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Rap indígena
“Não cabemos dentro de rótulos”

Integrantes do grupo de rap Brô MCs
Foto: © Alexandre Carneiro

Jovens rappers de origem indígena estão se inserindo na cena musical brasileira e criando uma legião de fãs. Ao defender o resgate das próprias origens e denunciar a violência presente em suas comunidades, enfrentam também o preconceito e o ódio nas redes sociais. “É música para questionar o estado das coisas”.

Por Ana Paula Orlandi

Retomada é o título do álbum que deve ser lançado neste ano pelos Brô (contração de brothers) MCs, grupo de rap formado por duas duplas de irmãos dos povos Guarani-Kaiowá. CH e Kelvin Mbarete vivem na aldeia Bororó, enquanto Bruno Veron e Clemerson Batista moram na aldeia vizinha, Jaguapiru. Com cerca de 16 mil pessoas, as comunidades ficam na Reserva Indígena de Dourados, criada em 1917, no estado do Mato Grosso do Sul, um dos polos do agronegócio no Brasil. “Queremos denunciar a realidade de violência vivida por nossa comunidade. Uma das músicas que cantamos é Terra Vermelha, inspirada na história de que a terra daqui é vermelha, porque foram muitos os povos indígenas que derramaram seu sangue no Mato Grosso do Sul”, diz Veron. “Lutamos pelo direito de existir”, completa.

O título do disco, que também batiza uma das canções composta pelo grupo, remete ao movimento de retomada das terras ancestrais iniciado na década de 1970 por lideranças indígenas do Mato Grosso do Sul. Ali, os territórios originários passaram a ser entregues pelo poder público a não indígenas, como fazendeiros, sobretudo a partir do final do século 19. E até hoje a terra segue sendo alvo de disputa: o Mato Grosso do Sul é o estado onde mais se matou indígenas no Brasil entre 2003 e 2019, segundo estudo do Instituto Socioambiental, organização da sociedade civil, sediada em São Paulo, que atua ao lado de comunidades indígenas e quilombolas do Brasil. Entre as vítimas está o próprio avô de Bruno Veron e Clemerson Batista, o líder indígena Marcos Veron, assassinado em 2003 por causa da questão fundiária.

Preconceito de todos os lados

Com 13 anos de carreira, os Brô MCs se definem como “o primeiro grupo de rap indígena do Brasil” e escrevem, sobretudo, rimas em português e guarani, a exemplo da música Eju Orendive, que conta com mais de 480 mil visualizações no YouTube. Além do disco novo (o primeiro do quarteto), CH, Kelvin, Bruno e Clemerson participaram em setembro da primeira noite dedicada ao rap do Rock in Rio, o maior festival de música brasileiro. Eles dividiram o palco com Xamã, rapper de ascendência indígena, nascido e criado no Rio de Janeiro, que chegou ao topo do ranking do Spotify Brasil em 2021.

Essa aceitação não foi, contudo, fácil. A resistência ao rap feito por indígenas vem de vários lados, aponta Bruno Veron: “Quando o Brô MCs surgiu, enfrentamos muito preconceito. E isso tanto dentro da nossa comunidade indígena, quanto no cenário do hip hop brasileiro. Levou um tempo para sermos respeitados”, conta o rapper. “Mas o rap não tem fronteiras. Sua essência é a mesma em qualquer lugar. Rap é denúncia, é ativismo, é música para questionar o estado das coisas”.

Enfrentando o machismo

Hoje, a cena do hip hop brasileiro abriga outros nomes de artistas indígenas, como por exemplo MC Anarandá, também da etnia Guarani-Kaiowá. Ainda sem disco gravado, a rapper lançou no ano passado o vídeo do single Feminicídio, no qual relembra em versos a morte de uma amiga: “Já chega de tortura de corpo perfurado. Já chega de mulher com o rosto ensanguentado. Já chega de mulher vivendo humilhada. Já chega de mulher com o coração rasgado”.

A rapper MC Anarandá A rapper MC Anarandá | Foto: Edgard Kanayko As músicas de Anarandá misturam português e guarani para tratar de questões relacionadas às mulheres indígenas. “O machismo está presente em todos os lugares, inclusive nas aldeias. Os homens acham que só podemos cuidar dos filhos e fazer tarefas de casa, mas a gente nasceu para ser livre e fazer o que gosta”, defende a rapper, que divulga seu trabalho na internet. “Sou artista independente e cuido de tudo sozinha, mas é preciso se preparar psicologicamente para estar nas redes sociais, que são cheias de comentários racistas, preconceituosos, dos haters. Há muito ódio contra os indígenas em nosso país. Tem gente que acha que não podemos ocupar as universidades, as redes sociais, os palcos. Ou então que não podemos cantar rap, porque não tem nada a ver com nossa cultura”, observa.

Orgulho do idioma

Aos 25 anos, Anarandá é mãe de um menino de cinco anos e cria duas sobrinhas adolescentes na aldeia Guapoy, no município de Amambai, no Mato Grosso do Sul. Para sustentar a família trabalha como professora de guarani, fala sobre diversidade cultural em escolas da região e divulga lojas do comércio local em suas redes sociais. Anarandá também participa do projeto Voa parente, do selo musical Azuruhu, criado com o objetivo de impulsionar trabalhos de artistas de diversas etnias e estilos musicais.

Nativos MCs, de Mato Grosso Nativos MCs, de Mato Grosso | Foto: Claudio Reis O primeiro fruto do projeto foi lançado em janeiro passado: o vídeo Tente entender, dos Nativos MCs. Criado em 2021, o grupo de trap é composto por Macc JB, Urysse Kuykuro e Pajé MC – os três pertencem à etnia Kuikuro e moram na aldeia Afukuri, no Alto Xingu, no estado do Mato Grosso. “Nossas rimas levam com orgulho o nosso idioma. As línguas indígenas estão vivas, embora muitos não indígenas acreditem que elas morreram. O rap é uma forma de mostrar essa vitalidade”, diz Urysse Kuykuro. “Nas apresentações usamos colares, cocares, braçadeiras, urucum no cabelo. Nosso corpo é político e também transmite uma mensagem de luta e permanência”, completa.

Reconexão com as origens

O resgate da ancestralidade indígena é também a tônica de Ritual, primeiro disco da rapper Souto MC, que nasceu há 27 anos na periferia da cidade de São Paulo, onde vive até hoje. Lançado em 2019, o álbum é aberto por um poema escrito pela artista e lido pelo pai, Pedro Neto, cearense radicado na capital paulista e descendente da etnia Kariri, do Nordeste brasileiro. Na sequência vem a faixa Caça e caçadora, cuja letra evoca a busca pela própria identidade.

Para a rapper, Ritual é um álbum coletivo. “É um disco que fala desse meu processo muito íntimo de reconexão com as minhas origens, mas também busca falar com outras pessoas que estão passando pela mesma experiência. Em casa sempre conversamos sobre a raiz indígena de nossa família, mas de maneira superficial. Nos últimos quatro anos, resolvi mergulhar nessa história para entender meu lugar dentro dela”, conta Souto, que tem dez anos de carreira, a maior parte dedicada exclusivamente ao rap.

Em 2015, ela também passou a compor sambas, como Altamira, presente em Ritual. “Os indígenas estão nas periferias das grandes cidades não apenas do Brasil, como do mundo inteiro. Aqui, a gente ouve samba, rap, funk, e isso acaba influenciando o nosso som. Não cabemos dentro de rótulos”, conclui.

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