede, treme, 2019).

O vídeo coincide com uma intervenção sonora colaborativa concebida por Petros para sua participação na exposição Intermittent Rivers (Rios intermitentes), promovida por Maria Magdalena Campos-Pons para a 13ª Bienal de Havana (2019). Petros trabalhou em estreita colaboração com pessoas locais que praticam música e arte por um extenso período de tempo, para criar uma obra que conecta sonoramente as histórias das cidades de Matanzas, em Cuba, e Asmara, na Eritreia. Como Petros descreve: “Os sons híbridos do jazz produzidos em Adis Abeba, na Etiópia, de 1973 a 1979, refletem uma forte interação entre as tradições musicais da Etiópia e de Cuba. Música e som constituem, portanto, uma zona de emaranhamentos complexos que reuniram as lutas marxistas para a independência da Eritreia (1961-1991), a luta imperialista antimonárquica e histórias da Guerra Fria.”


Membros do grupo musical Ashe Olorun se apresentaram para ambas as versões da obra (ao vivo e em vídeo), e uma entrevista com o lendário escultor Agustín Drake Aldama, natural de Matanzas, complementa a forte corrente transcultural subjacente do vídeo. 
 
A performance ao vivo foi realizada no rio San Juan, debaixo de uma ponte que acabou conectando tradições, histórias e culturas musicais.  


O percusionista principal, Hiran Polledo Diaz, sentado no muro à margem do rio, tocou junto e em resposta aos percussionistas, Osmays Rodriguez Diaz e Reinaldo Adazabal, e à cantora, Mayline Carballo Bidez, que se apresentaram em um pequeno barco pesqueiro que circulava pelo rio e pela Baía de Matanzas.
Dawit L. Petros, The Sea in Its Thirst is Trembling, performance ao vivo com membros do grupo Ashe Olorun para Ríos Intermitentes (Intermittent Rivers), parte da 13ª Bienal de Havana (2019) Dawit L. Petros, The Sea in Its Thirst is Trembling, performance ao vivo com membros do grupo Ashe Olorun para Ríos Intermitentes (Intermittent Rivers), parte da 13ª Bienal de Havana (2019) | © Dawit L. Petros Enquanto estava ali, ouvia atentamente a todos os sons à minha volta: o chamado dos vendedores de rua, os sons do reggaeton extravasando de um bar ao lar livre bem atrás de nós e o roncar intermitente dos carros atravessando a ponte. Também ouvia o grito infinito da poesia e sentia a musicalidade de tudo à minha volta. Fiquei impressionada em um sentido profundamente glissantiano com a interconectividade entre todas as coisas. Como o título insinua, a obra de Petros remete a Édouard Glissant e seu conceito do pensamento trêmulo e à importância da multiplicidade cultural e do intercâmbio.

Bundlehouse

Nyugen E. Smith
Nyugen E. Smith Bundlehouse F.S. Mini No. 1, objetos achados e técnica mista (2019) Nyugen E. Smith Bundlehouse F.S. Mini No. 1, objetos achados e técnica mista (2019) | © Nyugen E. Smith A forma bundlehouse aparece em pinturas, trabalhos em papel e esculturas. Em algumas de suas performances, chega a se ter a impressão de que ele mesmo é um bundlehouse, quando navega o espaço empacotado em frouxas camadas de vestimenta, evocando a dualidade enigmática da forma bundlehouse como um abrigo protetor ou um indivíduo protegido. 
Nyugen E. Smith Bundlehouse: FS Mini No. 2, vista 1 (2019) Nyugen E. Smith Bundlehouse: FS Mini No. 2, vista 1 (2019) | © Nyugen E. Smith Falando em termos gerais, as obras Bundlehouse tratam de como as pessoas são forçadas a novamente juntar os pedaços para reconstruir sua vidas depois de terem sido desarraigadas devido a um evento traumático. 
Nyugen E. Smith Bundlehouse: FS Mini No. 1, três vistas (2019) Nyugen E. Smith Bundlehouse: FS Mini No. 1, três vistas (2019) | © Nyugen E. Smith Naturalmente isso traz à mente a vulnerabilidade das ilhas caribenhas resultada do aquecimento global e dos furacões. 
 
O mapeamento, e, mais especificamente, o remapeamento constitui parte importante da abordagem decolonial de Smith, que se mostra da forma talvez mais evidente em Bundlehouse Borderlines No. 3Isle de Tribamartica (2017), que é, na verdade, o mapa de uma ilha fictícia. Essa ilha é um híbrido de Trinidad, Cuba, Martinica, Haiti e Jamaica, e faz referência à maneira como as pessoas têm a tendência de pensar sobre o Caribe em termos monolíticos, como um lugar com um só idioma, cultura e conjunto de hábitos.
Nyugen E. Smith, Bundlehouse Borderlines No. 3 (Isle de Tribamartica) (2017) Nyugen E. Smith, Bundlehouse Borderlines No. 3 (Isle de Tribamartica) (2017) | © Nyugen E. Smith Ao empregar a cartografia, utilizada pelos colonizadores para documentar estes espaços, ele também comenta como aqueles entenderam tudo errado.
 
Estas obras evocam a complexidade da tentativa de mapear um lugar e definir o que ele é, enquanto também questionam quem pode definir o quê. A incorporação de elementos de mapas antigos combinados a referências à cultura e ao folclore de Trinidad e do Haiti resulta em obras cativantes que tanto desafiam quanto invertem a narrativa. Ilustrando uma característica típica de sua obra, múltiplas camadas de significado estão sempre se escondendo, apesar de estarem à vista. As narrativas ocultas e o rico simbolismo de sua linguagem visual, como a cobra de paetês de Bundlehouse: Where Do We Begin? (2019), que evoca o espetáculo dos desfiles de carnaval, ou os búzios utilizados como moeda durante o tráfico de pessoas escravizadas, brincam constantemente com questões e desafios das narrativas eurocêntricas do passado (e do presente).
Nyugen E. Smith Bundlehouse: FS Mini No. 2, vista 2 (2019) Nyugen E. Smith Bundlehouse: FS Mini No. 2, vista 2 (2019) | © Nyugen E. Smith Com as três esculturas Bundlehouse criadas para Ouvindo os ecos do Atlântico Sul, camadas adicionais de significado entram em jogo. Na transição das imagens pintadas, desenhadas ou compostas em colagens para a forma tridimensional, as esculturas ocupam o espaço com sua presença. Compostas de ampla gama de materiais descartados ou reutilizados, incluindo roupas, pedaços de madeira, penas e outros resíduos, elas parecem tanto vulneráveis quanto vigorosas em sua postura. Em uma vivificante performance ao vivo na abertura de Ouvindo os ecos do Atlântico Sul, Smith interage diretamente com as esculturas, concedendo-lhes vida na esfera sonora.  

Bundlehouse: FS Mini No. 3, vista 3 (2020)   Bundlehouse: FS Mini No. 3, vista 3 (2020)    

Belamente transformadas de detritos e artesanatos em esculturas, as peças parecem sussurrar a respeito da espiritualidade, enquanto também gritam sobre injustiças sociais e estratégias de sobrevivência, bem como sobre a colonialidade e a necessidade do pensamento decolonial.
 

 

WHILE YOU SLEEP

Esta performance criada para o palco foi adaptada de uma parte de um conto original de Nyugen E. Smith intitulado While You Sleep (Enquanto você dorme). O conto foi inspirado por uma declaração do poeta barbadense Kamau Brathwaite, que fala da necessidade de um ritual para impedir que as almas das milhões de pessoas africanas escravizadas que morreram nas águas durante a jornada transatlântica voltem para nos assombrar.

A história acontece durante a época do carnaval, em algum lugar do Caribe. Ela é protagonizada por Ele, jovem poeta, que tem pesadelos surreais todos os anos durante essa temporada. Embora cada sonho seja cheio de símbolos e significados de certa forma reconhecíveis, Ele procura insights sobre o significado dos sonhos junto às pessoas mais velhas de sua comunidade. Quanto mais se aproxima de J’ouvert (Jouvay), o espírito de ancestrais nos sonhos fica menos perturbado.

Acompanhado por Xander Crook na percussão, Smith apresentou a performance no Teatro Nordic Black, em Oslo, na Noruega, em março de 2019, por ocasião de sua participação no evento The Sea is History (O mar é história).

 

Acompanhado por Xander Crook na percussão, Smith apresentou a performance no Teatro Nordic Black, em Oslo, na Noruega, em março de 2019, por ocasião de sua participação no evento The Sea is History (O mar é história).

A Cartographer Tries to Map A Way to Zion

Kei Miller

A antologia de poemas The Cartographer Tries to Map a Way to Zion (Um cartógrafo tenta mapear um caminho para Sião) é um mapeamento da Jamaica que aborda tanto as paisagens, encruzilhadas e espaços da ilha quanto provoca uma reflexão crítica sobre a história da Jamaica colonial. 
 
A coleção de 27 poemas apresenta um homem rastafári e um cartógrafo, cujos inflamados debates sobre mapas são intermitentemente pontuados por ruminações poéticas sobre estradinhas do interior que levam a lugares com nomes como “Wait-a-Bit” e “Me-no-Sen-You-no-Come”. No caminho, Miller envereda por desvios cativantes em direção a uma ilha pré-colonizada, recordando-nos de que “no passado bem remoto, o mundo não era mapeado” (Kei Miller: The Cartographer Tries to Map a Way to Zion, 2014, p. 10.)
 
Semelhante à forma com que os mapas visuais de Nyugen E. Smith são também aulas de história decolonial, o mapa metafórico de Miller para o Sião cumpre o mesmo papel, constituindo uma aula sobre a cartografia decolonial, ensinando “o que o cartógrafo deveria saber”. (Kei Miller: The Cartographer Tries to Map a Way to Zion, 2014, p. 15.) 

A certo ponto, o cartógrafo argumenta que seu trabalho “é desembaraçar o que está emaranhado, despreocupar quem tem preocupações e guiar você para fora dos becos sem saída em que entrou por engano”. (Kei Miller:The Cartographer Tries to Map a Way to Zion, 2014, p. 16.) É quase como ler As cidades invisíveis, de Italo Calvino, com uma vibe reggae de raiz.  
 
Semelhantes a Calvino, os poemas de Miller são tão enigmáticos quanto reveladores. A verdade é escrita em letras maiúsculas em cada página, invariavelmente transmitida com complexidade e precisão. Tudo faz o mais perfeito sentido, até mesmo quando o cartógrafo repreende o rastafári, indicando que “toda linguagem, inclusive a sua, é um mapa parcial deste mundo”. (Kei Miller:The Cartographer Tries to Map a Way to Zion, 2014, p. 45.) Se este livro é um mapa parcial do mundo, também é um livro “em que cada canção canta Sião”. (Kei Miller: The Cartographer Tries to Map a Way to Zion, 2014, p. 39.)

 
What the Mapmaker Ought to Know
 
On this island things fidget.
Even history.
The landscape does not sit
willingly
as if behind an easel
holding pose
waiting on
someone
to pencil
its lines, compose
its best features
or unruly contours.
Landmarks shift,
become unfixed
by earthquake
by landslide
by utter spite.
Whole places will slip
out from your grip.

iv.
The rastaman thinks, draw me a map of what you see
Then I will draw a map of what you never see
And guess me whose map will be bigger than whose?
Guess me whose map will tell the larger truth?
 
xvi. in which every song is singing Zion
On evenings when we put pillows to our ears,
trying to mute the sermons
of a thousand deejays broadcast 
on boom-boxes across this island,
It is then that every track leads to Zion:
Bob Marley, Luciano, Junior Gong,
Wingless Angels, Delroy Morgan, Buju Banton,
All-a dem dissa chant down Babylon,
All-a dem dissa chant Armagiddeon.
We dream ourselves alone by abandoned rivers.
Oh Missa Man, will you ever understand
Why such songs spring from this strange land?

House of Lords and Commons

Ishion Hutchinson

Semelhantemente à maneira como Derek Walcott nos ajudou a entender que o mar é história, e no espírito da observação de Edward Kamau Brathwaite de que a unidade é submarina, a poesia de Ishion Hutchinson expressa a profundidade musical da história e as histórias que conectam a música. Sua poesia se aproxima de um Walcott remixado em uma vibe de raízes conscientes. Com The Ark by “Scratch” (A arca por “Scratch”), ele invoca a mágica do estúdio de Lee “Scratch” Perry transmitida como uma brilhante alegoria sobre a história transatlântica. Embora a poesia seja frequentemente comparada à música, e tradições orais do Caribe sejam inerentemente musicais, a musicalidade da poesia de Hutchinson se estende para além das nuances de tons e ritmos. Se seus poemas falam a linguagem da música, eles também expressam a importância cultural, política e histórica da própria música. Ele começa Sibelius and Marley nos dizendo que a história desmantela a música. Mais tarde, admite que a música desmantela a história. Ambas as possibilidades soam verdadeiras, ecoando as implicações duradouras do que Édouard Glissant descreve como “o grito da Plantação”.

The Ark by “Scratch”

“The genie says build a studio. I build
a studio from ash. I make it out of peril and slum
things. I alone when blood and bullet and all
Christ-fucking-’Merican-dollar politicians talk
the pressure down to nothing, when the equator’s
confused and coke bubbles on tinfoil to cemented wreath.
I build it, a Congo drum, so hollowed through the future
pyramids up long before CDs spin away roots-men knocking    
       down by the seaside,
like captives wheeling by the Kebar River. The genie says build
a studio, but don’t take any fowl in it, just electric.
So I make it, my echo chamber with shock rooms of rainbow
King Arthur’s sword keep in, and one for the Maccabees
Alone, fro covenant is bond between man and worm.
Next room is Stone Age, after that, Iron, and one I
named Freeze, for too much ice downtown in the brains
of all them crossing Duke Street, holy like parsons.
And in the circuit breaker, the red switch is for death
and the the black switch is for death, and the master switch
is black and red, so if US, Russia, China, Israel talk
missiles talk, I talk that switch I call Melchizedek.
I build a closet for the waterfalls. One for the rivers.
Another for oceans. Next for secrets. The genie says build
a studio. I build it without gopher wood. Now, consider 
the nest of bees in the cranium of the Gong, consider
the next of wasps in the heart of the Bush Doctor,
consider the next of locusts in the gut of the Black Heart Man,
I put them there, and the others that vibrate at the Feast of the
       Passover when the collie weed
is passed over the roast fish and cornbread. I Upsettter, I Django
on the black wax, the Super Ape, E.T., I cleared the wave.
Again, consider the burning bush in the ears of Kalonji
and the burning sword in the mouth of the Fireman and the
       burning pillar in the eyes.
of the Gargamel, I put them there, to outlast earth as I navigate
       on one
of Saturn’s rings, I mitre solid shadow, setting fire to snow in    
       my ark.
I credit not the genie but the coral rock: I man am stone. I am perfect.
Myself is a vanishing conch shell speeding round 
a discothèque at the embassy of angels, skeletons ramble to
       check out
my creation dub and sex is dub, stripped to the bone, and dub 
       is the heart
breaking the torso to spring, olive beaked, to be eaten up by   
       sunlight.”  

Para mais conteúdo, visite a publicação digital Ouvindo os ecos do Atlântico Sul.

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