O parque Tempelhof em Berlim Experimento e área livre

Parque Tempelhof
Parque Tempelhof | Foto: Tempelhof Projekt GmbH

Uma área livre de 380 hectares no meio da cidade: desde que o Aeroporto de Tempelhof parou de funcionar, em 2008, o espaço se tornou o maior parque urbano de Berlim. Ali onde os aviões antigamente se posicionavam para a decolagem, hoje corredores e ciclistas fazem seus circuitos. Jogadores de beisebol lançam bolas para se aquecer, pessoas passeando curtem a ampla paisagem e jardineiros urbanos repousam por entre batatas e girassóis.

Quando o Aeroporto de Tempelhof saiu de funcionamento, as autoridades berlinenses planejavam construir ali milhares de apartamentos e uma nova biblioteca central. No entanto, os cidadãos da cidade impediram a execução desses planos através de um plebiscito, que levou a um resultado bem claro. Em maio de 2014, a maioria votou pelo projeto de lei da “Iniciativa 100 por cento Parque Tempelhof”, que exclui a possibilidade de construções no terreno do antigo aeroporto. Posteriormente será ainda apresentado um “plano de desenvolvimento e gerenciamento” produzido com a participação da população. Tillmann Heuser, diretor regional da Federação de Meio Ambiente e Preservação da Natureza (BUND), assumiu a coordenação do processo conduzido pela administração de Berlim. Em eventos informativos, oficinas temáticas e no que se chama de diálogos de campo, todos os interessados tiveram a possibilidade de apresentar ideias e expressar seus desejos.

Projeto “Tempelhofer Freiheit”: um lugar para todos

Parque Tempelhof Parque Tempelhof | Foto: Tempelhof Projekt GmbH Tilmann Heuser resume os resultados: “Os berlinenses querem modificar o mínimo possível o Parque Tempelhof e preservar o caráter único dessa área livre”. Espaços para possibilidades em vez de usos preconcebidos, liberdade e amplitude em vez de ofertas fragmentadas de atividades de lazer: de acordo com o desejo dos moradores da cidade, excluindo a construção de complementos como mais sanitários, bancos e fontes de água potável, tudo deve continuar como está. “O Parque Tempelhof é um lugar sem orientação comercial, a que todos têm acesso e que abre possibilidades para as pessoas se movimentarem, se encontrarem e se comunicarem”, explica Heuser. O valor atribuído a esse espaço demonstra, segundo ele, uma compreensão de desenvolvimento urbano que inclui mais do que a mera definição de áreas e a determinação de uso. “Como espaço urbano em transformação, o Parque Tempelhof torna claro o significado de áreas e espaços livres na cidade.” Em outras palavras: urbanismo é mais do que contruções e concreto.

Mito Tempelhof

Prédio do aeroporto Prédio do aeroporto | Foto: Tempelhof Projekt GmbH A paixão com que muitos berlinenses discutem o futuro do Parque Tempelhof também tem a ver com o complexo passado do lugar. Tanto do ponto de vista dos esportes quanto da aviação, do período nazista ou da Guerra Fria: rastros históricos dos séculos 19 e 20 fazem do Parque Tempelhof um lugar carregado de história. Em 1883, já havia ali jogos de futebol e críquete. Em 1909, pioneiros da aviação, como o conde Ferdinand von Zeppelin e Orville Wright, entusiasmavam os berlinenses com suas invenções. Em 1923, foi inaugurado o aeroporto, que Adolf Hitler mandou reformar de 1936 a 1941, para transformá-lo num instrumento de propaganda: o “Aeroporto Internacional de Tempelhof”. A organização paramilitar SS construiu ali o campo de concentração Columbia. Durante a Segunda Guerra Mundial, a indústria armamentista utilizou o espaço, explorou milhares de pessoas obrigando-as a trabalhos forçados. Com a ponte aérea berlinense de 1948/49, os aliados do Ocidente criaram o mito Tempelhof e transformaram o aeroporto num símbolo internacionalmente conhecido de defesa da liberdade. Pois quando a União Soviética bloqueou todas as vias de acesso terrestre e aquático à ilha Berlim Ocidental, britânicos e americanos abasteceram a cidade por via aérea, garantindo, assim, sua sobrevivência.

Participação pública como campo de experimentação

Vista sobre pista rumo a Neukölln Vista sobre pista rumo a Neukölln | Foto: Tempelhof Projekt GmbH Visitas guiadas, aplicativos e painéis informativos deverão dar vida à história do Parque Tempelhof – esse também é um resultado da participação dos cidadãos. Discutir de maneira aberta, justa e transparente, identificar conflitos, encontrar pontos em comum: a área de Tempelhof é um campo de experimentação para um processo de planejamento que inclui a política, a administração e os cidadãos. Como garantir que todos possam participar sem o perigo de se perder em discussões intermináveis? Segundo o coordenador Tilmann Heuser, “o importante é uma boa estruturação temática do processo, no nosso caso, por exemplo, em torno dos temas principais: preservação ambiental, história, esporte e administração do parque. Depois, o principal é estabelecer cronogramas e planos de ação para cada tema. Assim, consegue-se obter resultados consistentes e com ampla aceitação”

Construir apartamentos, manter o espaço livre

Telhado do aeroporto com torre de radar Telhado do aeroporto com torre de radar | Foto: Tempelhof Projekt GmbH Existem também planos futuros para o terminal do aeroporto, um prédio tombado de 300 mil metros quadrados, vizinho ao Parque Tempelhofer. Os pavilhões são alugados para festivais, feiras e shows. Num dos sete hangares, moram refugiados. Na cobertura de 1,3 quilômetro de comprimento, a administração da cidade-estado Berlim planeja abrir uma galeria histórica transitável. Mais espetacular é a proposta do arquiteto Arno Brandlhuber: para minimizar a falta de residências, ele propõe adicionar mais oito andares à totalidade do prédio. Assim, seriam construídos 3.500 apartamentos – número que corresponderia ao planejamento inicial para o Parque Tempelhof. Preservar o espaço livre e construir apartamentos: as duas coisas seriam possíveis. Talvez o Parque Tempelhof seja um lugar onde o espírito pioneiro e as ideias inusitadas consigam evoluir especialmente bem.