Entrevista com Michael Ballhaus "Minha escola foram as salas de cinema"

Michael Ballhaus
Michael Ballhaus | Foto: © pa-picture alliance

O diretor de fotografia Michael Ballhaus ajudou a escrever a história do cinema. Ele é o homenageado com o Urso de Ouro de Honra desta edição de 2016 da Berlinale (o Festival Internacional de Cinema de Berlim). Em entrevista, Ballhaus fala sobre sua trajetória extraordinária.

A Berlinale vai lhe conceder neste ano de 2016 o Urso de Ouro de Honra por sua obra completa. O que significa para o senhor essa condecoração?

Ela tem um valor imenso, porque me sinto ligado à Berlinale há 40 anos. Sempre gostei muito de estar representado com filmes no Festival. Esse prêmio coroa, por fim, meu empenho pela Berlinale.

O senhor é o primeiro diretor de fotografia a receber esse prêmio. Diferentemente de atores e diretores, os diretores de fotografia recebem na Alemanha raramente a atenção do público. No seu caso, é diferente. Houve em sua trajetória um momento no qual o senhor percebeu que estava sendo conhecido também por um público mais amplo?

Acho que isso começou nos anos 1980, quando rodei nos EUA filmes com Martin Scorsese e outros diretores. Trabalhar, como alemão, para o cinema norte-americano, é algo especial. E naquela época não eram muitos os alemães que seguiam carreiras desse tipo nos EUA.

O grande apreço pela profissão do ator é muito importante

Em sua autobiografia “Bilder im Kopf” (Imagens na cabeça), o senhor escreve que, quando criança, mal viu filmes. Seus pais eram atores de palco e construíram um pequeno teatro, no qual o senhor começou a atuar como fotógrafo. O teatro foi uma escola importante para seu trabalho posterior?

Certamente foi. No teatro aprendi a importância da profissão de ator e o quanto os atores precisam ser tratados com sensibilidade. Esse grande apreço que tenho pela profissão desempenha um papel importante, pois o ator sente isso quando está na frente da câmera.

O senhor quis se tornar fotógrafo de cinema depois de ter assistido aos trabalhos de filmagem de “Lola Montès” (1955), de Max Ophüls – um dos filmes mais extravagantes dos anos 1950. A partir dali, o senhor frequentou uma escola de fotografia e trabalhou durante alguns anos como operador de câmera em uma emissora de TV. No fim dos anos 1960, o senhor rodou seu primeiro filme para o cinema, tendo também dado aulas na Academia Alemã de Cinema e Televisão de Berlim (dffb). O senhor, no entanto, nunca estudou Cinema.

Não, minha escola foram as salas de cinema. A partir de um determinado momento, passei a ir muito ao cinema. Vi alguns filmes várias vezes. O Desprezo, de Jean-Luc Godard, por exemplo, vi oito vezes! Ali tinha tanta coisa boa, que eu simplesmente queria entender como o fotógrafo Raoul Coutard tinha feito aquilo. Outro exemplo foi Sven Nykvist, diretor de fotografia de Ingmar Bergman. Ele fotografava tão maravilhosamente os olhos das pessoas. Os olhos sempre foram para mim algo muito importante. Eles são a janela para a alma.

“Motion is emotion”

Entrevista com Michael Ballhaus | © editfestivalchannel (youtube.com)

Seu nome é associado ao de Scorsese, mas sobretudo ao de Rainer Werner Fassbinder. Nos anos 1970, o senhor fez 15 filmes com ele...

Trabalhar com Fassbinder foi uma escola dura, mas boa. Aprendi muito. No mais, quem conseguia se dar bem com Fassbinder, consegue se dar bem com qualquer diretor! Ele era mesmo um pouco difícil...

Para “Martha” (1974), de Fassbinder, o senhor inventou o famoso travelling de 360 graus, que entrou para a história do cinema como o “pião de Ballhaus”. Já em seus filmes mais antigos saltam aos olhos seus travellings elegantes.

Os movimentos de câmera sempre foram muito importantes para mim. Acredito na máxima “motion is emotion” (movimento é emoção). Quando você movimenta a câmera, você desencadeia uma emoção no espectador.

A partir dos anos 1980, o senhor passou a trabalhar nos Estados Unidos. Até que ponto o senhor era recebido por lá como diretor de fotografia alemão?

Os diretores tinham em mente que eu tinha um outro olhar sobre as coisas, diferente daquele dos meus colegas norte-americanos. Isso sempre foi positivamente assinalado. Eu tinha a coragem de trabalhar com muita rapidez e baixos orçamentos. Meu primeiro filme para o Scorsese, Depois de horas, teve um orçamento de apenas quatro milhões de dólares e teve que ser rodado em 40 noites. Eram condições sob as quais o próprio Scorsese nunca mais trabalhou depois, só nesses primórdios. Eu dizia a ele: “Marty, precisamos rodar 15 tomadas por noite. Eu consigo, já fiz isso com o Fassbinder”.

“Gosto de histórias com emoção”

Com Scorsese, o senhor rodou sete filmes, entre eles “Os bons companheiros” (1990), “Gangues de Nova York” (2002) e “Os infiltrados” (2006). Há algum predileto entre eles?

Sim, A época da inocência, de 1993. Este é, na verdade, meu filme preferido.

Um melodrama, uma adaptação para o cinema de um romance de Edith Wharton: a história de um amor que fracassa por causa das convenções...

Gosto desse tipo de histórias carregadas de emoção. Tínhamos um roteiro muito bom e possibilidades excelentes, com atores fantásticos como Michelle Pfeiffer, Winona Ryder e Daniel Day-Lewis. As locações e os sets de filmagem eram um sonho. Uma coisa do gênero, nunca teríamos podido rodar na Alemanha naquela época.

Esse filme é encenado de maneira absolutamente complexa e precisa.

Sim. Da mesma forma que Fassbinder, Scorsese é também um diretor muito visual. Ele elabora detalhadamente suas ideias para cada tomada. E foi sempre um prazer colocar em prática suas ideias. Pois há sempre uma grande diferença entre a descrição de uma imagem e a forma de transformá-la em realidade.
 
“A época da inocência”, trailer | © Sony Pictures (Youtube.com)

Fotografei muitos filmes maravilhosos

O senhor já conhecia Michelle Pfeiffer desde “Susie e os Baker Boys” (1989).

Esse foi para mim um filme interessante: o diretor Steve Kloves não era, por sua vez, nada visual. Depois de ler o roteiro, contei para ele como eu imaginava o filme. Ele disse: “Então faça assim, exatamente assim”. Eu pude me movimentar livremente com as imagens. E gostei muito disso, claro.

O momento mágico do filme é aquele de uma rodada fantástica de câmera em torno de Michelle Pfeiffer, que está deitada sobre um piano de cauda cantando.

Essa rodada de 360 graus em torno da Michelle... Quando li o roteiro, já sabia: precisa ter o efeito de um ato sexual. Ali a câmera tem que rodar uma vez em torno dela! Sugeri ao Steve e ele se entusiasmou. A Michelle encenou também maravilhosamente bem. Esse foi um dos grandes momentos de sua carreira.

O senhor trabalhou com muitos grandes diretores, entre eles com Francis Ford Coppola, Volker Schlöndorff e Wolfgang Petersen. O senhor nunca pensou em dirigir seu próprio filme de ficção?

Na verdade, tinha uma história que me interessava muito: a vida de Lotte Lenya [cantora e atriz austríaca]. Mantive a ideia desse projeto durante anos, que por fim fracassou por causa de um editor de TV alemã. Mas tudo bem, rodei filmes maravilhosos. Os estúdios de hoje provavelmente não produziriam mais um filme como A época da inocência. Tive a sorte de ser diretor de fotografia em um tempo no qual havia uma grande riqueza de conteúdos no cinema.