Projetos com torcidas Contra a violência e o racismo no futebol

Football fans

Para muitos alemães, o futebol é parte da própria identidade, embora justamente os mais jovens acabem muitas vezes levando também suas frustrações para dentro do estádio. Para evitar a violência, autoridades apostam no trabalho de assistência social.

Já se passaram quase 130 anos desde que o B.F.C. Germania 1888, o primeiro clube alemão de futebol, foi fundado em Berlim. Hoje, a Federação Alemã de Futebol (DFB), com seus aproximadamente 25 mil clubes e mais de 6,8 milhões de sócios, é a maior federação desportiva do mundo. E o futebol é jogado em praticamente todas as partes, seja em Munique, a terra do recordista alemão de campeonatos Bayern de Munique, ou no estado de Schleswig-Holstein, situado no norte do país e sede do TSV Schilksee, da quinta divisão.

Para muitos homens loucos por futebol, e cada vez mais mulheres, a terra natal está diretamente associada às cores do próprio clube: o azul e branco do Schalke 04; o amarelo e preto do Borussia Dortmund; o vermelho e branco do Hamburger SV. O clube para o qual se torce é quase uma questão de crença religiosa. As cidades de Offenbach e Frankfurt, por exemplo, ficam no estado de Hessen, a apenas dez quilômetros de distância. Mas nada neste mundo faria um torcedor do Offenbacher Kickers celebrar as vitórias do Eintracht de Frankfurt. Ou vice-versa.

QUANDO O ENTUSIASMO ACABA EM VIOLÊNCIA

No entanto, o entusiasmo pelo futebol no país do tricampeão mundial tem também seus lados sombrios, pois frequentemente a paixão por um clube pode acabar em violência. Embora a maioria dos espectadores seja totalmente pacífica, o número de ocorrências violentas vem aumentando. Segundo dados da Agência Central de Informação sobre Eventos Desportivos, subordinado à polícia da Renânia do Norte-Vestfália, na temporada de 2012/2013 foram registrados 1700 delitos envolvendo lesão corporal. Cinco anos antes, eram apenas 1200. Em todo o território alemão, há mais de 10 mil pessoas registradas como propensas à violência ou em busca de envolvimento com atos violentos.

Ao observar esses dados em comparação com o número de espectadores, fica, contudo, claro que a violência é uma exceção entre os torcedores alemães de futebol. Entre os 18,2 milhões de pessoas que ocuparam os estádios do país para assistir aos jogos da primeira e da segunda divisão, o percentual de violentos é de 0,009 por cento. Segundo o sociólogo do esporte Gunter Pilz, essa é uma situação “praticamente paradisíaca”. Embora muitos torcedores enxerguem a si mesmos hoje como “ultras”, como torcedores “de verdade” de futebol, seguindo a euforia típica do Sul da Europa, a violência deste grupo, de acordo com Pilz, nem se compara à dos agressivos hooligans que fizeram escola na Europa nos anos 1980 e 1990.

CONCEITO NACIONAL DE SEGURANÇA E TRABALHO PREVENTIVO COM TORCEDORES

O momento mais triste foi a catástrofe no Estádio Heysel, em Bruxelas, no ano de 1985, quando, durante a final da Taça dos Campeões Europeus entre o Liverpool e a Juventus de Turim, 39 pessoas morreram em decorrência de um pânico de massas desencadeado por hooligans britânicos. Na Alemanha, transcorreram ainda seis anos até que políticos e dirigentes da DFB entendessem que não poderiam continuar minimizando o assunto da violência de torcedores. Depois que, em março de 1991, centenas de torcedores do Dynamo Dresden vandalizaram de tal forma durante um jogo da Taça dos Campeões Europeus contra o Estrela Vermelha de Belgrado, que a partida teve que ser interrompida por um sem-número de forças policiais, os secretários do Interior dos 16 estados alemães reuniram-se, em 1993, para esboçar o Conceito Nacional de Esporte e Segurança (NKSS). Pela primeira vez, eram estabelecidas diretrizes para o trabalho preventivo contra a violência de torcedores.

No cerne deste trabalho preventivo estão projetos com torcedores, sustentados por organizações municipais ou de bairro voltadas para jovens e caracterizados “pela proximidade da cena e pela abordagem sociopedagógica”. O financiamento não vem das próprias associações, mas é garantido pelos governos estaduais, municipais e pela DFB, embora as prefeituras sejam obrigadas a disponibilizar todo ano pelo menos 60 mil euros para este fim. A DFB também destina esse mesmo valor. E os clubes de futebol profissionais da primeira à terceira divisão são obrigados a nomear um representante dos torcedores como pessoa de contato.

PREVENINDO A INFILTRAÇÃO DE TORCEDORES RADICAIS DE DIREITA

Hoje há na Alemanha 49 projetos com torcedores, entre eles também em Cottbus, no estado de Brandemburgo, onde o FC Energie acaba de cair para a terceira divisão. A ênfase do projeto financiado com 200 mil euros é a “assistência social que vai às ruas”, na qual três funcionários procuram chegar até torcedores jovens de futebol com uma oferta variada de lazer também fora dos estádios. O trabalho nos últimos 15 anos valeu a pena, diz o assistente social Sven Graupner. De acordo com ele, o número de delitos corporais no contexto dos jogos de futebol diminuiu sensivelmente. O principal problema, segundo Graupner, é o “racismo latente” que perpassa todas as camadas de torcedores. “A compreensão de democracia de alguns torcedores é pouco desenvolvida”, diz o assistente social. Em Cottbus, é feito também um trabalho de “esclarecimento político”, a fim de evitar a infiltração de torcedores radicais de direita.

Michael Gabriel, há muitos anos coordenador dos projetos com torcedores, elogia o “intenso trabalho de relacionamento” feito diariamente em cada um desses projetos. “Faz muito bem trabalhar com tanta gente empenhada”, diz Gabriel. O sociólogo do esporte Gunter Pilz também acredita que os projetos com torcedores são indispensáveis, embora devessem receber mais recursos. “Se 3 mil policiais não conseguem resolver o problema, como é que um ou dois assistentes sociais vão conseguir?”, questiona. Para Pilz, os políticos deveriam se debruçar mais sobre o assunto, visto que os motivos da violência não estão no futebol, mas sim no ambiente social dos torcedores. Seria preciso proporcionar aos jovens um cotidiano capaz de “lhes proporcionar bem-estar”.