JÖRG DRÄGER EM ENTREVISTA “PROGRAMAS EDUCATIVOS DIGITAIS SERÃO PARTE DO COTIDIANO”

Aprendizado digital
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O aprendizado digital leva a uma democratização do saber, conforme a tese central de Jörg Dräger em seu livro “A revolução digital da educação”. Mas o que isso quer dizer concretamente? E por que, na Alemanha, ainda há tanto ceticismo?

Em seu livro, você defende a tese de que a transmissão digital do conhecimento resulta em um sistema educacional mais justo. Como é que isso funciona?

Nos Estados Unidos e em vários países emergentes, os altos custos e o difícil acesso à educação promoveram o boom das alternativas digitais. Muitas pessoas não têm condições de financiar nem aulas de reforço nem o estudo em uma universidade. Já numerosas ofertas de ensino digital são gratuitas e com livre acesso via internet. Elas alcançam milhões de pessoas para além dos auditórios e salas de aula. A diversidade crescente dos estudantes também demanda soluções digitais. Por meio de softwares e algoritmos inteligentes, as tarefas podem ser adequadas às habilidades e à velocidade de aprendizado de cada um. O princípio de ensino usado até hoje – a mesma tarefa para todos, ao mesmo tempo e no mesmo lugar – já deu o que tinha que dar. Graças à digitalização, justamente as pessoas deixadas de lado por esse sistema passaram a ter mais chances.

Os MOOCs (Massive Open Online Courses), que podem ser acessados livremente, têm um papel importante como prova da sua tese sobre a democratização do ensino. Por que você não leva em consideração a crítica que é feita a esse formato? Afinal, é alto o número de pessoas que interrompem os cursos, e nem todas as plataformas são de livre acesso.

Os MOOCs são apenas um primeiro passo. Eles possibilitam um acesso em massa, mas ainda personalizam muito pouco o aprendizado. É verdade que o número de pessoas que interrompem os cursos é alto. Mas, se 160.000 pessoas iniciam um curso sobre inteligência artificial na Universidade de Stanford e 23.000 o concluem, o número de estudantes continua sendo muito maior do que o que um professor poderia atingir em seus seminários durante toda a sua carreira.

CETICISMO ALEMÃO

Na Alemanha, ainda há poucos sinais de uma revolução digital na educação. Muitos docentes são céticos a respeito do uso de técnicas digitais durante as aulas. Você pode compreender isso?

Uma grande parte do corpo docente alemão ainda acha que o aprendizado digital significa uma carga maior de trabalho. Pode-se chegar a essa avaliação, se se reduzir a educação digital a iPads e quadros interativos. Mas é claro que nem tudo o que é tecnicamente possível também faz sentido do ponto de vista pedagógico. No entanto é possível usar a tecnologia digital para ajudar o professor, em vez de sobrecarregá-lo, por exemplo, para incentivar alunos individualmente em classes grandes e heterogêneas, ou no acompanhamento de estudantes em universidades cada vez mais superlotadas.

Porque ali o incentivo individual não é mais possível?

Num grupo pequeno, o pedagogo pode se concentrar de maneira ideal nas necessidades de cada pessoa que ele está acompanhando. Um professor numa classe com 30 crianças já tem mais dificuldade. Em países emergentes, em que uma classe conta frequentemente 50 alunos, isso se torna praticamente impossível. E um professor universitário com 250 estudantes num auditório não é mais capaz de personalizar suas conferências. Cada aluno ou estudante possue habilidades e nível de conhecimento próprios. Isso representa grandes desafios para os professores. Eles devem esperar até que a maioria tenha entendido o assunto? Nesse caso, outros ficariam entediados e o padrão do curso cairia. Ou simplesmente continuam, arriscando sobrecarregar outros muitos?

Que possibilidades a tecnologia digital oferece?

Em algumas universidades dos Estados Unidos já se trabalha com planos de ensino individuais, que um computador compila diariamente para cada aluno. E escolas superiores contam com um programa que indica a cada estudante as aulas mais compatíveis com seus interesses e habilidades – e nas quais ele tem uma chance realista de sucesso. Assim, professores de escolas e universidades assumem um novo papel, passando de transmissores de conhecimento a pessoas que acompanham o aprendizado. Eles deixam a transmissão de conhecimentos padronizados a cargo dos computadores e assim têm mais tempo para o essencial: o acompanhamento individual de cada aluno.

MAIS QUE MEROS APLICATIVOS

Apesar de tudo, há avaliações empíricas que provam que certos alunos têm mais dificuldade de aprender a partir de materiais digitais. Em seu livro, esse debate quase não é levado em consideração. Por quê?

O segredo está na mistura. Nem o ensino meramente analógico nem o puramente digital geram os melhores resultados. Não deveríamos colocar a educação digital em oposição à análoga, mas combinar os dois mundos da melhor maneira possível.

Poderíamos dizer que, como parte da diretoria de uma fundação que investe maciçamente na área da educação digital, você tem uma abordagem mais pragmática em relação às novas tecnologias do que muitos céticos?

A nós, como fundação, interessa sobretudo como assegurar a participação da maior quantidade de pessoas possível na nossa sociedade. O voto eletrônico aumenta realmente a participação eleitoral? A telemedicina possibilita melhor acesso ao atendimento médico em regiões rurais? E as ofertas de aprendizado digital podem melhorar as aulas de maneira consistente? Ainda não compreendemos todas as consequências da digitalização no longo prazo. Justamente por isso, precisamos pesquisar e explorar essa tendência – não deveríamos ignorá-la.

Qual seu prognóstico para o panorama da educação alemã?

Prognósticos são sempre difíceis. Mas nossas instituições de ensino vão continuar a se desenvolver. Elas vão oferecer mais caminhos individuais de aprendizado, fornecer mais feedbacks diretos e possibilitar com maior frequência o aprendizado de maneira lúdica. O jeito de lidar com a diversidade será mais natural e mais eficaz. Em todo esse contexto, os programas e vídeos educativos farão parte do cotidiano.
 


Jörg Dräger Jörg Dräger | Foto (detalhe): © Jan Voth Jörg Dräger é, desde o dia primeiro de julho de 2008, membro da diretoria da Fundação Bertelsmann para as áreas de Ensino, Integração e Democracia, assim como diretor executivo do CHE – Centrum für Hochschulentwicklung (Centro de Desenvolvimento da Educação Superior). Seu livro Die digitale Bildungsrevolution. Der radikale Wandel des Lernens und wie wir ihn gestalten können (A revolução digital da educação. A transformação radical do aprendizado e como podemos moldá-la) foi publicado recentemente.